Em Ovar, ninguém pergunta a ninguém como vai vestido no Carnaval

Pela primeira vez, 2000 foliões de 24 grupos partilham o mesmo espaço de trabalho, mas mantêm segredos porque a surpresa é a alma do Entrudo vareiro

Fotogaleria

É um ano especial. Pela primeira vez na história, os 20 grupos e as quatro escolas de samba do Carnaval de Ovar partilham o mesmo espaço de trabalho. A Aldeia do Carnaval, na zona industrial à entrada da cidade, foi inaugurada em Setembro de 2013. Um sonho transformado realidade com 24 pavilhões à disposição de 2000 foliões que deixaram de andar com as trouxas às costas por casas alugadas ou emprestadas.

Reza a tradição que a surpresa é a alma do Carnaval vareiro, que os grupos mantêm o segredo de roupas e coreografias até ao primeiro desfile. Apesar do trabalho a paredes-meias, do material que circula por espaços comuns, do convívio dos últimos meses, respeita-se a tradição. Ninguém pergunta a ninguém qual a sua máscara. Em Ovar, está tudo a postos com tolerância de ponto na terça-feira. Por ali já não se dorme há vários dias, mas o cansaço desaparecerá quando os pés calcarem o asfalto da avenida. Hoje há corso às 14h30 na Avenida Sá Carneiro. Terça também no mesmo sítio e local. Os bilhetes custam entre seis e 13 euros. Em quatro dias, esperam-se mais de 200 mil visitantes. 

Faltam três dias e a noite da Aldeia do Carnaval parece dia. Na escola de samba Charanguinha, testa-se a maquilhagem a partir de desenhos feitos no papel. “O risco preto nos olhos não fica muito bem”, comenta-se. As plumas precisam de ar quente para ganharem corpo e estiveram toda a tarde numa espécie de sauna. “Andreia, onde está a fita de cetim vermelho?”. Andreia Santos atende o pedido já o relógio passa das 23h. A azáfama intensifica-se porque os fatos têm de ficar prontos. Andreia revela que os 130 elementos da escola de samba vão vestir-se de Jogos Olímpicos, com as respectivas modalidades distribuídas por alas. As cores das roupas são as mesmas dos anéis do símbolo. “Estamos a fazer experiências para a maquilhagem”, explica Alexandra Azevedo. O seu fato está pronto, mas ainda há tanta coisa a tratar na recta final. “É tudo feito à mão, tudo feito de raiz. Neste Carnaval, há brio, há cuidado”, garante.

Na escola de samba Juventude Vareira, também não há mãos a medir para terminar os brilhantes fatos que vão celebrar os 40 anos de liberdade. O espaço é pequeno para tanta gente que sabe exactamente o que tem a fazer. Todos ajudam e não há atropelos. “De quem são estas cuecas?”, pergunta alguém com ar sério. Todos se riem. Cátia Ferreira de agulha na mão não tira os olhos do fato prateado da liberdade que será vestido pela irmã. Está quase pronto. “Teremos uma ala da liberdade e uma ala da opressão, um carro tanque, soldados, o cravo, os capitães de Abril”, revela. Os cerca de 100 elementos já interiorizaram a coreografia ao som de muita batucada. “A surpresa é o elemento base do Carnaval de Ovar”, diz. Segredo é segredo. Cátia está ansiosa pelos desfiles. “Começam às três da tarde e só terminam depois das sete”. Nada que o corpo não esteja habituado.

Os Zuzucas, o único grupo carnavalesco misto, são bastante descontraídos. A porta está aberta e Daniela Brito cola bolas de esferovite nos olhos das ovelhas chonés. A igreja onde as ovelhas vão casar várias vezes durante os desfiles nasce em cima de um carro e as malas e sapatos de cerimónia estão prontos e reluzem em tecidos brilhantes. “Está tudo encaminhado. Por cultura, ninguém pergunta a ninguém como vai vestido”, conta Daniela. Das antigas instalações da EDP, os 42 Zuzucas mudaram-se para a aldeia e puseram tudo no sítio. O material de outros carnavais está arrumado em prateleiras gigantes. Daniela chama-lhe um upgrade em termos de condições de trabalho. Mais juntos, mais convívio. “Mexemos com a economia de uma cidade, temos uma aldeia que não há em mais lado algum. É lógico que somos os melhores”.

Tudo feito à mão

Na escola de samba Costa de Prata, combina-se o ensaio geral da noite seguinte, provam-se fatos, há roupas penduradas e etiquetadas com nomes. É de doçura que ali se fala. Chupa-chupas, algodão doce, rebuçados, gelados, pipocas, bolo de chocolate. Assim são as roupas. Emília Soares, Milu para os amigos, habilidosa na arte da costura, trabalha por amor à causa, desfilará de baiana. “É tudo feito à mão, não há aqui nada colado”, garante, mostrando os chupas bordados e cosidos numa camisa branca. Desde Outubro que ali se trabalha, com mais intensidade desde o início do ano. “A rivalidade é na avenida, não é fora, e nós vamos arrasar”, diz Milu.

Isabel Reis, presidente da Costa de Prata, chega com as mãos cheias de um bolo de chocolate que sobrou do aniversário da filha. Avisa que tem de ir tratar dos fatos dos homens da bateria. As noites mal dormidas começam a pesar, mas o fôlego não esmorece. Isabel Reis também desfilará de baiana doce e informa que depois do Carnaval a sede terá de ser pintada, o material arrumado, para se começar a programar festas para rentabilizar o espaço.

Rafaela Dias, de 14 anos, anda no Carnaval de Ovar há sete. Está preparada para mais um ensaio com botas verdes de salto alto. “Temos de treinar, como vamos no carro e ele abana, não podemos cair”, afirma. Irá vestida de raiz pelo grupo Melindrosas. “Há muita cumplicidade e abertura para um Carnaval com muita alegria”.

Susana Quintela revela que os 58 elementos femininos das Melindrosas inspiraram-se nos nativos, nas cores da terra e das florestas, para abordar o tema de uma forma conceptual. Há cetins e organzas nos fatos e muita imaginação. A saltitar de casas cedidas ou emprestadas, as Melindrosas mudaram as trouxas para a aldeia no ano passado. “Decorámos a nossa casa e depois o trabalho fluiu”.

Caixa
Impacto económico avaliado pela primeira vez

A Câmara de Ovar quer avaliar o impacto económico do Carnaval no seu território e contratou uma empresa que fará um estudo através da aplicação de um inquérito. O papel é substituído por tablets e os técnicos andarão no terreno nestes dias de folia. As perguntas serão feitas a quem anda nas ruas, comerciantes ou não. Num momento posterior, serão feitas chamadas telefónicas com mais perguntas. Alexandre Rosas, vereador da Cultura, não tem dúvidas de que o Carnaval mexe com a economia da cidade, que o investimento de 500 mil euros será recompensado. “É quase certo que teremos retorno”. Mas faltam-lhe números concretos que serão encontrados no estudo. Uma coisa é certa: em 2015, o desfile das escolas de samba de sábado à noite regressará ao centro da cidade, deixando a Avenida Sá Carneiro. A Aldeia do Carnaval veio potenciar a animação e o convívio entre foliões. E não só. “É curioso ver a entrega, toda a envolvência, o facto de aprenderem uns com os outros, o intercâmbio de técnicas”, afirma o vereador. A Fundação do Carnaval de Ovar foi extinta antes do Entrudo do ano passado. A câmara mantém o investimento de 500 mil euros, dos quais sai uma verba de 195 mil para apoio aos 24 grupos.