Palavras de 2013

Em cada domingo de 2013, a Revista 2 descodificou uma palavra que pudesse espelhar a semana anterior à sua publicação. Com a ajuda de dicionários antigos e recentes, enciclopédias, sites, blogues, jornais e outros meios de comunicação, definiram-se conceitos e regras gramaticais sobre palavras ou expressões usadas por políticos (“irrevogável”, “democracia”), atletas e comentadores (“hat-trick”, “maldição”), escritores (“medo”) e leitores (“poeta”, “mar”).

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A nuvem das palavras do ano Wordle

São 52 as palavras que nos recordam sobre o que andámos a falar em 2013: festas, mar, racismo, correios, diplomacia, hat-trick, tufão, medo, guião, cautelar, sobrevivência, desculpas, autarquia, poeta, campanha, regresso, refugiado, bombeiro, ambição, dinossauro, pausa, confiança, remodelação, esforço, salvação, irrevogável, paralisação, avaliação, força, rectificativo, mobilidade, tornado, maldição, jactância, consenso, democracia, maratona, ferro, fraude, previsão, desconfiança, conclave, aniversário, populismo, cantar, renunciar, secretário, coragem, mercado, pensar, inconstitucional, mensagem.

DEZEMBRO

29 de Dezembro
Festas

Comemorações de Natal e Ano Novo

Plural de “festa” e que se associa a esta época do ano, altura em que se assinala o nascimento de Jesus Cristo e a mudança de ano. “Boas-festas”, diz o dicionário, corresponde a “felicitações que é hábito darem-se no Natal”. Explicado de outro modo: “Exclamação usada por ocasião do Natal e do Ano Novo como saudação.”

Quando se escreve “desejar as boas-festas”, grafa-se a palavra com hífen, mas quando se está mesmo a desejá-las já não. O dicionário exemplifica com a saudação de que falou antes: “Boas festas para todos!” Seja.

“Festa” é também uma “solenidade religiosa ou civil celebrada em determinado dia do ano”, uma “comemoração” ou ainda “um dia santificado, de descanso”. Para muitos europeus, o descanso foi pouco e a festa nenhuma. O mau tempo em França, Espanha e Reino Unido provocou inundações, cortes de energia, cancelamentos de voos, mortes. De seu nome Dirk, a tempestade que foi passar o Natal à costa oeste da Europa.

Em Portugal continental, a Protecção Civil registou, entre as 8h do dia 24 e as 12h de quarta-feira, 2583 ocorrências relacionadas com o mau tempo: quedas de árvores e cabos, cheias, falhas de electricidade, cortes de estradas e agitação marítima.

Mas nestas “festas” de 2013 também houve quem festejasse tranquilamente. Repetiram-se acções de solidariedade e mensagens de esperança. Sem esquecer as tradicionais declarações dos governantes. Mesmo quando o povo já não “está para festas” (“sem disposição para brincadeiras”), há sempre pelo menos um político “a fazer a festa e a deitar foguetes”. Isto é, a “manifestar grande alegria ou entusiasmo com os seus próprios ditos ou graças”. “Festas” também significa “carícias” ou “afagos”. Em qualquer época do ano.

22 de Dezembro
Mar

Fonte de inspiração, de sobrevivência e de tragédia

É uma palavra facilmente reconhecível num país como Portugal, com 943 quilómetros de costa no continente. Para o dicionário, “mar” é uma “grande extensão de água salgada que cobre mais de metade da superfície terrestre”. Para muitos, será fonte de inspiração, cenário de boas memórias de tempos de lazer ou de desporto. Para outros, fonte de rendimento e sobrevivência. Para outros ainda, local de tragédia.

No fim-de-semana passado, sete jovens universitários foram levados pelo mar na praia do Moinho de Baixo, no Meco, Sesimbra. Um salvou-se e pediu socorro para os amigos. Já não foi a tempo. Até quinta-feira, só um dos corpos tinha dado à costa. Faltava recuperar cinco, de quatro raparigas e um rapaz.

“O mar devolverá os seus mortos”, sempre se disse. Mas é ele que escolhe quando. Nessa mesma quinta-feira, o mau tempo impediu que as buscas continuassem. “E não é previsível que se efectuem nos próximos dias”, informou o comandante Lopes da Costa. Mar “alto” traduz-se por “o que fica longe da costa”; mar “cavado” é “aquele em que há grandes vagas, com espaços profundos a separá-las”; mar “chão”, “o que está plano, quase sem ondas”. Não foi este último que o grupo de jovens da Lusófona encontrou na madrugada de domingo.

Quem sabe das coisas do mar fala na imprevisibilidade das “ondas cavaleiras” e que é preciso respeitar as “barbas brancas do mar”. Expressões que a maior parte de nós não entende verdadeiramente, ainda que delas intua algum sentido.

“Nem tanto ao mar nem tanto à terra” ou “um mar de lágrimas” são mais fáceis de entender. Sobretudo esta última, pensando nas famílias dos jovens desaparecidos. E se há palavra para nomear quem perde os pais, “órfão”, nenhum dicionário encontrou ainda forma de designar a morte dos filhos.

15 de Dezembro
Racismo

A (absurda) superioridade da cor

“Doutrina que afirma e defende a superioridade étnica da raça branca sobre as outras e que baseia nessa crença uma série de medidas de exclusão ou mesmo de extermínio racial”, escreve um dicionário sobre o substantivo masculino “racismo”. Outros não falam especificamente em “raça branca”, registando esta dura palavra como “doutrina que afirma a superioridade de certas raças e nela assenta o direito de dominar ou mesmo suprimir as outras” e também “exacerbação do sentimento racial de um grupo étnico, doutrina antropológica ou política baseada nessa atitude”.

O primeiro teorizador sobre “racismo” foi o conde Gobineau, com a obra Essai sur l’inégalité des races humaines (1853-55).Quem sempre sofreu com o racismo foi o povo de África do Sul, que nesta semana se despediu de Madiba, Nelson Mandela, “o último grande libertador do século XX”, nas palavras de Barack Obama. E o peso do racismo nessa latitude é tal que até tem um conceito específico, “apartheid”.

Um dicionário enciclopédico explica-o assim: “Palavra africânder para o sistema de discriminação racial característico da República da África do Sul, estabelecido em 1949, que impõe a total separação das raças em todos os aspectos da vida do país, mediante a criação de regiões semiautónomas denominadas reservas ou bantostões.”

Foi contra este sistema absurdo que Mandela lutou, emocionou o mundo e levou muitos a acreditar que podem ser donos do seu próprio destino. Obama, de novo: “Deixemos que Mandela continue a mostrar-nos que o impossível só é impossível até ser concretizado. Ele ensinou-nos que podemos escolher o mundo em que vivemos.”

A jornalista Teresa de Sousa perguntou nas páginas do PÚBLICO: “Um homem pode mudar o curso da História?” E respondeu: “Pode.” Tenha a cor que tiver.

8 de Dezembro
Correios

Pombos, carteiros e mensagens electrónicas

Plural da palavra “correio”, que tem como primeiro significado “pessoa que, antigamente, corria o território para entregar mensagens, notícias, ordens e despachos”. O mesmo que “estafeta”, “mensageiro” e “carteiro”. Mas o sentido que importa aqui relevar é o que surge em terceiro lugar no dicionário da Editorial Verbo: “Serviço público, no sector das comunicações, que se ocupa da recepção, transporte e distribuição de correspondência e encomendas postais, bem como da emissão e venda de selos e outros valores.”

Em Portugal, um serviço que corresponde à sigla CTT, que se traduzia por Correios, Telégrafos e Telefones (1911) e que passou a designar-se como Correios e Telecomunicações de Portugal (1970), quando se tornou empresa pública. Mas agora acabou-se.

Na quinta-feira, os CTT entraram em bolsa, com “mais de 40% do capital nas mãos de estrangeiros”. “Os títulos abriram sessão a negociar a 5,90 euros, acima do patamar de 5,52 euros que tinha sido fixado”, noticiou-se. Foram transaccionadas mais de 27 milhões de acções e os CTT ficaram avaliados em 885 milhões de euros.

