Toda uma feira sob a luz nórdica

Como sempre, a organização da Arco diz-se optimista, mas a feira abre a sua 33.ª edição depois de um ano em que o mercado espanhol poderá ter sofrido quebras de até 62%.

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Elina Brotherus, "Le Chemin" (2011)

Houve um tempo em que tudo na Arco era um evento insuflado de entusiasmo épico. Incluindo até a conferência de imprensa de abertura, dedicada apenas a jornalistas e críticos de arte. Há tempo que não é assim e à 33.ª edição o tom escolhido pela feira de arte contemporânea de Madrid – a mais importante feira ibérica do sector – é declaradamente menor.

Na quarta-feira, a recepção foi a apenas meia hora da abertura de portas dos dois dias reservados a profissionais. Com cerca de 100 mil visitantes esperados até domingo, Carlos Urroz, que assumiu a direcção em 2010, optou por apenas breves palavras institucionais de boas-vindas, preferindo de seguida misturar-se com os convidados e responder individual e informalmente a perguntas. Muitas, claro, sobre o arrastar da crise e o seu efeito compressor numa edição que junta 219 galerias de 23 países – 13 das quais portuguesas.  

Como lhe compete, Urroz defende que os piores anos já passaram e fala num renovado optimismo. Reconhece que “a crise tem afectado as galerias, claro”, mas limpa também rapidamente o ar dizendo que “os bons artistas são sempre um valor seguro” e que, seja em que circunstâncias for, “quando um coleccionador quer uma obra acaba sempre por a comprar”. Faz parte do jogo psicológico num sector que vive da confiança dos apostadores. Mas os números que Urroz não refere apontam para um cenário bem negro: segundo os últimos dados da Artprice, num só ano, até ao último Outono, as quebras no mercado espanhol de arte contemporânea terão sido de cerca de 62% – um buraco demasiado grande para tapar com o anúncio governamental, a tempo da Arco, da revisão do IVA nas artes plásticas para metade dos 21% em vigor desde 2012 (ainda que apenas para a primeira venda de uma obra – e não todo o seu percurso comercial seguinte –, ao contrário do que inicialmente se pensou).  

Mas falávamos do tombo: é o espelho da insegurança da classe média dos coleccionadores espanhóis – aquela que realmente sustenta o mercado. Não se aplica, naturalmente, a todos os compradores.

“O mundo hoje é muito grande e está cada vez maior”, diz Urroz. Com cerca de 150 curadores e directores de museus internacionais convidados, a Arco espera também compradores das mais diversas origens, sobretudo dos chamados emergentes – aqueles cuja curva económica traça um arco de optimismo contrário ao da vertigem depressiva da Europa e dos Estados Unidos. Segundo a organização, cerca de 250 estarão em Madrid, 30 dos quais como convidados das 11 galerias que este ano compõem o programa especial Focus Finland, inteiramente dedicado à Finlândia.

Gerações nascidas entre 1975 e 1986
Quem esperar? “Uma nova geração de coleccionadores”, diz Leevi Haapala, curador do Kiasma, o agora bem conhecido museu de arte contemporânea de Helsínquia, inaugurado em 1998 com um acervo desde os anos 1960.

Segundo Haapala, que teve a cargo a escolha das galerias e artistas finlandeses na Arco, na Escandinávia acabou a era dos grandes industriais que imperaram nas décadas de 1950 a 1970. “Hoje, o coleccionador finlandês tem à volta de 40 anos, é um herdeiro, um homem de negócios ou um advogado.”

Não é, então, por acaso que a arte finlandesa que se vê na Arco é também ela bastante jovem, ficando ausentes nomes de artistas mais proeminentes como Eija-Liisa Athila (n. 1959), por exemplo. Em vez de Athila, a grande aposta especial da Finlândia na feira é Heta Kuchka, uma artista de 38 anos a quem o Frame – o instituto que se dedica à divulgação internacional da arte finlandesa – ofereceu um stand próprio, extragalerias, para duas grandes instalações de vídeo.

“Na Finlândia somos muito eficientes a investir o nosso dinheiro”, diz a dada altura Haapala. Sem rodeios ou falso pudor. “Somos também muito eficientes a fazer o seguimento dos projectos.” De que serviria, afinal, insistir em nomes já sobejamente conhecidos? Em vez disso, a Finlândia concentrou-se nas gerações nascidas entre 1975 e 1986.

Não implica, forçosamente, um mundo de desconhecidos. Num ano em que parte importante dos stands da Arco apresenta mostras dedicadas a um único artista, a Galerie Anhava, por exemplo, tem uma exposição de Antti Laitinen.

Aos 38 anos, Laitinen foi o mais recente representante da Finlândia na Bienal de Veneza, a mais importante bienal de artes plásticas do mundo. Os trabalhos que apresenta na Arco resultam desse projecto intitulado Forest Square (2012-2013) e que parte do levantamento (literal) de um hectare de floresta.

Tudo: árvores, arbustos e solo – um bocado de natureza transladado e seccionado em elementos –, terra, madeira, folhas, pinhas, diferentes tipos de musgos, tudo cuidadosamente separado e recomposto em manchas de texturas e cores que reemergem como instalações e fotografias ou como presenças em vídeos.

Na Finlândia, ficou claro com Haapala, não há medo de falar em dinheiro. Prontamente, a responsável pela galeria esclarece os valores das obras de Laitinen: 40 mil euros por uma instalação de 10 metros por 10, cinco mil euros para as fotografias de formatos mais pequenos e 10 mil para as de maiores dimensões.

É a escala de valores em que aposta a generalidade dos galeristas finlandeses na Arco – o que acharam que seria o mercado da feira. São à volta destes os valores de outra artista em ascensão a partir de Helsinkia, Elina Brotherus, que expõe na Ama Gallery uma longa série de fotografias marcadas entre 5700 e 6700 euros.

Muito se tem falado na “Escola de Helsínquia” quando se fala de fotografia escandinava, em geral identificada com uma forte base conceptual e, supostamente, herdeira da qualidade elegíaca da luz das zonas próximas ao Árctico, a chamada “luz nórdica”. Todo esse ambiente está em algumas das fotografias de Elina Brotherus. Mas o que é que isso diz sobre a fotografia finlandesa? “Na minha opinião, esse tipo de generalização diz mais sobre branding [criação de marcas] do que sobre qualquer tipo de característica estilística”, escrevia recentemente na FlashArt a directora do Kiasma, Pirkko Siitari. Talvez, mas é verdade que há uma certa frieza e distanciamento a correr pela Arco este ano...

A jornalista viajou a convite da TourEspaña