Opinião

Genéricos estão de “pedra e cal” no mercado farmacêutico nacional

O ano de 2014 ainda vai no início, mas fica, para já, marcado por um acontecimento: o fim da patente do Viagra. Após 20 anos de exclusividade comercial, o mercado abre as portas à introdução de genéricos do afamado “comprimido azul”. Esta alteração tem claras repercussões para os utentes que carecem de tratamentos de disfunção erétil e que, com isto, estão a ver os preços da substância ativa do Viagra baixar para metade. Porém, como reage o mercado farmacêutico ao fim da patente de um medicamento?

Através de estudos recentes, é possível constatar que a quota de mercado da marca patenteada tende a cair de forma pronunciada logo nos primeiros meses. Esta queda não é homogénea, varia entre fármacos e entre classes terapêuticas, mas é claramente visível. Em alguns casos, e em menos de um ano, a marca original vê a quota de mercado cair para valores inferiores a 20 por cento.

De uma maneira geral, o mercado do medicamento em Portugal tem-se contraído, valendo, em 2013, pouco mais de 1,8 mil milhões de euros. De 2009 para 2013, o setor perdeu 27 por cento do seu valor, com quebra de apenas seis por cento no número de embalagens. Em 2013, 27 por cento das embalagens de medicamentos vendidos em Portugal eram genéricos, valor que corresponde a um aumento de 68 por cento desde 2009. Com o fim da patente do Viagra, genéricos devem somar ainda mais pontos e elevar a quota de mercado.

Para os laboratórios, o desenvolvimento de novos fármacos é um negócio que dá resposta às necessidades da humanidade. Porém, o caminho é árduo: antes de poder lançar no mercado uma molécula nova, que funcione e seja segura, um laboratório tem que investigar milhares de moléculas. Este processo é complexo, demorado e repleto de incertezas. Depois, segue-se, ainda, o processo de licenciamento.

Para beneficiar de novos fármacos, a sociedade tem que garantir que os laboratórios continuam a investir no seu desenvolvimento. E isso tem-se conseguido com a atribuição de direitos de patentes que conferem aos seus detentores até 20 anos de exclusividade comercial para os fármacos em questão, cobrando os laboratórios o preço que maximizará o seu retorno.

Quando o período de exclusividade comercial termina outros laboratórios podem comercializar o mesmo princípio activo e, assim, surgem os comummente designados “medicamentos genéricos”. Os laboratórios de genéricos replicam fármacos conhecidos, não incorrem no risco e incerteza envolvidos no desenvolvimento e licenciamento de novas drogas e, por isso, podem vendê-los significativamente mais baratos, logo mais acessíveis.

À medida que os genéricos conquistam quota, as marcas têm usado a baixa do preço como principal mecanismo para tentar contrariar a perda da quota de mercado para os genéricos. Não lhes resta outra alternativa: o consumidor começa, definitivamente, a render-se aos preços dos genéricos e as marcas não podem ficar indiferentes a este novo paradigma.

Docente do IPAM – The Marketing School