Empresa oferece camas de cartão a sem-abrigo do Porto

A multinacional Smurfit Kappa distribuiu dez camas de cartão que protegem do frio e da humidade em colaboração com o Centro de Apoio aos Sem Abrigo.

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Manuel Roberto
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A madrugada trouxe ontem uma oferenda útil para os sem-abrigo do Porto. A multinacional de fabrico de papel e embalagens Smurfit Kappa distribuiu camas de cartão por algumas ruas da cidade. Para já, numa primeira fase de teste, a empresa ofereceu dez camas. “Foi uma boa ideia. Obrigado”, diz António, 54 anos, deitado na cama improvisada de sempre na Rua Dr. Alves da Veiga.

As camas, que pretendem minimizar o desconforto das noites mais frias, foram entregues em conjunto com o Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA) que quase todas as noites percorre a cidade para entregar comida. Para além dos mantimentos, alguns minutos de conversa são também importantes para quem vive isolado nas ruas.

António aproveita, por isso, para conversar com Ricardo Correia, colaborar do CASA e delegado comercial. Vive há dez anos na rua. Ainda se lembra da primeira noite que passou ao relento. “Existiam aqui muitos sem-abrigo, alguns deles até russos. Mas foram desaparecendo. Uns safaram-se e conseguiram quarto através da Segurança Social. Outros não aguentaram e atiraram-se da ponte”, lamenta António com a mágoa talhada nos brilhantes olhos azuis. “Obrigado pela cama. Felicidades e uma boa noite para vocês”, graceja sorridente enquanto chega o cobertor ao pescoço.

A cama de papelão oferece maior resistência à humidade e tem até uma barreira corta-vento e compartimentos onde se podem armazenar alguns bens. É fácil de montar e desmontar. E uma vez desmontada assume o formato de caixa com uma asa para pegar.

“Haverá, sem dúvida, parceiros” para alargar o projecto 

“Sempre tivemos uma atitude muito solidária. A ideia surgiu há cerca de meio ano até porque muitos sem-abrigo usam o cartão e nós trabalhamos muito com esse material. Lançamos a ideia dentro da empresa ao departamento técnico. No meio deste processo recorremos ao CASA”, cujo colaboradores “têm contacto directo com os sem-abrigo”, disse ao PÚBLICO Rui Seara, gerente da unidade fabril daquela empresa em Vila do Conde.

O responsável sublinha também que para já a empresa “não pensou em custos” e que o projecto “pode vir a ser alargado a outras cidades como Lisboa”. Não tem, aliás, dúvidas de que “haverá, certamente, parceiros”. “Uma peça destas não é de certeza barata, mas os custos não foram a principal preocupação para já. O importante agora é minimizar o sofrimento por que passam estas pessoas”, insiste Seara.

Todos pareceram ter gostado da oferta durante a distribuição na Rua Júlio Dinis, Praça da República, Alves da Veiga e Praça da Batalha. “Acho que todos gostaram bastante da ideia. Apesar de que há funcionalidades que não serão úteis para todos. Será um projecto a longo prazo. Isto ajuda-os para não estarem tanto em contacto com chão e frio. A forma como a cama se arruma também parece bastante fácil e higiénica”, refere o coordenador da delegação do Porto do CASA, Pedro Pedrosa.

O jovem de 27 anos colabora no projecto há quatro anos. “Já estou no CASA há quatro anos. Acho que o número de sem-abrigo mantém-se mais ou menos o mesmo na cidade. O que acontece é que acho que temos mais famílias e pessoas que têm casa e nos procuram na rua para se alimentarem. Neste momento estamos a entregar cerca de 150 refeições por noite”, explica.

“Cuidado, esta é a minha casa. Não a leves. Não a destruas”

Durante a entrega das camas, os colabores do CASA deixaram ainda ficar autocolantes com um logótipo e dizeres que apelam para que os transeuntes não destruam as camas. “Cuidado, esta é a minha casa. Não a leves. Não a destruas”, diz o autocolante em português e em inglês.

“Uma das grandes preocupações é que de manhã os sem-abrigo deixam as coisas arrumadas num sitio e algumas pessoas levam-nas ou destroem por engano”, explica Pedrosa, de 27 anos e estudante de astronomia.

Já na Praça da Batalha, o último ponto da distribuição, o CASA encontra cinco sem-abrigo que fazem da soleira do antigo cinema Batalha o seu lar. “Porreiro, uma camita”, diz um que é de súbito acordado pela chegada dos colaboradores do projecto.

“Aqui o céu e o mundo são a nossa casa”

“Isto é fixe. Estou surpreendida pela ideia”, diz também Manuela Alexandra que tem um quarto, mas faz questão de acompanhar os outros sem-abrigo que conheceu quando a rua era a sua morada. “Gosto muito de estar aqui com eles. São a minha família. Aqui o céu e o mundo são a nossa casa e cada um tem o seu papel”, explica.

François, que há vários anos chegou ao Porto e ficou pelas ruas da cidade, diz Manuela, funciona como uma “espécie de irmão mais velho que acolhe os outros que vão chegando”. E assim é. François tem um casaco onde em inglês se lê “Guardião”. De cerveja de litro na mão, não presta muita atenção às camas novas. Mas sempre vai dizendo “obrigado”, enquanto anda às voltas. “Ele deve ter sido roubado. Ele está muito pesado hoje, mas passa”, confia Manuela.