Putin ganha luz verde para avançar na Crimeia, onde muitos querem voltar à Rússia

Enquanto em Kiev se lança o estado de alerta para uma possível invasão, na Crimeia celebrava-se antecipadamente a chegada da Rússia. “Os russos nunca fariam mal às pessoas de Sebastopol”, dizem os habitantes russófonos da cidade.

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Manifestantes com a bandeira russa em Simferopol David Mdzinarishvili/REUTERS
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A entrada do aeroporto de Belbek é guardada por homens armados e camiões militares Baz Ratner/REUTERS
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Homens com roupas militares e sem identificação em Balaclava, cidade fronteiriça da Crimeia VIKTOR DRACHEV/AFP
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Activistas pró-Rússia manifestaram-se junto a estátua de Lenine em Simferopol, na Crimeia GENYA SAVILOV/AFP
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Homens armados em Balaclava, citado na Crimeia perto de Sebastopol VIKTOR DRACHEV/AFP

Uma coluna de 13 blindados deslocou-se durante a noite de Sebastopol para a capital, Sinferopol, e aí ficaram estacionados, junto ao edifício do parlamento regional. Nas estradas, principalmente na que liga Sebastopol e a capital, passando por uma das principais bases militares ucranianas na península, em Backchisarai, há checkpoints controlados por civis.

A H06 é uma estrada deserta, cheia de curvas, entre montanhas suaves e cinzentas, cobertas de arbustos rasteiros e algumas árvores sem folhas. Os autocarros que vêm de Leste páram em Severnaia, a alguns quilómetros da cidade, uma reminiscência do tempo em que havia ali uma fronteira. Só quem fosse detentor de uma licença especial poderia entrar na zona militar especial controlada pelos russos.

O autocarro vai completamente cheio, mas não se ouve uma voz. Quem não pôde ficar em casa, por precisar de trabalhar, fechou-se em si próprio.

Sebastopol é uma cidade de colinas, de parques ligados por escadarias, e de todo o lado se vê o mar, a baía, o porto. A zona turística, uma orla cheia de hóteis, restaurantes e cafés com nomes como “Moscovo” e “Rússia”, está deserta. Os cafés estão fechados, com as esplanadas recolhidas, os barcos que fazem passeios turísticos balançam vazios sobre os reflexos dos edifícios da corniche, leves, antigos, maciços e brancos.

Quase nada interrompe o silêncio. As gaivotas, o chapinhar dos patos negros na baía, as gargalhadas de um grupo de jovens em torno de uma geringonça fumegante, quase pré-histórica. Instalaram-se num largo onde, explicaram, se cruzam os vários piquetes de civis que patrulham aquela zona da cidade. A máquina antiga, na realidade um fogão com forno a carvão, foi cedida pelos militares de uma das bases russas. Funciona na perfeição e produz refeições quentes e cafés, que os jovens oferecem aos vigilantes.

“As pessoas que andam a proteger as ruas passam muitas horas sem comer, estão esgotadas”, diz Iulia, de 19 anos. “Fazem turnos, para que a cidade nunca fique desprotegida. Mas a maioria vem à noite”.

O objectivo é defender a cidade e a população dos eventuais ataques da “gente de Maidan”, que, segundo várias fontes fidedignas, está a caminho da Crimeia para matar russos, dizem os jovens. “Já houve vários ataques. Os ucranianos do Oeste já andam por aí”.

"Estaline devia voltar"

A cidade está em alerta. Tem medo, mas parece demasiado orgulhosa para o admitir. Grupos de reformados conversam junto aos muros que dão para o pequeno porto de pesca, mulheres jovens, de leggings e casacos de pele, sentam-se sozinhas, agarradas ao telemóvel, nos bancos dos jardins, as famílias não deixam de passear os bebés pelos parques.

“Antes, eu achava que a Ucrânia deveria entrar na União Europeia”, diz Lena, 28 anos, empurrando o carrinho com o filho de oito meses. “Mas agora, com o que aconteceu, mudei de ideias. Sou contra a violência. O que aconteceu em Kiev destruiu este país. Mostrou que a nossa mentalidade ainda não está preparada para a UE”.

Sacha, o marido, começa a falar mas detém-se, porque um homem se aproxima. “Não pode entrevistar as pessoas. Mostre o seu documento de jornalista”, diz o homem. “Vá-se embora daqui, ou chamo a polícia”.

