Crítica

Contra3aixos

Três discos novos de três novos contrabaixistas portugueses. Com todo o futuro pela frente

Lançados no final do ano passado, estes três discos mostram três jovens contrabaixistas nacionais. Miguel Ângelo e João Hasselberg têm aqui o seu disco de estreia, para André Carvalho este é o segundo disco. Tendo editado a sua estreia em 2011, com Hajime, Carvalho deixou desde logo aí as marcas da sua música, que se mantém no novo trabalho. Aos parceiros que já tinham colaborado no primeiro álbum - Zé Maria (saxofones), Bruno Santos (guitarra) e João Rijo - juntaram-se ainda Jorge Reis (saxofones), Óscar Graça (piano), Jeffrey Davis (vibrafone). Este disco conta ainda com dois convidados especiais, músicos da mais jovem geração: Ricardo Toscano (saxofone) e André Santos (guitarra). Já confirmada a sua qualidade como instrumentista e compositor, Carvalho propõe uma música estruturada que enfatiza a fartura cromática. Com o apoio de um grupo alargado, um ambicioso septeto, a música assenta na variedade instrumental, com arranjos que se esforçam por aproveitar essa diversidade. Apesar desse trabalho, a música está ainda presa a algum formalismo e, pelo forte pendor colectivo, acaba por ocultar a qualidade dos executantes.

Em contraponto, a proposta de Miguel Ângelo é mais simples e directa. Gravado em quarteto, Branco apresenta um conjunto de composições originais. Esta música marca a diferença sobretudo pelo espaço e pela qualidade dos instrumentistas, a começar pelo próprio líder, Miguel Ângelo - contrabaixista de óptimos recursos. Uma boa parte da responsabilidade pela eficácia desta música cabe ao saxofonista João Guimarães, um dos mais promissores palhetistas nacionais, que aqui explana o seu som com toda a elegância. Outro músico que merece especial nota é o pianista Joaquim Rodrigues, verdadeira surpresa pela naturalidade com que interage, quer no piano acústico, quer no elétrico Fender Rhodes. O grupo completa-se com o sólido Marcos Cavaleiro na bateria. Um dos destaques do disco é o tema Já não voltas, balada tranquila que dá espaço para um bom solo do contrabaixista, sendo também digna de realce a intervenção do saxofone.

João Hasselberg apresenta na sua estreia um manifesto musical que, servindo-se do jazz, ultrapassa os seus limites de género. O título é uma citação de Marukami e quase todos os temas vão roubar o título a clássicos da literatura (Steinbeck, Hemingway e Carson McCullers, entre outros). Mas a distinção não se fica pelo formalismo da capa conceptual, esta é uma música pensada ao milímetro. As composições evoluem, fogem aos modelos habituais (exposição do tema-improvisação-regresso ao tema), usam os recursos necessários apropriados para expressar cada ideia, sem qualquer excesso. A música existe por si mesma, sem constrangimento de formas, num disco marcado pela abundância de ideias. Membro de uma novíssima geração do jazz português, Hasselberg (além do contrabaixo, também baixo eléctrico) faz questão de contar com o contributo de músicos da sua geração: Ricardo Toscano (saxofone), João Firmino (guitarra) e Diogo Duque (trompete) - tal como Hasselberg, todos músicos de magnífica técnica e, apesar da idade, horizontes largos. Colaboram aqui também nomes já estabelecidos, casos de Bruno Pedroso (bateria), Afonso Pais (guitarra) e Luís Figueiredo (piano) - e a cantora Joana Espadinha contribui, pontualmente, com a voz. O trabalho de composição é magnífico, a economia de arranjos é precisa, a construção pelo colectivo é briosa. Ao longo de todo o álbum são atravessados diferentes ambientes - por vezes soando algo pop, por momentos evocando um certo classicismo, lembrando até a qualidade cinemática de Sassetti (em The Old Man and The Sea). Sempre com coerência, sofisticação e uma açucarada orientação melódica. Há muito tempo que o jazz português não ouvia uma música tão ampla e deslumbrante.

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