Esse Mambo

Museu da Kizomba

Para aliviar as tensões entre Angola e Portugal, venho aqui propor, a quem cabe o direito de pensar, promover e investir nesse tipo de projectos, a criação do Museu da Kizomba na cidade de Lisboa. Senhor ilustre presidente da Câmara Municipal de Lisboa, senhores da CPLP, da Secretaria de Estado da Cultura, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, embaixadores, cônsules e demais diplomatas, está aqui uma oportunidade única para tarraxarmos os valores culturais que unem os diferentes povos da comunidade que fala, canta e sonha em português. Seria o primeiro e funcionaria tal como o Museu do Fado, cujos objectivos são, entre outros, os da documentação e fruição do património e do universo do Fado, tendo em vista difundir o conhecimento sobre esta expressão musical e promover a sua aprendizagem. Com a Kizomba não seria diferente, até porque já germinam um pouco por toda a Europa academias e escolas de dança especializadas nesse género musical. O mais ouvido nos subúrbios de Lisboa.

E que momento mais oportuno do que este que vivemos agora? Sim, porque enquanto o país declara falência e pede socorro ao FMI, à União Europeia, à China e aos empresários angolanos - não me canso de afirmar - nunca existiu na história da música urbana feita em Portugal um momento tão criativo como o que estamos a viver agora. Anselmo Ralph, C4 Pedro, Nelson Freitas são apenas alguns dos artistas vindos deste universo, que esgotam Coliseus e Pavilhões Atlânticos, ou seja, as maiores salas de espectáculo de Lisboa. Numa altura em que precisamos de atrair mais turistas para esse cantinho à beira-mar plantado, que símbolo cultural maior do que a eternamente negligenciada Kizomba, para atrair novos turistas? Não se esqueçam que nem só de mar, campos de golfe e fado vive o homem.

Note-se que não estou aqui a defender a criação do museu da Kizomba por capricho cultural, por ser africano, ou porque a Kizomba me está no sangue. Para que fique esclarecido, sou um dançarino bastante medíocre, uma vergonha para os meus conterrâneos, eu sei. Contudo, não deixo de observar como este fenómeno tem vindo a alastrar-se. Nos últimos 5 anos, as escolas de Kizomba têm vindo a multiplicar-se, cativando novos públicos fora da comunidade africana. Hoje pessoas que nunca visitaram um clube de Kizomba mas que tomaram contacto com esta dança através de ginásios, academias e dezenas de workshops que acontecem um pouco todo lado, da Europa aos Estados Unidos, são responsáveis para revolução que a Kizomba está a ter dentro do universo das danças de salão. Já imaginaram a Kizomba a atingir o mesmo estatuto que um Cha-cha-chá ou um Foxtrot?

Lisboa é uma cidade mestiça, é moura, é africana, é mundo, e a solução para a crise, creio, passará por nos reconciliarmos com a história deste lugar único, geograficamente bem localizado, bem no centro do triângulo entre Américas, África e Europa, para lá dos Pirenéus. Este é o lugar que chamamos de casa, um lugar economicamente falhado, mas culturalmente rico, com um péssimo plano de marketing, mas com conteúdo e uma história para contar. Porque não começarmos com um passinho de dança?