Subindo a rua que leva à principal base militar russa, a unidade da Frota do Mar Negro, uma mulher de 80 anos diz: “Estaline devia voltar. Foi ele que reconstruiu o país. Faz-nos falta o Estaline”. Parecia fácil desmontar-lhe a tese, mas ela tem respostas para tudo. Põe-se a desenrolar um discurso sobre a Segunda Guerra Mundial, lembrando-se de incríveis pormenores, como se fosse hoje. “A Crimeia é russa”, conclui. “Catarina, a Grande, era alemã, mas foi uma verdadeira russa”, diz Svetlana, num apoio arrebatado à czarina que, em 1783, anexou a Crimeia ao império russo, dando-lhe finalmente acesso ao Mar Negro.

Não se vê qualquer tipo de agitação no imponente edifício da base militar russa. Os portões estão fechados, não há ninguém a entrar nem a sair. Soldados pesadamente armados fazem sentinela do outro lado dos portões. À aproximação de um repórter curioso, um deles põe uma cara que parece de pânico, mas não diz nada. Limita-se a abanar a cabeça lentamente, como quem diz que não. Finalmente, à primeira pergunta, cicia: “Abandonem este território”.

Piotr, 57 anos, e Aleksander, 60, conversam num jardim sobranceiro ao porto. Não se importam de falar de política, comentam a situação e as alternativas, mas todas as frases acabam com uma referência à Segunda Guerra Mundial. “A minha mãe combateu os alemães no Exército Vermelho”, diz Piotr. “Ela sempre me contou histórias desse tempo. As mortes  que houve, a destruição da cidade”.

Em 1941, Sebastopol foi cercada pelas forças do Eixo, alemãs, italianas e romenas, que acabaram por levar a melhor sobre o exército soviético. Os alemães ocuparam a cidade entre 1942 e 1944.

“A minha mãe contou-me o que os alemães faziam. Estes agora fazem o mesmo”. Piotr, que está reformado, mas trabalhou na unidade da Frota do Mar Negro, refere-se aos manifestantes de Maidan e os dirigentes que emergiram em Kiev com a revolução dos últimos dias de Fevereiro. “Estes são nazis e fascistas, como os outros dos anos 40. E não faltaria muito para começarem a perseguir e a matar os russos. A minha mãe morreu há três anos. Já não viu isto. Se estivesse viva, acharia que os líderes de Kiev deviam ir todos presos”.


“Não vai ser uma invasão”     
Piotr conclui: “A Crimeia é da Rússia. Acho bem que os russos assumam o poder aqui. E espero que o façam depressa”. Aleksander concorda: “Os russos vão chegar, mas não vai ser uma invasão. Vão fazer tudo de acordo com a lei. Os russos nunca fariam mal às pessoas de Sebastopol”. Aleksander, cuja pensão de reforma é tão baixa, que tem de continuar a trabalhar, na fábrica de reparação de navios russa, diz que está farto da instabilidade da Ucrânia: “Tenho a certeza de que daqui a três meses este governo vai cair. E volta tudo ao mesmo. Já aconteceu em 2004. Há 20 anos que andamos nisto. Estou farto. A única solução é os russos tomarem conta da Crimeia. Agora as pessoas sabem que isso vai acontecer, e já estão mais felizes, com mais esperança A Crimeia deve jujntar-se à Rússia. Os outros deviam ir para a Polónia”.

O ferry que atravessa a baía de Sebastopol vai à pinha, mas as pessoas mantêm o silêncio, tal como no autocarro. É um barco velho, ferrugento, a ranger por todos os lados. Uma sirene sinistra dá o sinal para a partida. Alguns passageiros usam calças de camuflado, casacos da tropa. Passamos por navios militares antigos, desactivados, ancorados ao longo da baía. É como se a cidade nunca tivesse saído do tempo da Segunda Guerra, ou como se o terror do tempo presente a tivesse atirado para um passado que agora lhes parece mais familiar, mais seguro.

Dois músicos entram no barco e começam a cantar, para pedir dinheiro. Um acordeonista e um guitarrista que canta, com um microfone roufenho, uma melodia do tempo da guerra. “Sebastopol espera pelos seus combatentes, sem saber que nunca chegarão, porque estão mortos”, canta o jovem de rosto magro e roupa muito suja, e as pessoas choram em silêncio, comprimidas nos bancos corridos.