Um dicionário mais antigo (1940) recorda o “pombo- correio” e descreve-o como “pombo adestrado que transporta para determinados pontos comunicações escritas”.

Os mais recentes acrescentam “correio electrónico”, “sistema de envio e recepção de mensagens, por computador e através da Internet ou de uma rede privada”. Os emails que enchem as nossas caixas de correio. As virtuais. (Há quanto tempo não escreve uma carta em papel?)

1 de Dezembro
Diplomacia

Defender interesses com astúcia

“Ciência e arte da representação dos interesses de um país no estrangeiro ou da promoção do direito e das relações internacionais”, assim se define o substantivo feminino “diplomacia”. O dicionário complementa a explicação com a frase: “Espera-se que a diplomacia resolva o conflito.”

Era esta a expectativa face ao encontro entre o Ocidente e o Irão em busca de um acordo para cessar o programa nuclear deste último. E pelo menos nesse dia, 24 de Novembro, a diplomacia venceu em Genebra. Vitória que durará seis meses (tempo de suspensão do programa), até que se chegue a um pacto definitivo. Oxalá (do árabe In ša’ Allah, “se Alá o permitir” ou “se Deus quiser”).

Alguns “diplomatas” presentes: John Kerry (secretário de Estado norte-americano), Laurent Fabius (ministro francês dos Negócios Estrangeiros), Catherine Ashton (alta-representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança), Mohammad Javad Zarif (ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão).

“Diplomatas” omnipresentes: Barack Obama (Presidente dos EUA), Hassan Rohani (Presidente do Irão) e Ali Khamenei (ayatollah e líder supremo da República Islâmica do Irão).

“Diplomata” é alguém “hábil e com um tacto especial para resolver situações complicadas”. Em sentido figurado (ou nem tanto), “homem astucioso, insinuante, conciliador”.

A diplomacia portuguesa poderia solicitar acções de formação a Javad Zarif. No âmbito da requalificação da função pública, era uma ajuda para os altos-funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros, pouco conciliadores e nada astutos.

NOVEMBRO

24 de Novembro
Hat-trick

Truque com cartola ou com bola

Traduzido à letra, “hat-trick” significa “truque com chapéu”, técnica usada pelos mágicos. Na sua actuação, o artista retira três coelhos, três cartas ou três flores de uma cartola. Mas isto passava-se na era vitoriana (1837- 1901), quando a expressão surgiu. O que se passou nesta semana, com o hat-trick de Cristiano Ronaldo, foi mais trabalho e profissionalismo que truque. E alguma magia, sim. Sem cartola, mas de se lhe tirar o chapéu.

No desporto, a expressão quer dizer, segundo o Dicionário de Oxford, “três sucessos do mesmo tipo, dentro de um período de tempo limitado, [realizados] por um mesmo jogador”.

A primeira vez que a expressão foi transferida das artes mágicas para a actividade desportiva data, pensa-se, de 1858. Aconteceu num jogo de críquete e ajudou à descrição do desempenho do atleta H. Stephenson, que “tomou três cancelas com bolas sucessivas” (o que quer que seja que isso signifique).

Num blogue brasileiro (para nos irmos ambientando...) dedicado ao desporto (Escreve-se, de Andrea Dimitri Ruivo), conta-se que “o hat-trick perfeito ocorre quando um golo é feito com o pé esquerdo, outro com o direito e outro com a cabeça”. E acrescenta-se que um dos últimos hat-tricks perfeitos ocorreu nas semifinais da temporada de 2009/2010 da Champions League. “O autor foi Ivica Olic do Bayern de Munique contra o Lyon.”

O de Ronaldo, que garantiu a participação da selecção portuguesa no Mundial de 2014, não terá sido perfeito nesse sentido de “esquerdo, direito, cabeça”, mas foi bonito.

17 Novembro
Tufão

Ventos tropicais violentos

“Ciclone tropical dos mares da China e do Pacífico ocidental, acompanhado de forte agitação do mar, devida a ventos de enorme violência.” Todos os dicionários dão uma definição semelhante para o substantivo masculino “tufão”. Alguns acrescentam a velocidade do vento, “160km/h ou mais”, a ocorrência de “chuvas torrenciais e trovoadas” e estendem-no “ao oceano Índico”. Como sinónimo, surge sempre “furacão”. Mas quase todos se enganam ao dizer que “os tufões sopram de Julho a Outubro”.

 O Haiyan soprou já em Novembro, no dia 8, nas Filipinas. E a deslocação do ar fez-se a 300km/h. Chamaram-lhe “supertufão”. “Os ventos do supertufão Haiyan foram equivalentes aos de um furacão da categoria 5, o valor máximo da escala seguida pelos serviços meteorológicos dos Estados Unidos”, noticiou-se dois dias depois da catástrofe. E explicou-se “que a força exercida pelo ciclone tropical chegou a ser 3,5 vezes superior à do furacão Katrina, quando atingiu Nova Orleães, em 2005”.

Efeitos: destruição de cidades e de caminhos, milhares de mortos, de desalojados, de pessoas tristes e “a enlouquecer de fome e de dor”. Calamidade nacional, decretou o Presidente Benigno Aquino.

Em Varsóvia, na Conferência do Clima das Nações Unidas, Yeb Sano, das Filipinas, iniciou um jejum pelo clima. “Vou evitar comer durante esta conferência, até que haja um resultado significativo à vista”, disse.“Tufão” vem do grego typhon e do árabe tufan, que querem dizer “torvelinho”. Palavra que soa demasiado suave para o sofrimento que causa.

10 de Novembro
Medo

Receio de algo “sem nome e sem rosto”, como um rapto

Nome masculino que significa “sentimento de inquietação que se sente com a ideia de um perigo, real ou aparente”. “Medo” também significa “receio”, “temor”, “terror”. Será esta a atmosfera em que vivem por estes dias as famílias residentes em Moçambique. Por receio de sequestros, “dezenas de crianças de famílias portuguesas já saíram do país”, segundo o secretário de Estado das Comunidades, José Cesário.

Da Escola Portuguesa de Maputo chegou a informação de que, “desde Setembro, 40 crianças deixaram a escola, que tem 1600 alunos de 14 nacionalidades”. E supõe-se que outras crianças e jovens terão deixado vários estabelecimentos de ensino. Uma criança raptada só recuperou a liberdade depois de a família pagar meio milhão de dólares, mas um rapaz de 13 anos foi morto em cativeiro, apesar de a mãe ter comunicado o sequestro à Polícia de Investigação Criminal.

“Medo” também se regista como “fenómeno de inquietação súbita e violenta, provocado pela consciência de ameaça ou perigo” e “alma do outro mundo”. Mas o que ameaça Moçambique é bem deste mundo e junta polícias e ladrões, como se revelou na quarta-feira: “Foram condenados três polícias que integravam uma rede de sequestradores que chegavam a exigir 165 mil dólares de resgate. Um dos condenados era membro da guarda do Presidente.”

Na acepção popular, “fantasma” é sinónimo de “medo”. E em fantasma se está a transformar a cidade de Maputo, com as ruas desertas à noite. Como expressou poeticamente Mia Couto, as pessoas receiam algo “sem nome e sem rosto”.

3 de Novembro
Guião

Texto para um filme e porta-estandarte

“Guião” é um “texto escrito que contém a acção, os diálogos e as instruções para a realização de um filme”. Assim fala o dicionário. Mas o significado principal e mais antigo corresponde a “pendão ou estandarte que vai à frente das procissões ou irmandades” e também “à frente das tropas”. O próprio “cavaleiro que conduz esse estandarte” pode ser denominado “guião”. Sinónimo, portanto, de “porta-bandeira” e “porta-estandarte”.

