Vaticano expulsou 400 padres por denúncias de pedofilia

Em 2005, Bento XVI prometeu afastar todos os que esconderam os abusos sexuais dentro da Igreja, mas não conseguiu.

Futuros padres na cerimónia de ordenação
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Futuros padres na cerimónia de ordenação AFP

Quase 400 sacerdotes foram expulsos da Igreja Católica em 2011 e 2012, durante o pontificado de Bento XVI, depois da explosão de denúncias por abusos sexuais de crianças.

Os números estão nos documentos reunidos para o Comité da ONU para os Direitos das Crianças, onde representantes do Vaticano começaram a responder na quinta-feira – é a primeira vez que a Igreja é confrontada publicamente sobre os abusos.

As audiências, que decorrem em Genebra, vão prolongar-se até ao fim do mês. Na abertura, os especialistas do Comité da ONU pediram à Igreja Católica que actue de forma mais rigorosa contra os abusos cometidos por membros do clero.

O Vaticano expulsou 260 padres em 2011 e 124 em 2012, dizem os dados que a Associated Press obteve e que a Igreja entretanto confirmou. Os 384 casos são mais do sobro dos 171 padres afastados em 2008 e 2009, os primeiros anos em que se conhecem os dados.

No mesmo período, 2011 e 2012, houve mais 400 casos enviados para tribunais da Igreja ou que foram resolvidos com sanções administrativas. A expulsão é a punição mais grave prevista no direito da Igreja.

A transparência tem aumentado, mas ainda deixa a desejar, dizem as vítimas e diz a ONU. O mês passado, o Vaticano recusou um pedido do mesmo Comité para os Direitos das Crianças para disponibilizar dados sobre os abusos, defendendo que essa informação só pode ser fornecida a pedido de um país onde decorram procedimentos legais que o justifiquem.

Para a Rede de Sobreviventes de Pessoas Abusadas por Padres (SNAP na sigla inglesa), "o Papa tem que começar a expulsar do sacerdócio os eclesiásticos que encobriram crimes sexuais, não só aqueles que os cometem. Enquanto isso não acontecer, as coisas não mudarão muito".

Os abusos foram mantidos em segredo pelos superiores dos acusados, incluindo bispos e cardeais. Em muitos casos, estes limitavam-se a transferir os sacerdotes para outras paróquias, em vez de denunciá-los à polícia ou à Santa Sé.

Durante mais de uma década, a Igreja Católica esteve mergulhada em escândalos de abusos sexuais sucessivos. Primeiro, foram denunciados casos na Irlanda, mais tarde na Alemanha, Estados Unidos e em vários países latino-americanos, como o Brasil e o México.

O pico das denúncias aconteceu entre 2008 e 2010, o que ajuda a explicar o pico das expulsões nos anos que se seguiram. “Desde a erupção americana, houve erupções na Irlanda, na Austrália e noutros países europeus”, lembrou ao jornal The Washington Post Nicholas P. Cafardi, académico e autor de um livro sobre a resposta da Igreja aos abusos.

“Alguns casos tinham décadas. Estes números são certamente grandes, mas quando se pensa no período de tempo em causa são menos impressionantes”, diz Cafardi. A Igreja Católica tem perto de 412 mil padres espalhados pelo mundo.

Em 2011, o então cardeal Ratzinger fez com que todas as denúncias começassem a ser enviadas para a Congregação para a Doutrina e da Fé, em Roma. Em 2005, quando foi eleito Papa, Bento XVI prometeu afastar todos os que esconderam os abusos sexuais dentro da Igreja, mas não conseguiu.

O Papa Francisco anunciou em Dezembro a criação de um comité para combater os abusos de crianças.