Crítica

Rebentação

Após dois discos com convidados internacionais, o RED Trio regressa em força ao seu formato de origem: o trio de piano

Recuperado directamente das melhores edições do ano passado (foi um dos discos do ano, aqui no Ípsilon), Rebento é o quarto registo de originais dos RED Trio, numa edição exclusivamente em vinil. O disco de estreia, surgido em 2010, surpreendeu pela original abordagem a um modelo hiper-clássico, o trio de piano. A partir da instrumentação habitual — piano, contrabaixo e bateria —, o trio português reinventou o formato. Trabalhando a partir de improvisação absoluta, o método passa pela democratização dos instrumentos (independentemente da sua paleta sonora, todos intervêm em igual medida) e pela criatividade de soluções, que combinam o desenho de texturas rendilhadas com uma energia portentosa.

Mantendo a regularidade de um álbum por ano, o RED Trio editou entretanto dois discos, com dois convidados internacionais: John Butcher (Empire, de 2011) e Nate Wooley (Stem, de 2012). Este novo Rebento representa o regresso à origem, ao formato de base. Nesta altura, o trio já não precisa de exibir credenciais, a música emana com toda a naturalidade. A experiência acumulada de tocar em conjunto e, sobretudo, nas colaborações com figuras de grande peso internacional terá resultado na natural evolução da música (e dos músicos), das suas técnicas e abordagens.

Em contraste com alguma eventual ingenuidade do primeiro registo, os músicos têm agora o seu universo bem definido e trabalham com toda a segurança. Mas a música, essa, nunca é segura nem previsível. No fundo, as premissas-base são as mesmas desde aquele disco de estreia: bateria, contrabaixo e piano num delicioso jogo de permanente invenção, comunicação, ligação e fuga.

No primeiro tema de Rebento, reencontramos as características mais típicas da música do trio; tensão e confronto, numa turbulência de alta intensidade. Estamos num território de permanente pesquisa, numa procura em que as ideias são muitas e fugazes, e por vezes até se atropelam. Ao segundo tema chega a bonança, com o trio a explorar texturas mais subtis, que vão evoluindo para um crescendo à medida que se aproxima o final. Já ao terceiro tema, que corresponde ao lado B do vinil, o trio atravessa diversos ambientes — ora lentos, ora alvoroçados —, explanando numa só faixa a sua ampla diversidade criativa.

Do vendaval percussivo de Ferrandini, da versatilidade do contrabaixo de Faustino e da fluidez do piano de Pinheiro emerge uma tumultuosa e vibrante massa colectiva: não interessa o peso individual, os três indivíduos colaboram e funcionam verdadeiramente como um todo. De regresso ao seu modelo original, este trio volta a rebentar com toda a força.

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