Na quarta-feira, foi apresentado por Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, o “guião” para a reforma do Estado. Em 112 páginas se explica “o filme” que o Governo propõe ao país. Segundo o “porta-estandarte”, “várias reformas transcendem o prazo de uma legislatura porque é preciso elaborá-las, negociá-las, transformá-las em propostas, dar-lhes efectividade, avaliar o seu impacto e monitorizar a sua execução”. (Longa-metragem.)

Aos “partidos do arco da governabilidade” pediu que seja “possível um consenso, compromisso, uma negociação séria que perdure para os próximos anos”. (Ficção científica.)

Portas ressalvou que esta é uma proposta “aberta” e prometeu que vai “ouvir, debater e alterar” o que for preciso, em “humildade democrática”. (Comédia).

O “vice” lamentou “profundamente o grau elevadíssimo de crispação política que existe em Portugal”. (Drama.)

Para alcançar o objectivo de “uma administração pública que tenha menos funcionários”, aposta na “flexibilização”: rescisões amigáveis, trabalho e reforma a tempo parcial. (Estão a ver o filme?)

 OUTUBRO 

27 de Outubro
Cautelar

Prevenir o futuro, com ou sem programa

Adjectivo de dois géneros cujo significado facilmente se adivinha: “Que acautela, que serve para prevenir.” O sentido é semelhante ao do verbo “acautelar”, traduzido por “precaver”. Os dicionários falam em “medida cautelar” e “providência cautelar”. Nada de “programa”. Desse falamos nós, os meios de comunicação social, e os políticos. Mesmo que seja para o negar.

“Não conhecemos o que é um programa cautelar, mas sabemos o que implica um segundo resgate. É isso que queremos evitar”, afirmou a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, na quarta-feira. Mas antes, na segunda-feira, o ministro da Economia, Pires de Lima, disse em Londres: “Ainda temos algum trabalho pela frente (...). Mas o nosso objectivo é começar a negociar um programa cautelar nos primeiros meses de 2014.”

Na terça-feira, já não foi bem assim. “Todo o Governo está absolutamente coeso para concluir o programa de assistência e foi nesse espírito que eu falei da utilização de um seguro cautelar.”

Fora do Governo e fora de tudo, mas sempre presente, António Vitorino sugeriu em depoimento à Antena 1 “um programa cautelar na Primavera”, mas lembrou (à “cautela”) que “implicará obrigações”, que haverá um “conteúdo de regras de disciplina orçamental”. Deixou o conselho de que, apesar da “ânsia mediática”, se “aguarde para ver o conteúdo do programa da Irlanda”, primeiro país a sair do resgate.

Conselho do dicionário: “É preciso cautela, andam por aí muitos vigaristas.”

20 de Outubro
Sobrevivência

Continuar a existir, com cada vez menos

“Qualidade do que resiste à passagem do tempo” e “acto ou efeito de sobreviver, de continuar a existir” são algumas das explicações para o substantivo feminino “sobrevivência”. Mais adiante, o dicionário chega onde queremos e define pensão de sobrevivência: “Pensão ou subsídio legado a alguém por um sócio de qualquer instituição de previdência.”

O mesmo conceito aparece assim descrito no site da Caixa Geral de Aposentações: “A pensão de sobrevivência consiste numa prestação pecuniária mensal, cujo montante é determinado em função da pensão de aposentação.” A ela se podem habilitar as “pessoas herdeiras hábeis”. Uma fuga de informação, antes da apresentação do Orçamento do Estado para 2014, sobre cortes de 12% a 35% nas pensões dos “cônjuges sobrevivos” pôs muitos viúvos (e viúvas mais ainda) a fazer contas. E Paulo Portas veio “tranquilizá-los”, dizendo que a medida só afectaria quem recebesse “duas ou mais pensões de valor superior a 2000 euros”. Ou seja, num universo de 800 mil beneficiários, “não mais de 25 mil” teriam de viver com menos dinheiro do que até aqui.

Entretanto, o Orçamento foi apresentado e a tranquilidade não “sobreviveu”. Jorge Machado, do PCP, acusou Portas de omitir a “redução de 10% nas pensões de sobrevivência a partir dos 419 euros”, afectando “milhares de pessoas”. Em sentido figurado, “sobreviver” significa “resistir vitoriosamente”. Já se aceitam apostas online sobre o prazo de “sobrevivência” de Rui Machete no Governo. Sobre o prazo do Governo ainda não.

13 de Outubro
Desculpas

Pedido de perdão em nome próprio (ou não)

Plural de “desculpa”, que significa “demonstração de arrependimento por ter ofendido, contrariado, incomodado”. O dicionário exemplifica: “Apresento-lhe as minhas desculpas.” Não foi exactamente assim que Rui Machete, ministro português dos Negócios Estrangeiros, fez o seu pedido de desculpas a Angola por investigações do Ministério Público a empresários angolanos.

Foi assim: “Tanto quanto sei, não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal, para além do preenchimento dos formulários e de coisas burocráticas e, naturalmente, [cabe-me] informar as autoridades de Angola pedindo, diplomaticamente, desculpa, por uma coisa que, realmente, não está na nossa mão evitar.”

Diplomaticamente falando, diz um diplomata que não quis identificar-se (desculpem lá): “Nunca em 40 anos vi alguém no MNE pedir desculpa. (…) É uma expressão que não é do léxico da diplomacia.” As palavras que se usam institucionalmente em casos sensíveis (quando há que acautelar subserviência, dependência ou passado mal resolvido) são: “reparação”, “reconhecimento” de que algo “não correu da melhor forma” ou “lamentamos o incómodo que causou”.

Em sua defesa, Machete desculpa (“alegação atenuante ou justificativa de culpa”) assim a afirmação: “Não me custando admitir, hoje, que o terei feito de uma forma menos feliz. Fiz uma interpretação pessoal de factos públicos.” Disse Passos Coelho: “Não há nada de grave que no comportamento do dr. Rui Machete ponha em causa nem a credibilidade do Governo nem, muito menos, do Estado português.”

O dicionário regista outra expressão: “Desculpas de mau pagador.” Que assim se explica: “Justificação que não convence.”

6 de Outubro
Autarquia

Sistema com governo independente?

“Entidade territorial e administrativa dotada de órgãos representativos autónomos, que visam satisfazer os interesses das populações, no respeito pela lei”, regista o dicionário ao descrever a palavra “autarquia”. E até parece verdade.

“Sistema económico de uma região que vive dos recursos próprios e com governo independente”, prossegue. E já parece menos. No domingo passado, houve eleições para as 308 autarquias portuguesas. Presume-se que mesmo os 47,4% de eleitores que se abstiveram deram por isso. E até foram os grandes vencedores. Por desinteresse, protesto, emigração ou outro motivo, deixaram na mão dos restantes cidadãos a escolha dos autarcas que irão governar as suas terras.

Três exemplos: um com o coração em Castelo do Neiva (Viana do Castelo) e os pés no Canadá, outro “à sombra” da esposa em Ferreira das Aves (Viseu), outro ainda “à boleia” de um recluso em Oeiras (Lisboa).

“Autarca” significa “político eleito para os órgãos do poder local”. Mas aqui o dicionário deverá ser revisto e substituir a palavra “político” por “pessoa”, “cidadão” ou “alguém”, a acreditar que a eleição de independentes é uma tendência. E falamos de independentes-independentes, não de independentes-dissidentes.

Sem nos ocuparmos de valores, aqui se deixa a ordenação dos partidos/movimentos em função do número de autarquias conquistadas: PS; PSD; CDU; Independentes; CDS/PP. Fazer ou não uma interpretação nacional de eleições locais ocupou bastante tempo de antena à volta das autárquicas.

E nunca se tinha ouvido tantos políticos pronunciarem a palavra “leitura”. Pena que não fosse para a promover. Não a leitura dos resultados, mas a dos livros.

SETEMBRO

29 de Setembro
Poeta

Cultivar o que é belo

Para os dicionários, “poeta” é “aquele que se dedica à poesia, que tem faculdades poéticas, que escreve em versos” ou “pessoa dotada de grande sensibilidade e imaginação, que cultiva o que é belo, nobre, ideal”. Para os leitores de poesia, um poeta é muito mais.

