Oligarcas tiraram o tapete a Ianukovich com receio de sanções da UE

Os homens mais ricos da Ucrânia são quem puxa os cordéis no país. Nos últimos dois dias abandonaram o Presidente.

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O Presidente Ianukovich, ao assinar o acordo com a oposição Konstantin Chernichkin/REUTERS

Apesar dos apelos a que fossem estes milionários o alvo das sanções da União Europeia para que algo mudasse de verdade na Ucrânia, a UE apenas anunciou que impunha sanções contra os políticos ucranianos que tivessem “as mãos manchadas de sangue”, nas palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros italiana, Emma Bonnino. Mas, diz a Reuters, Ianukovich só terá cedido e assinado o acordo para que se realizem eleições antecipadas e entre em vigor a Constituição de 2004, que limita os seus poderes, depois de ter sido pressionado pelos seus poderosos apoiantes – os oligarcas ucranianos.

“Hoje temos de compreender que os deputados são responsáveis pelo futuro da Ucrânia, e que só dentro das paredes do Verkhovna Rada [Parlamento] é que se pode encontrar a solução para a crise política”, disse à Reuters Vadim Novinski, que é o quarto homem mais rico da Ucrânia e também um dos deputados do Partido das Regiões que ontem furou a disciplina partidária e votou ao lado da oposição para condenar a repressão violenta dos manifestantes pelas forças de Ianukovich.

A União Europeia não avançou os nomes de quem poderia ser alvo de sanções. Mas estes milionários que têm controlado a economia e a polícia ucranianas nestas duas décadas de independência tremeram. Estes homens que enriqueceram com as privatizações das empresas do Estado, tal como aconteceu na Rússia, teriam muito a perder, se fossem alvo de sanções económicas, ou proibidos de entrar nos países da União Europeia.

Rinat Akhmetov, por exemplo, é o homem mais rico da Ucrânia – se os dez maiores oligarcas valem 33 mil milhões de dólares, ele sozinho vale 15,3 mil milhões, diz a revista Ukranian Week, citando números da Comissão Estatal de Estatísticas. Extracção de carvão, geração de electricidade, minas de ferro e siderurgias são as suas áreas de interesse, bem como os media – um interesse comum aos oligarcas. Mas é também proprietário do apartamento mais caro de Londres: em 2011, pagou 136,4 milhões de libras (165 milhões de euros) por uma penthouse.

O também proprietário do clube de futebol Shakhtar Donetsk é da região de Donetsk, tal como Ianukovich, e tem sido o seu maior suporte financeiro. Também era membro do Parlamento, até há pouco tempo e continua a influenciar cerca de 50 deputados, diz a BBC.

Na Rússia, Vladimir Putin estabeleceu uma linha vermelha clara para os oligarcas – podem continuar com as suas fortunas, desde que não se metam na política. Mikhail Khodorkovski não cumpriu a regra e pagou a ousadia com dez anos na prisão. Mas na Ucrânia nunca houve uma tal separação.

Calcanhar de Aquiles

Curiosamente – ou talvez não – a edição ucraniana da revista Forbes diz que o grupo de Akhmetov ficou com 31% de todos os concursos públicos estatais só em Janeiro de 2014. O seu filho tem resultados ainda melhores, diz a BBC: no mesmo período, obteve 50% dos contratos com o Estado.

Mas Akhmetov fez várias declarações em que criticava a dureza da repressão dos manifestantes e apelava ao diálogo. Outros oligarcas que fazem parte do Parlamento, ou são conselheiros presidenciais, têm criticado o Presidente, afastando-se dele, sublinhava Orisia Lutsevich, investigadora do think tank Chatham House, num artigo publicado no site da BBC. “Os grandes clãs empresariais são o calcanhar de Aquiles do regime. Os grandes negócios precisam de ter acesso aos mercados europeus. O aumento da instabilidade só fará desvalorizar o seu património”, escreveu.

Por isso Lutsevich defende que a UE deveria apostar em sanções contra os milionários que realmente mandam na Ucrânia. “Com sanções inteligentes, com alvos financeiros e restrições de vistos de entrada em países da UE, o Ocidente conseguiria acabar com o statu quo”, defende. É na Europa Ocidental que têm contas bancárias, propriedades, que põem os filhos a estudar.

Há limites, no entanto, para a eficácia deste tipo de sanções, como demonstra o caso da vizinha Bielorrússia, a última ditadura da Europa. “São vistas como altamente ineficazes, pois praticamente não afectam o Governo de [Alexander] Lukashenko”, escreveu a investigadora Inna Melnikovska, da Universidade Livre de Berlim, num artigo na Ukranian Week. "Antes pelo contrário, acrescentaram legitimidade ao regime e enfraqueceram as posições das forças pró-UE, pois pode atribuir culpas dos problemas económicos e crises financeiras às sanções e não à má gestão das elites”.