Irmãos Koch, os banqueiros da direita radical nos EUA

Dão milhões para investigação sobre o cancro e apoiam organizações que salientam os “benefícios” da poluição. Os magnatas do petróleo têm um único encontro marcado na sua agenda: com o fim da intervenção do Governo na sociedade americana.

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Os irmãos Koch são apontados muitas vezes como os principais impulsionadores do movimento Tea Party Win McNamee/Getty Images/AFP
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David e Charles Koch dr

Longe dos holofotes que iluminam o palco dos multimilionários mais conhecidos do planeta, os nomes de dois irmãos norte-americanos começam aos poucos a trocar os seus estimados papéis secundários por um protagonismo que se esforçaram por esconder nas últimas décadas. Charles e David Koch, magnatas do petróleo, donos da segunda maior empresa dos Estados Unidos e fabricantes de muitos dos produtos que entram todos os dias nas casas dos norte-americanos, são hoje os principais financiadores privados da agenda mais radical do Partido Republicano e ajudam a formar opiniões e mentalidades através da criação de think tanks e de generosas contribuições a universidades, principalmente a faculdades de Economia.

O poder dos irmãos Koch nunca foi segredo para ninguém que acompanhe a política americana – a extensão da sua influência já lhes valeu mesmo a alcunha de “Kochtopus”. Mas os pormenores do esquema que transfere dinheiro dos bolsos de Charles e David para organizações que lutam contra tudo o que mantenha ou reforce a intervenção do Governo na sociedade americana só foram vislumbrados na semana passada, numa investigação do jornal The Washington Post e do Center for Responsive Politics – uma organização independente que investiga a ligação entre o financiamento partidário e os seus efeitos nas eleições e nas leis aprovadas no Congresso.

Através de uma rede desenhada propositadamente para esconder a identidade dos seus doadores, e que gira à volta da organização sem fins lucrativos Freedom Partners, os irmãos Koch lideraram uma operação que juntou 407 milhões de dólares (quase 300 milhões de euros) durante a campanha para as eleições presidenciais de 2012. É a maior soma recolhida por um grupo da direita norte-americana e iguala a totalidade dos fundos angariados pela coligação nacional de sindicatos, cuja maior fatia se destina a apoiar a agenda do Partido Democrata.

A diferença, explicou ao The Washington Post Lloyd Hitoshi Mayer, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Notre Dame, é a falta de transparência da rede, assente em organizações sem fins lucrativos isentas do pagamento de alguns impostos e empresas de responsabilidade limitada. “É feita para ser opaca quanto à origem e ao destino do dinheiro. A sua existência só faz sentido se se gastar a quantidade de dinheiro que os irmãos Koch estão a gastar, porque não é nada barato”, afirma Lloyd Hitoshi Mayer.

Os 17 grupos conservadores que alimentam a rede, identificados a partir das declarações de impostos, não apoiaram financeiramente o candidato republicano Mitt Romney, mas organizaram campanhas públicas contra a reforma do sistema de saúde, também conhecido como Obamacare; contra o reforço da legislação que pune crimes ambientais; ou contra o aumento da despesa pública.

Entre as organizações sem fins lucrativos apoiadas pelos irmãos Koch estão a National Rifle Association e a Americans for Prosperity, um grupo “comprometido com a educação dos cidadãos sobre política económica e com a mobilização desses cidadãos para o processo político”, como se pode ler no seu site, e que atribuiu o prémio de Blogger do Ano a Sibyl West, que acusou o Presidente Barack Obama de demonstrar sinais de “possessão demoníaca”.

O financiamento de candidaturas, de causas defendidas por candidatos políticos e de associações sem fins lucrativos que promovem uma determinada visão da sociedade é tudo menos uma novidade nos Estados Unidos – mais à esquerda, são conhecidos os apoios do magnata George Soros, cujo filho, Jonathan Soros, é um dos financiadores do Center for Responsive Politics, que colaborou com o The Washington Post na investigação sobre os irmãos Koch. O que distingue a rede liderada por Charles e David é o facto de promover contribuições anónimas, o que permite a muitas empresas e personalidades apoiarem a defesa dos seus ideais sem que os cidadãos possam estabelecer quaisquer ligações entre uma coisa e outra.

Apontados muitas vezes como os principais impulsionadores do movimento Tea Party, Charles e David sempre negaram qualquer envolvimento directo, mas nunca esconderam a sua admiração por esta ala radical do Partido Republicano. “Apesar de ter alguns extremistas, a base é constituída por pessoas comuns, como você e eu. Admiro-os. É provavelmente o melhor levantamento espontâneo desde 1776 [ano da independência dos EUA]”, disse David Koch em 2011, em resposta a uma pergunta de um activista do blogue liberal ThinkProgress.

Apesar do empenho na actividade política e das generosas contribuições para a agenda do Partido Republicano, afirmar que os Koch são fervorosos republicanos não faz jus à complexidade da sua visão do mundo.

A importância da maçã

Nascidos no berço de ouro forjado pelos negócios do pai, Fred Koch, David, Charles e os seus outros dois irmãos, Frederick e William, tiveram uma educação austera e orientada para o sucesso através do trabalho.

“Ao incutir-me uma ética de trabalho desde tenra idade, o meu pai fez-me um enorme favor. Aos oito anos, ele fez questão de garantir que a maior parte do meu tempo livre era ocupada pelo trabalho”, escreveu Charles Koch, citado num artigo publicado pela revista The New Yorker em 2010, que é ainda hoje uma das poucas janelas por onde se pode vislumbrar a base em que assenta a ideologia dos dois irmãos.