Na segunda-feira, a morte saiu à rua e roubou-nos um, António Ramos Rosa. Prémio Pessoa em 1988, cantava o mundo com palavras como estas: “Eu escrevo versos ao meio-dia/ e a morte ao sol é uma cabeleira/ que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo/ Estou vivo e escrevo sol.”

Por ser um dos poemas emblemáticos da sua obra e por ter voltado a escrevê-lo antes de se despedir da filha e da mulher, Estou vivo e escrevo sol andou nesta semana por jornais, sites, blogues. Um convite a ler algo de belo e a esquecer os maus utilizadores de palavras que hoje vão a escrutínio nas urnas de cada terra. Estes serão aquilo a que no Brasil se chama “poetas de água doce” ou “poetas das dúzias”, isto é, “que fazem maus versos”, “poetastros”.

Ramos Rosa foi um poeta descobridor de bons poetas, como lembrou Maria Teresa Horta, que lhe agradece ter lido os seus primeiros poemas, há mais de 50 anos. A escritora recordou também como outros (da colectânea Poesia 61) se reuniam “à volta dele”: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge.

O poeta que terminou O grito claro (1958) com “não posso adiar o coração” também não pôde adiar a morte. Os leitores podem. Estando vivos, leiam, partilhem e escrevam sol.

22 de Setembro
Campanha

Batalha para angariar votos

Começou na terça-feira a campanha para as eleições autárquicas, que decorrerão a 29 de Setembro. E o dicionário explica o que é uma “campanha eleitoral”. Trata-se de um “conjunto de realizações políticas (comícios, sessões de esclarecimento, etc.) mediante as quais os candidatos a uma eleição procuram, no período que a antecede, angariar o maior número de votos dos eleitores”.

Não há definição específica para uma campanha destinada a eleger autarquias, o que não admira, pois cada vez se confunde mais com a outra, a que antecede as legislativas. Os protagonistas são os mesmos e os temas repetem-se: troika, défice, cortes, austeridade.

Quarta-feira, António José Seguro: “[A meta dos] 5% permitiria não fazer cortes retroactivos nas pensões, não aplicar a TSU ao conjunto dos reformados e permitiria parar com os despedimentos na função pública.”

Quarta-feira, Jerónimo de Sousa: “Porque estamos em campanha eleitoral, fica bem dizer: ‘Tu ofereces 4,5%, eu ofereço 5%.’ Só que existe um problema, a troika não vai em conversas.”

Quarta-feira, Passos Coelho: “Acusam-nos de escondermos medidas de austeridade ao mesmo tempo que dizem já que vão votar contra essas medidas, que, afinal, já são conhecidas.”

“Campanha” é um substantivo feminino de origem latina, campania, significando “terreno aberto”. Daí a designação de campanha militar, “confrontos entre exércitos em campo aberto”. Até dia 28, o “campo de batalha” vai mudando de localização geográfica. O único indicador que nos recorda que a campanha é para o poder local e não nacional.

15 de Setembro
Regresso

De volta à vida normal

Substantivo masculino que tem como significado principal “acto ou efeito de regressar, de voltar ao ponto de partida ou ao ponto onde se esteve antes”. Setembro é o mês em que o “país regressa à vida normal”, para usar um exemplo de frase de um dos dicionários consultados.

O início do ano lectivo, com o “retorno” dos alunos às escolas, é o momento em que as famílias “voltam” às rotinas e se despedem das férias. Até que o Verão seguinte chegue outra vez.

Na quinta-feira, os alunos começaram a “regressar” às aulas (“regressar”: verbo intransitivo que significa “voltar”). Até amanhã, espera-se que “quase 1 milhão e 350 mil alunos, de 6300 estabelecimentos de ensino, comecem as aulas”. Com eles, regressam os professores (os que conseguirem), os funcionários (em número insuficiente) e os queixumes (à medida): “O arranque do ano lectivo é geralmente marcado por protestos pontuais de pais, alunos e docentes. Este ano não é excepção”, noticiou-se.

Mas o ministro da Educação, Nuno Crato, afirmou: “O ano lectivo está a abrir com normalidade.”

“Regresso” também quer dizer “nova ocorrência” e “retorno cíclico”. Aqui, o dicionário fala-nos da estação que está prestes a visitar-nos: “Com o Outono, o regresso da chuva e do frio.”

Há uma frase que ficou na memória dos portugueses, num momento triste da sua história. Era dita pelos jovens combatentes na Guerra do Ultramar através da rádio e da televisão: “Adeus, até ao meu regresso.” Nem todos voltaram.

8 de Setembro
Refugiado

Quando se é obrigado a fugir

“Pessoa que em consequência de guerras, revoluções, etc., se vê obrigada a procurar asilo fora do seu país, em condições geralmente precárias.” Assim se define “refugiado”.

Em 1951, foi criado um organismo internacional com o objectivo de “procurar protecção e ajuda internacional aos refugiados”, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Foi esta instituição que revelou há poucos dias que os refugiados sírios passaram de 200 mil para dois milhões em apenas um ano. E que “mais de metade das pessoas que fogem da guerra na Síria para os países limítrofes são crianças”. António Guterres, alto-comissário, descreveu o que ali se passa como uma “calamidade humanitária”.

O verbo “refugiar-se” significa “procurar refúgio, abrigo, segurança, face a perigo ou ameaça”. É o que fazem os sírios que conseguem escapar e que escolhem destinos como Líbano, Turquia, Iraque, Jordânia, Norte de África e mesmo Europa.

Alguns países estão a ficar sem capacidade de resposta para acolher os refugiados, que “atravessam fronteiras com pouco mais do que a roupa que trazem no corpo”, disse Guterres. Isto ainda antes de estar decidido (e marcado) um ataque à Síria. “Uma guerra absurda”, chamou-lhe Vasco Pulido Valente, dizendo que Obama “quer castigar Assad pelo crime de matar com gás 1400 pessoas (400 crianças) e, julga ele, impedir que se repita”.

E explicou o que pode acontecer: “Uma violenta retaliação de Assad é susceptível de sublevar o Médio Oriente inteiro e, em última análise, empurrar a América para uma longa, frívola e mortífera campanha.”

1 de Setembro
Bombeiro

Soldado pacífico que pode morrer em combate

“Pessoa que tem por função combater incêndios, fazer salvamentos e socorrer vítimas de outro tipo de sinistros”, descreve o dicionário. É no Verão que a palavra “bombeiro” ganha protagonismo. Altura em que nos apercebemos de como há muitos homens e mulheres que voluntariamente nos protegem e salvam do fogo. Morrem por nós.

Chamam-lhes “soldados da paz”. Combatem um inimigo traiçoeiro e imprevisível. Nem sempre têm as melhores armas ou orientações, mas raramente se rendem ou recuam. Obrigada.

Nesta semana, falou-se muito em bombeiros. Por motivos tristes (morte de três jovens elementos: Rita Pereira, Bernardo Figueiredo e Cátia Dias) e por tristes motivos (a tardia homenagem da Presidência da República a estes cidadãos corajosos).

O comandante dos Bombeiros Voluntários do Estoril, Carlos Coelho, lamentou não ter sido possível evitar as mortes e lembrou que “a função de bombeiro é desvalorizada possivelmente por grande parte da sociedade, mas é extremamente arriscada”.

Segundo Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, “os bombeiros têm uma preocupação muito grande de debelar e combater o inimigo, mas este inimigo é muito forte, é traiçoeiro e tem todas as armas à sua disposição, mesmo a negligência da floresta”. E a incontrolável dança do vento.

Rui Moreira da Silva, presidente da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários, sublinhou na Antena 1 que “voluntário não é sinónimo de amadorismo”, que “a formação é adequada e os bombeiros portugueses têm muita experiência no teatro de operações”. Mas disse, sobre o incêndio no Caramulo: “É impensável colocar uma coluna num local daqueles.”

