Contra a cultura da crise, a cultura da resistência

Intelectuais e cientistas apresentaram esta quarta-feira um manifesto contra a crise, na Fundação Gulbenkian, pela afirmação da cultura, das artes e da ciência.

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O manifesto já foi assinado por mais de centena e meia de intelectuais Daniel Rocha

A canção Para os braços de minha mãe, de Pedro Abrunhosa, com colaboração vocal de Camané, que reflecte a fuga para o estrangeiro de massa crítica, deu o mote para a apresentação, esta quarta-feira, no auditório 3 da Fundação Gulbenkian, do Manifesto Contra a Crise – Compromisso com a Ciência, Artes e Cultura em Portugal, um documento que foi já assinado por mais de centena e meia de intelectuais, artistas ou cientistas.

O contexto alargado da sessão era a crise portuguesa e europeia, embora a recente polémica da queda do número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia tenha estado presente ao longo das intervenções.

Ou, como afirmou um dos primeiros oradores, o historiador José Eduardo Franco, e um dos obreiros do manifesto: “Queremos aqui lançar um alerta sobre a actual sangria” de talentos, ao mesmo tempo que avisou que o país tem de passar da “solidariedade da manutenção”, conectada com as necessidades básicas, para a “solidariedade da criatividade”, aproveitando a relevância estratégica da ciência, da cultura e das artes para desenhar o futuro.

Na sala, intelectuais como Rui Vieira Nery, catedráticos como Viriato Soromenho-Marques e Annabela Rita, cantores como Pedro Abrunhosa, cineastas como António Pedro Vasconcelos, escritores como Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Miguel Real ou Jaime Rocha e cientistas como Carlos Fiolhais. Políticos, apenas se viu, discreta, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

Não surpreende. O encontro assumia-se apartidário e transdisciplinar. Poderia ter sido também transgeracional, mas sentiu-se falta das gerações mais novas. Fez-se um diagnóstico negro do país. Disse-se que o manifesto não era contra ninguém, embora, quase inevitavelmente, o governo actual e o Presidente da República tivessem sido nomeados em algumas intervenções, como aconteceu com o escritor Miguel Leal, que mostrou repúdio pela actual “cultura individualista, do salve-se quem puder”.

“Julgados pelo nosso silêncio”


A escritora Teolinda Gersão disse que é imperativo rejeitar o “capitalismo selvagem”, citando um estudo recente onde se concluiu que o pequeno grupo das 85 pessoas mais ricas do mundo concentra a mesma riqueza que 3500 milhões de pobres.

“O poder político tem governado em compadrio com o poder económico, para uma minoria”, disse, reforçando que uma transformação só acontecerá com mudança de mentalidades, onde o primado da economia possa ser substituído pela cultura.

Coube a Carlos Fiolhais o papel de mostrar que “a ciência é também uma forma de cultura”, apontando que entre os dois universos existem mais pontos de contacto do que o senso comum tende a pensar e destacando que “o esforço científico” tem essa faculdade de “iluminar o mundo”, acabando por citar o filósofo Sócrates: “Uma vida sem ciência é uma espécie de morte”.

O cantor Pedro Abrunhosa foi taxativo: “Portugal só se afirmará economicamente se antes se afirmar culturalmente”. Ou seja, a identidade cultural é determinante na afirmação do mundo actual.

Não é apenas uma realidade tangível. Os números também o asseveram, disse, recordando que o contributo das Indústrias Criativas em Portugal para o Produto Interno Bruto é de 3,2%. Depois disse que todos éramos culpados de passividade e exortou à rebelião: “Seremos julgados pelo nosso silêncio se não o fizermos”.

Lídia Jorge lembrou que no pós-25 de Abril existiu um esforço no sentido de aproximar o país da contemporaneidade. Hoje o retrocesso está a ser visível, disse, porque a base de sustentação que foi sendo erguida revela-se frágil. E comparou com outras realidades culturais europeias: “Hoje temos uma TV tão má como a inglesa, mas o impacto desse facto aqui é muito maior”.

A Europa foi o tema principal da intervenção de Viriato Soromenho-Marques, porque é aí que ele identifica a génese da crise, nessa “promessa traída da construção europeia”. Hoje o que temos é o despotismo dos mercados e das instituições. “Uma Europa monstruosa”, nas suas palavras. Uma Europa que corre riscos de autodestruição, se a marcha não for interrompida. “A cultura da crise é cega. Devora as pessoas. E o ambiente”, disse.

A única possibilidade é opor uma “cultura da resistência”, com a ideia em mente de que a mudança é lenta e que não podemos ser reactivos uns contra os outros, salientando que os laços entre europeus se têm diluído nos últimos anos, em vez de se reafirmarem, porque essa é a única solução viável para todos.

E lançou o desafio: “Porque não estender este manifesto aos nossos colegas europeus?”. Ao que José Eduardo Franco respondeu que essa iniciativa já está a ser concretizada. Mas, para já, ainda existe o território português. Nesta quinta-feira o manifesto é colocado na Internet, para poder ser subscrito por quem assim o desejar. No próximo sábado será apresentado no Funchal. E em data a anunciar serão realizadas mais sete sessões no Casino do Estoril.