David Koch recorda o radicalismo do pai contra a intervenção do Governo, e de que forma esse passado moldou o seu futuro. “Foi algo com que eu cresci – um ponto de vista fundamental de que um Governo muito pesado era prejudicial e de que a imposição de controlos pelo Governo sobre as nossas vidas e sobre a nossa economia não era boa”, disse David Koch numa entrevista à revista Reason, em 2007.

“Ele acreditava que, se não começássemos a trabalhar desde muito novos, não seria possível desenvolvermos as capacidades, os hábitos e os valores necessários para nos tornarmos produtivos. Quando eu era criança, disse-me que não queria em casa nenhum vadio de clubes exclusivos”, recorda Charles Koch no depoimento em vídeo Lessons from my Father, disponível no YouTube.

Charles, de 78 anos, e David, de 73, têm hoje uma fortuna conjunta calculada em 68 mil milhões de dólares (mais de 50 mil milhões de euros). Olhando para a lista da revista Forbes, os dois irmãos ocupam o 6.º lugar, mas a soma das duas contas bancárias catapultaria o nome Koch para a 2.ª posição, à frente de Bill Gates e apenas atrás do mexicano Carlos Slim, cuja fortuna está avaliada em 73 mil milhões de dólares (quase 54 mil milhões de euros).

A multinacional Koch Industries não teria o poder que tem hoje sem a liderança de Charles e David, que assumiram os destinos da empresa após a morte do pai, em 1967, e que mais tarde derrotaram os seus outros dois irmãos numa luta de poder interna. Ainda assim, admitem, com sentido de humor, que a sua habilidade para os negócios está longe de ser o único factor de sucesso. Em 2003, num discurso perante os alunos da exclusiva Academia de Deerfiel, no estado do Massachusetts, David Koch – antigo aluno da escola – explicou como conseguiu doar 25 milhões de dólares (mais de 18 milhões de euros) à instituição, numa história reproduzida pela jornalista Jane Mayer, da revista The New Yorker.

“Poderão querer saber como é que David Koch tem tanto dinheiro para ser tão generoso. Bem, deixem-me contar-vos uma história. Tudo começou quando eu era criança. Um dia, o meu pai deu-me uma maçã. Vendi-a logo por cinco dólares e comprei duas maças, que vendi por dez dólares. Depois comprei quatro maças e vendi-as por 20 dólares. Isto continuou dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, até que o meu pai morreu e me deixou 300 milhões de dólares.”

Fãs de Robert LeFevre

Criados numa mansão em Wichita, no estado norte-americano do Kansas, os irmãos Koch entraram em contacto desde muito cedo com a ideologia extremista libertária do activista Robert LeFevre, que defendia a abolição de qualquer forma de governo e que levava a defesa da propriedade privada até às últimas consequências.

Num trabalho da Bloomberg de 2011, o jornalista Brian Doherty, que entrevistou Charles e David Koch para o seu livro Radicals for Capitalism: A Freewheeling History of the Modern American Libertarian Movement (2007), revelou um pouco das ideias que os irmãos assimilaram quando frequentaram a Freedom School de Robert LeFevre, durante a década de 1960: “A sua crença na propriedade privada era tão radical que ele argumentava que se um ladrão nos atacasse e nos manietasse com as suas próprias cordas, seria moralmente errado cortar essas cordas.”

Influenciados pelo pai – um dos primeiros membros da ultraconservadora John Birch Society, que considerava o então Presidente dos EUA, o republicano Dwight D. Eisenhower, um agente ao serviço do comunismo – e alimentados pelo sonho de eliminar a influência do Governo na sociedade, Charles e David Koch perceberam que a melhor forma de alcançar os seus objectivos seria influenciar a política a partir de fora, mantendo-se na sombra nas três últimas décadas.

Depois de uma incursão mal sucedida na política, em 1980, quando David Koch concorreu a vice-presidente na candidatura de Ed Clark pelo Partido Libertário, os irmãos empenharam-se na fundação e financiamento de think tanks e de universidades. Os seus principais detractores não se detêm nas ligações à ala mais radical do Partido Republicano. Para eles, os irmãos Koch têm um único objectivo e não olham a meios para o alcançar: a crença na ausência de qualquer regulamentação do Estado.

Os apoios financeiros dos irmãos Koch deixam perceber que a sua agenda não se resume nem se identifica totalmente com movimentos como o Tea Party. Apesar de ser um feroz opositor do Obamacare, David Koch defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a investigação em células estaminais; opõe-se à política de guerra às drogas, lançada por Richard Nixon na década de 1970 e muito contestada pela esquerda, mas contesta a tese da influência do Homem no aquecimento global.

Uma vida de aparentes contradições no mundo a preto e branco de Washington, mas cuja fortuna está a alimentar, de facto, a ala mais radical do Partido Republicano. Num dos exemplos mais significativos da forma como os irmãos Koch jogam em todos os tabuleiros que melhor servirem os seus interesses, David doou 40 milhões de dólares ao centro de investigação sobre o cancro Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova Iorque, mas financia também o think tank Mercatus Center, conhecido por apresentar teses sobre os benefícios da poluição – no final da década de 1990, a economista Susan Dudley, do Mercatus Center, argumentava, no âmbito de um processo contra a Agência de Protecção Ambiental norte-americana, que a redução do manto de poluição nas cidades poderia provocar mais 11.000 casos de cancro de pele por ano.