No Brasil, “bombeiro” significa “espião do campo inimigo”. O maldito fogo.

AGOSTO

25 de Agosto
Ambição

Um sonho fácil de explorar

O “desejo profundo de concretizar alguma coisa”. Esta é uma das definições inocentes da palavra “ambição”, a que equivalem “aspiração”, “pretensão” e “sonho”. Há dicionários que lhe atribuem uma carga mais “pecaminosa”, como “desejo veemente de riqueza, honras ou glórias” e “desejo ardente de poder, fortuna, sucesso”. São os mesmos que escolhem os sinónimos “cobiça” e “avidez”. Para clarificar a ideia, registam: “A ambição levou-o a cometer algumas loucuras.”

Pensamento semelhante terá ocorrido a quem tomou conhecimento do que aconteceu a Moritz Erhardt, o estagiário alemão do Bank of America, de 21 anos, que foi encontrado morto na casa de banho da residência onde vivia em Londres, a 15 de Agosto. Por “ambição” e/ou por “exploração”, terá trabalhado 72 horas seguidas.

“Exploração” significa “abuso de boa-fé de outrem para auferir benefícios”. A dúvida sobre o peso de cada um dos substantivos (“ambição”/”exploração”) no destino do jovem será difícil de esclarecer.

Noticiário no PÚBLICO: “Afirmava ser ‘altamente competitivo e de natureza ambiciosa’ (…). A organização britânica Finance Interns utiliza a palavra ‘escravatura’ para descrever a forma como os jovens são tratados quando entram em algumas empresas do mundo financeiro.”

O bem-sucedido Zeinal Bava, que se tornou CEO da PT em 2008 (na altura, o presidente executivo mais jovem dos operadores históricos europeus), dizia nas reuniões: “Não pedimos desculpas por ter ambição, pedimos desculpas quando falhamos.” Lamentavelmente, Moritz Erhardt já não corre o risco de falhar.

18 de Agosto
Dinossauro

Réptil extinto e autarca de longa duração

“Réptil fóssil, essencialmente continental, característico da era mesozóica, de um grupo extinto há cerca de 65 milhões de anos e que inclui os maiores animais terrestres conhecidos.” E também “pessoa considerada ultrapassada, mas respeitada pela força da tradição”. O dicionário exemplifica com a frase: “Um dinossauro do partido.”

A tentativa de “extinção” de “dinossauros” políticos com três mandatos consecutivos em câmaras municipais não está a correr bem para quem legislou. Cada tribunal, sua sentença. Fernando Seara (Lisboa, PSD), Moita Flores (Oeiras, PSD). Carlos Pinto de Sá (Évora, CDU), Jorge Pulido Valente (Beja, PS) e João Rocha (Beja, CDU) eram até quarta-feira os felizes contemplados com decisões que lhes permitem voltar a ser autarcas, embora nas imediações dos concelhos anteriores.

Álvaro Amaro (Guarda, PSD), Francisco Amaral (Castro Marim, PSD), José Estevens (Tavira, PSD), Fernando Costa (Loures, PSD) e Vítor Proença (Alcácer do Sal, CDU) tiveram outra sorte. Acabou-se.

Excerto da sentença do Tribunal da Guarda: “(…) um presidente de câmara que tenha cumprido três mandatos consecutivos numa determinada autarquia não pode voltar a candidatar-se nas eleições seguintes, nem para essa câmara nem para qualquer outra”. De recurso em recurso, há-de chegar-se à decisão final.

“Dinossauro” vem do grego, deinós (terrível) + saúros (lagarto). Frase do dicionário para o plural (existe também a forma “dinossáurios”): “Em Portugal, há vestígios de dinossauros.” Na pedra e no betão.

11 de Agosto
Pausa

Férias com ou sem subsídios

“Interrupção mais ou menos breve de actividade ou movimento” é uma das definições da palavra “pausa”, que também significa “intervalo”, “paragem”. Todos os anos, nos primeiros dias de Agosto, há uma certa “interrupção” na vida política, no trabalho, nas notícias (excepto sobre swaps) e até nas decisões de cada um. São as férias “grandes”. Até aqui, eram pagas no final do mês anterior ao descanso, mas neste Verão só alguns tiveram direito ao subsídio por agora. Outros terão de esperar por Novembro. Políticos, não.

“Pausa” também significa “interrupção”. Na actividade lectiva, há um “stop”. A maior parte das famílias com filhos fica obrigada a gozar férias nesta altura. Mais ainda quando há complicações com reuniões de avaliação e greves de professores em datas de exame. Mas parece que os docentes têm o mesmo problema de calendário.

Segundo João Louceiro, Fenprof, “Agosto é a única altura do ano em que os professores podem gozar férias”. Foi assim que acusou o Ministério da Educação pela escolha deste mês para “negociar uma matéria tão complexa e gravosa para os docentes”: a avaliação. A própria, não a dos alunos. Parece que 14 é excessivo para quem ensina.

A FNE, pela voz de Lucinda Dâmaso, defende que os professores “que já têm anos e anos de serviço, que já foram avaliados, que já tiveram Bom, Muito Bom, Excelente” deveriam ser dispensados. As negociações “deviam continuar em Setembro”, dizem. Depois deste “interregno”, portanto.

Em música, “pausa” é uma “figura que indica duração para o silêncio”. E era tão bom que todos se calassem. Pelo menos de vez em quando. Em Agosto, por exemplo.

4 de Agosto
Confiança

Falar verdade a mentir?

Substantivo feminino que significa “sentimento positivo que se tem em relação a alguém em quem se confia”. Pode, segundo o dicionário, traduzir-se em “confiança” numa pessoa (“tinha uma confiança cega no amigo”) ou num governo (“um voto de confiança no governo”).

Na terça-feira, o Parlamento aprovou uma moção de “confiança” no actual executivo, remodelado há pouco, e que resultou de sugestão (imposição) inédita do Presidente da República.

“Confiança” também quer dizer “sentimento positivo em relação a si próprio”, o que é bastante adequado ao contexto, já que foram os partidos no Governo (PSD e CDS) que manifestaram a sua “autoconfiança”, votando favoravelmente em si mesmos. Toda a oposição votou contra, enquanto se avistavam narizes de palhaço nas galerias da Assembleia da República.

Expressões: “ir à confiança” (ter a certeza, mas ser iludido); “com esse, nada de confianças!” (excesso de familiaridade); “depositar confiança em” (acreditar na seriedade de alguém). Quem tentou esta semana provar que era digna de “confiança” foi a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. Mas não é fácil explicar o folhetim dos swaps.

E vem à memória Almeida Garrett, no seu Falar Verdade a Mentir: “Aos pés de vossa senhoria, senhor recebedor-geral. — Um lugar magnífico! Verdadeiramente dos rendosos e pouco trabalhosos! — Com um poucachinho de jeito e de savoir-faire — quaisquer boas relações no tesouro, um amigo seguro nas companhias-monstros... pode-se andar muito caminho em pouco tempo. Hão-de gritar — é o costume — hão-de gritar: o recebedor-geral para aqui, o recebedor-geral para acolá!... Deixá-los gritar: ri-se a gente, e vai arranjando a sua vida.”

JULHO

28 de Julho
Remodelação

Modificar, melhorando. Acredite-se ou não

Nome feminino singular. E “singular” surge aqui por oposição a “plural”, não com o sentido de “invulgar”. Mas até que podia ser, já que a “remodelação” que invocamos a pretexto da semana que passou tem características “fora do comum”. Mas não divaguemos.

“Remodelação” quer objectivamente dizer “acção de modificar, melhorando”. Mas também “acção para dar nova estrutura ou organização a alguma coisa”. Acredite-se ou não.

“Anuncia-se uma remodelação ministerial” e “loja encerrada para remodelação” são expressões colhidas num dicionário recente, mas não tanto assim, que pudesse adivinhar que Cavaco Silva iria aceitar a “remodelação” proposta por Passos Coelho. Portugal não fechou, mas esteve paralisado tempo suficiente para que as contas se virassem contra nós, os portugueses (contribuintes, melhor dizendo).

Factos: “Paulo Portas passa a vice-primeiro-ministro numa remodelação em que há alterações no Ministério da Agricultura e Mar, bem como no Ministério da Economia. (…) Rui Machete irá para os Negócios Estrangeiros, Jorge Moreira da Silva para o Ambiente e Energia, Pires de Lima vai para a Economia.”

Outros significados (quase hilariantes): “Feição nova”, “orientação diferente ou oposta à vigente”. Mais: “Transformação profunda, especialmente nos serviços públicos.”

Os novos actores da “remodelação” no Governo tomaram posse na quarta-feira. Pensando no actual peso do partido de Paulo Portas, o grande vencedor da novela a que se assistiu recentemente, citemos Pedro Santos Guerreiro (Negócios online): “O CDS não tomou posse, tomou conta.” E vale 12% do eleitorado.

21 de Julho
Esforço

Ultramaratona, Volta e compromisso

“Mobilização das forças físicas, mentais ou intelectuais, para vencer uma resistência ou ultrapassar uma dificuldade.” Esta é a primeira definição registada para o substantivo masculino “esforço”. E o dicionário dá um conselho: “Basta um pequeno esforço e conseguirás atingir o teu objectivo.”

Mas alguns objectivos exigem esforços maiores. Que o digam os atletas Carlos Sá e Rui Costa. O primeiro, ultramaratonista, venceu a ultramaratona americana Badwater (um percurso de 217 quilómetros que começou 86 metros abaixo do nível do mar e terminou a 4421 metros de altitude) e o ciclista chegou sozinho e em primeiro lugar à meta em Gap, depois de percorrer os 168 quilómetros da 16.ª etapa da centésima Volta à França.

Como se escreveu nesta semana no PÚBLICO, “o cérebro de um desportista é tão importante quanto as pernas” e não se duvida de que estes dois casos respondem à pergunta do artigo: “Qual é o segredo para detectar um atleta acima da média?” Resposta: “As capacidades mentais.”

Sobre a importância das pernas dos políticos nada se escreveu, mas não serão precisos grandes conhecimentos científicos para se esperar que a outra parte, a mental, funcione em condições. Mais ainda no “esforço” de diálogo e compromisso que PSD, CDS e PS aceitaram fazer, a mando de Aníbal Cavaco Silva.

Pelo menos souberam fingir que se esforçaram por se entender. E nós fingimos acreditar. Com esforço.

14 de Julho
Salvação

Do resgate à felicidade eterna

Do latim salvatio, “salvação” é um substantivo feminino que se traduz por “acto ou efeito de salvar ou salvar-se”. Para o Presidente da República português, Cavaco Silva, a “salvação nacional” pede um compromisso entre três forças políticas. Disso deu conta ao país na noite de quarta-feira, impondo um “acordo de médio prazo entre os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional: PSD, PS e CDS”.

Como primeiro exemplo do dicionário para ilustrar o conceito, surge a frase: “Náufragos num bote à espera de salvação.” Mas a que se segue também é boa: “No estado em que ficou, não havia salvação possível.” Uma explicação para os mais optimistas: “Passagem da decadência para a prosperidade.”

Para essa prosperidade, o maior defensor da estabilidade (pelo menos até quarta-feira) impôs que o “compromisso de salvação nacional” assentasse em “três pilares: eleições antecipadas após Junho de 2014, apoio dos três partidos ao actual Governo e apoio dos mesmos ao Governo seguinte”.

Sinónimos: “libertação”, “triunfo”, “vitória”. Mas o melhor de todos é, no contexto, “resgate”. Porque a “salvação nacional” terá sido pensada para nos salvar do resgate que nos terá salvo...

Caso não haja um acordo entre os partidos, disse o Presidente, “encontrar-se-ão outras soluções no quadro do nosso sistema jurídico-constitucional”. A salvação terá de ser outra. Em linguagem religiosa, trata-se de “bem-aventurança” e “felicidade eterna”. Até lá, salve-se quem puder.

7 de Julho
Irrevogável

Demissão ou talvez não

“Irrevogável” é algo “que não pode ser alterado, que não muda e volta atrás”, diz o dicionário. Mas isso é porque não conhece Paulo Portas, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros que se demite à terça-feira (com um pedido “irrevogável” e obedecendo à sua consciência), renegoceia à quarta e quinta e se readmite certamente num outro dia qualquer. “Irrevogável”, mas só um bocadinho.

Também o presidente da mesa do congresso do CDS-PP usou aquela palavra para se referir à decisão do líder do seu partido: “Luís Queiró reiterou que essa decisão tem uma ‘natureza irrevogável’.”

Sinónimos: “definitivo”, “inabalável”, “irreversível”. Tal qual.

O dicionário exemplifica com esta frase: “O curso irrevogável dos acontecimentos.” E os acontecimentos foram: demissão do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e sua substituição pela ex-secretária de Estado Maria de Luís Albuquerque. Nome que desagradou a Paulo Portas, que preferia Paulo Macedo. Pediu então a demissão a Pedro Passos Coelho, que não lha deu.

“São conhecidas as diferenças políticas que tive com o ministro das Finanças. A sua decisão pessoal de sair permitia abrir um ciclo político e económico diferente. A escolha feita pelo primeiro-ministro teria, por isso, de ser especialmente cuidadosa e consensual”, justificou no comunicado de demissão.

Já agora, “demissão” significa “acto ou efeito de deixar voluntariamente um emprego, cargo ou dignidade” e também “fuga ao cumprimento dos deveres”, “desistência”, “renúncia”. Tal qual.

JUNHO

30 de Junho
Paralisação

Pára quem quer e quem não quer

“Paralisação” é um substantivo feminino singular que significa “acto ou efeito de paralisar”, “perda do movimento ou da sensibilidade”, “demora”, “interrupção”, “greve”. Ora aqui está o sinónimo que se procurava, “greve”, já por nós explicado em Novembro de 2011, a propósito da greve geral que uniu então (pelo menos por algumas horas) as centrais sindicais UGT e CGTP-IN. Entre vários objectivos, tinham o de “combater os cortes nos subsídios de Natal e de férias” e “defender o Estado social”.

Recordemos o essencial do que o dicionário diz sobre “greve”: “Interrupção voluntária e colectiva do trabalho por parte dos assalariados com o objectivo de reivindicar aumento de salários e melhores condições de trabalho.” Na quinta-feira passada, houve nova greve geral e mais uma vez com a convergência das duas centrais. Mas a meta é diferente da registada no dicionário. A CGTP-IN e a UGT queriam com esta paralisação “derrubar o Governo” e dar “um grito de insubmissão”.

Passos Coelho, o primeiro governante da democracia portuguesa a enfrentar duas greves gerais convocadas pelas duas centrais sindicais, embora reconhecendo “o direito à greve” como “inalienável”, disse que “o país precisa menos de greves e mais de trabalho”. Arménio Carlos (CGTP) respondeu: “Esta greve geral é pela defesa do trabalho.”

“Paralisação” também quer dizer “paragem deliberada”, “supressão”. De transportes, por exemplo. E quando eles param porque querem levam muitos a parar sem querer.

23 de Junho
Avaliação

Apreciação da competência de um aluno

Um dos significados: “Apreciação da competência ou do progresso de um aluno ou de um profissional.” O calendário escolar impõe que este seja o momento de “avaliação” dos alunos (não dos profissionais da docência), traduzindo em números o seu desempenho no ano lectivo de 2012/13. Em condições normais, seriam definidos em conselhos de turma, realizados antes dos exames nacionais em níveis que os exigem (6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos). Mas essa é a parte teórica da matéria. Na prática, não se passa assim. Pelo menos à nossa latitude. Excerto de notícia desta semana: “Greve dos professores continua a inviabilizar a maioria das reuniões de avaliação interna dos alunos.”

A escola é, aliás, um lugar onde se multiplicam tipos de avaliação (não falamos na dos professores, para não os indispor). Descobrimos quatro. Primeiro: “Aferida: a que permite detectar o grau e a qualidade dos saberes adquiridos e assim melhorar o sistema de ensino.” Segundo: “Diagnóstica: a que permite conhecer, numa dada área de saber, antes de uma sequência de aprendizagem, os conhecimentos e competências de um aluno.” Terceiro: “Formativa: a que procura guiar um aluno, fornecendo-lhe, de modo sistemático e contínuo, a identificação e descrição qualitativa dos pontos fortes e dos pontos fracos, de modo a melhorar a sua aprendizagem.” Quarto: “Sumativa: a que encerra uma sequência de aprendizagem e permite fazer um inventário e uma classificação dos saberes adquiridos e um balanço das actividades.” Ufa!

A oitava “avaliação” ao programa de ajustamento português começa a ser preparada amanhã, com a chegada da troika a Lisboa. Mas aí a escola é outra.

16 de Junho
Força

Violência, músculo e vontade

O primeiro significado de “força” que interessa aqui explorar é “violência”. Frases sugeridas pelo dicionário: “Bater com força”, “usar a força para dominar o agressor”. Adequa-se aos acontecimentos recentes na Praça Taksim, em Istambul (Turquia), excepto no pormenor do “agressor”, que poderia ser substituído por “manifestante” ou “reivindicador”. Do lado de quem tem a “força”, o do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, prefere-se a palavra “vândalo”.

No mesmo sentido, simbolizando a “força” de quem tem o “poder” (sinónimos), a polícia de choque instalou-se em frente à TV pública grega, para controlar os profissionais que se recusaram a abandonar as instalações depois da ordem de encerramento dada pelo Governo de Atenas. Mas a “força de vontade” de alguns jornalistas tornou possível manter a emissão na Internet.

Símbolo maior de “força de vontade” é Nelson Mandela, a quem se encaixa com todo o mérito esta definição: “Capacidade de persistência, esforço continuado na realização de algo, na persecução de um objectivo.” Mas há um limite para todas as forças. As dele estão a chegar ao fim. Ninguém se pode admirar, só lamentar.

Outros significados de “força”: “Faculdade de operar, de executar” e “poder da musculatura”. A medir forças e músculos andam os professores portugueses e o Ministério da Educação. Amanhã há greve, mas também há exames de 12.º ano.

Pelo meio, com pouca ou nenhuma força, estão alunos e encarregados de educação. Se se tratasse de um mero desafio, dir-se-ia “que ganhe o melhor”. Mas isto é só “uma força de expressão”.

9 de Junho
Rectificativo

Para emendar e pôr a andar

O dicionário não oferece grandes teorizações sobre o adjectivo “rectificativo”. Diz apenas: “Que rectifica.” Procurou-se melhores explicações através do verbo “rectificar”. E lá se encontrou mais prosa: “Tornar recto”, “alinhar”, “corrigir”, “emendar”, “tornar exacto”. Ou, dito de outra forma, “fazer correcção, emenda”. Frase registada: “Enganei-me, mas rectifiquei o erro de cálculo.”

Prática corrente quando se trata do Orçamento do Estado, que quer dizer, de forma simplificada (embora nunca o seja), “a conta da receita e das despesas públicas prováveis durante um ano económico”.

Na semana que passou, votou-se no Parlamento o Orçamento rectificativo para 2013, “que prevê um agravamento da recessão de 1% para 2,3% e revê o défice público de 4,5% para 5,5%”. Mas os valores do Governo já tinham, na altura, de ser “corrigidos”, segundo a oposição. Haveria pois que “rectificar” o “rectificativo”.

Na Matemática (não confundir com Economia ou Finanças), “rectificar” corresponde a “achar o comprimento de uma curva”; na Química, “purificar, destilando novamente (líquidos)”; na electricidade, “converter uma corrente alternada em contínua”. E há uma certa continuidade nos rectificativos. O de 2012 vulgarizou a expressão de Passos Coelho “desvios colossais”. Também o FMI deveria ter “rectificado” o excesso de austeridade a que obrigou a Grécia e assim evitar o agravamento da recessão económica naquele país.

No Brasil, “rectificar” significa “pôr motor desgastado pelo uso em condições de pleno funcionamento”. Depois, é pô-lo a andar.

2 de Junho
Mobilidade

Ir daqui para ali ou para lado nenhum

Substantivo feminino latino: mobilitate. Até aqui, tudo pacífico. A palavra “mobilidade” significa “condição de quem pode passar de um estado a outro ou de uma situação a outra”. Agora, já se começa a complicar. Mas, teoricamente, os dicionários não têm ideologia.

Outra definição: “Qualidade de móvel, do que pode ser movido ou mover-se, mudando de lugar ou de posição.” Para um funcionário público que trabalhe em Portugal, este significado não é de fiar. O sentido decretado há pouco tempo e ainda não “dicionarizado” poderá querer dizer que ficará parado e sem trabalho. Mas só depois de se “mover” durante um ano.

Há um sinónimo recente para “mobilidade” que se vulgarizou entre os governantes: “requalificação”. Mas é pouco pacífico entre trabalhadores e seus representantes. “A mudança de um sistema de mobilidade especial para um projecto de requalificação não é mais do que colocar trabalhadores no desemprego. É o despedimento colectivo de um número significativo na Administração Pública.” Palavras de Maria Helena Rodrigues, vice-presidente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado.

Quando se fala em “mobilidade social”, referimo-nos à “facilidade com que um indivíduo tem acesso a condições sociais mais favoráveis, a mais oportunidades de melhorias sociais”.

Pensando em electricidade, a “mobilidade” é “uma constante de proporcionalidade entre os portadores de carga eléctrica e a intensidade do campo eléctrico aplicado”.

Sinónimos: “inconstância”, “instabilidade”. Não custa a acreditar. Mesmo estando fora da função pública. E nada sabendo de campos eléctricos.

MAIO

26 de Maio
Tornado

Vento ciclónico devastador

Escreve um dicionário comum de língua portuguesa na entrada “tornado”: “Rajada de vento ciclónico que sopra em movimento espiral sobre um pequeno espaço da superfície terrestre, derrubando árvores, casas, povoações.” Também sugere sinónimos, como “borrasca”, “ciclone”, “furacão”, “tufão”, e dá uma frase como exemplo: “A região foi devastada por um tornado.” Poder-se-ia adicionar-lhe “Oklahoma City”. E não só pelos acontecimentos recentes, de 20 de Maio, mas por ser a região norte-americana onde mais tornados se têm registado. “Foi o tornado número 150 naquela área metropolitana, segundo uma lista da NOAA [agência norte-americana para os oceanos e a atmosfera] com eventos desde 1893”, noticiou-se por estes dias.

Um dicionário enciclopédico dá-nos uma explicação mais pormenorizada e semelhante à descrita pelo linguista brasileiro Aurélio: “Fenómeno meteorológico que se manifesta por uma grande nuvem negra, donde vai saindo um prolongamento parecido a uma tromba de elefante, o qual, torneando rápido, desce até à superfície da Terra, onde produz forte remoinho. Pode atingir valores da ordem dos 200km/h, cobrindo uma área que em regra não ultrapassa uma a duas centenas de metros.” Podíamos aqui alterar a velocidade dos ventos para 320km/h e a área afectada para 32 quilómetros.

A versão do Brasil diz ainda que um tornado “levanta pó” e “destelha casas”. Ali se ensina que se chama “tromba d’ água” a um fenómeno semelhante, mas que ocorre no mar. “Tornado” corresponde igualmente a “embarcação à vela, para provas desportivas, com dois cascos paralelos e dois tripulantes”. E significa também “que voltou”, “que regressou”. E a verdade é que teima em voltar a Oklahoma.

19 de Maio
Maldição

Praga, desgraça e castigo divino

Nome feminino que significa “acção ou efeito de amaldiçoar, de desejar mal a alguém ou a alguma coisa, pronunciando palavras solenes ditadas por sentimentos de ódio, aversão, cólera”. Tudo bons sentimentos.

Algo assim aconteceu em 1962, com palavras ditas por Bela Guttmann, então técnico do Sport Lisboa e Benfica. De origem húngara, o treinador ajudou o clube a conquistar duas taças europeias, mas logo depois vaticinou que os “encarnados” jamais conseguiriam ganhar o que quer que fosse na Europa. “Sem mim, nem daqui a cem anos o Benfica conquistará uma taça continental.”

Tantos anos depois, à sétima oportunidade de alcançar um título europeu depois de lhe ter sido rogada aquela “praga” (sinónimo de “maldição”), o clube viu escapar a Taça da Liga Europa. Para o Chelsea. Aconteceu na quarta-feira, aos 92 minutos. Aparentemente, com nova “maldição”. Isto porque, no fim-de-semana passado, o clube perdera para o Futebol Clube do Porto no mesmo momento do período de descontos. Aqui, os registos mais adequados do dicionário serão, com as devidas proporções (falamos de bola), “desgraça”, “desventura”, “infelicidade”, “calamidade”.

“Maldição” também é “castigo divino”, mas as divindades escolheram outros protagonistas nesta semana: a troika e o casal Silva. “Penso que foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima”, disse o Presidente sobre os “efeitos positivos da aprovação da sétima avaliação da troika”. Mas só estava a reproduzir as palavras de Maria Cavaco Silva.

Já a invocação de S. Jorge foi discurso do próprio, em Monção: “São Jorge vencedor significa abundância e felicidade. E nós bem precisamos de boas notícias.” Ámen.

12 de Maio
Jactância

Soberba, quixotice ou bazófia

“Atitude ou comportamento de quem mostra e exibe as suas qualidades ou o elevado conceito que tem de si próprio.” Assim se pode definir o substantivo feminino “jactância”. Não terá sido a palavra mais usada na semana que passou (ou noutra deste século), mas a sua “aparição” na voz do líder do CDS-PP, Paulo Portas, inspirou comentários sarcásticos nas redes sociais, na rua e levou muitos portugueses à prática que aqui se estimula: a consulta de dicionários.

Disse o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, no domingo, sobre as medidas de austeridade anunciadas pelo primeiro-ministro, Passos Coelho: “Uma coligação não é uma fusão, é um compromisso e uma vontade de em nome do país e do interesse nacional cumprirmos com o nosso dever, eu achei simpáticas as declarações do primeiro-ministro ontem e (...) não tenho a jactância de atribuir apenas ao CDS determinados pensamentos.”

Num registo brasileiro, a palavra surge como “conduta de quem vive a contar fanfarrices”. Ninguém esperaria comportamento semelhante de um elemento do Governo, mesmo não concordando com a contribuição sobre as pensões indexada ao crescimento económico. “Esta é a fronteira que não posso deixar passar”, disse Paulo Portas. Sem jactância.

Divirta-se agora o leitor a substituir “jactância” por um destes sinónimos: alarde, altivez, arrogância, baforeira, bazófia, bizarria, bravata, chança, chibantice, compadrada, empáfia, espanholada, fanfarronada, farelório, flateria, fumaça, gabarolice, garganta, gauchada, lambança, ostentação, patacoada, pavonada, penacho, pimponice, presunção, prosápia, quixotice, roncaria, soberba, sobranceria, ufania, vaidade, vanglória.

Vale sempre a pena abrir um dicionário.

5 de Maio
Consenso

Foi você que pediu um?

Substantivo masculino que significa “assentimento geral”, “opinião generalizada”, “consentimento”, “anuência”. Do latim consensu, “acordo unânime”. Enfim, algo difícil de alcançar na política portuguesa, mas que está na moda pedir. (E rejeitar.)

Pede o Presidente da República, Cavaco Silva: “É essencial alcançar um consenso político alargado que garanta que, quaisquer que sejam as concepções político-ideológicas, quaisquer que sejam os partidos que se encontrem no governo, o país, depois de encerrado o actual ciclo do programa de ajustamento, adoptará políticas compatíveis com as regras fixadas no Tratado Orçamental que Portugal subscreveu.” (José Seguro, do PS, rejeita.)

Pede o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho: “O consenso político de que precisamos para responder aos desafios do futuro tem de ser expresso por políticas concretas, credíveis e mensuráveis.” (José Seguro rejeita.)

Pede o ministro das Finanças, Vítor Gaspar: “É necessário consenso político esclarecido e generalizado.” (José Seguro rejeita. “Não nos peçam para fazer consensos com um governo que aplica uma política de empobrecimento, com um governo que está esgotado.”)

“Consenso” também quer dizer “convergência de opiniões”. O dicionário exemplifica com uma frase que já todos ouvimos: “A proposta não reuniu o consenso de todos.”

Há ainda registo da expressão “consenso universal”, traduzida por “acordo da humanidade em torno de uma ideia ou juízo”. Mas não é de política que se trata.

ABRIL

28 de Abril
Democracia

Governo do povo e para o povo

Diz um dicionário de 1940 sobre a palavra, de origem grega, demokratia: “Soberania popular. Governo do povo. Influência do povo na governação pública. Classe social que compreende o operariado e a população ínfima.” Sobre um “democrata”, lê-se na mesma fonte: “Sectário do govêrno democrático. Aquele que pertence à classe popular ou que não gosta da aristocracia.” Do grego, dêmos (povo) + krátos (domínio).

Na semana em que se assinalaram os 39 anos do 25 de Abril de 1974, falou-se na Assembleia da República em “democracia empobrecida” e pediu-se “mais democracia”.

Dicionários recentes definem-na assim: “Sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos” e “forma de governo que garante a participação dos cidadãos em cargos públicos e lhes consagra direitos e garantias”. Soa bem. O adjectivo e substantivo “democrata” também: “Que ou quem defende os ideais da democracia.”

Por estes dias, muitas frases invocaram a democracia. Assunção Cristas, ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território: “A pobreza atinge a universalidade da democracia.” Francisco Assis, ex-líder parlamentar do PS: “A democracia não é um regime fácil.” Mário Soares, ex-Presidente da República: “A crise em que nós estamos está a afectar a nossa democracia.” Pedro Latoeiro, editor online do Diário Económico: “Temos de amar a democracia como nunca.” Seja.

21 de Abril
Maratona

Prova desportiva que se tornou tragédia

“Maratona” é um substantivo feminino que significa “prova de estrada, na distância de 42.195 metros”. A sua denominação homenageia “a corrida do soldado grego que percorreu idêntica distância entre Maratona e Atenas, em 490 a.C., para anunciar a vitória dos gregos sobre os persas”. Em Boston, Estados Unidos da América, realiza-se, anualmente, a maratona mais antiga do mundo fora dos Jogos Olímpicos. A primeira edição decorreu em 1897, um ano depois de a prova se estrear nos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna.

O que habitualmente é um dia de festa para os atletas profissionais e sobretudo para os amadores transformou-se em tragédia. Duas explosões junto à meta provocaram três mortos e 176 feridos (balanço ao fim da tarde de quinta-feira). E não são feridos ligeiros, muitos sofreram amputação de membros. Claramente “a meta” das bombas artesanais, em que se usaram “panelas de pressão cheias de pregos ou munições e rolamentos”, soube-se durante a semana.

“Maratona” também significa “acção que exige um esforço extraordinário”. Terá sido nessa que participaram os voluntários de Boston e o pessoal médico, para acudir tantas vítimas.

A palavra “maratona” pode traduzir-se igualmente por “actividade muito intensa desenvolvida de modo ininterrupto”. É o que se espera dos investigadores e das forças de segurança até que se consiga perceber (se alguma vez for possível) a quem poderá interessar este horror.

14 de Abril
Ferro

Metal duro e pessoa intransigente

“Metal duro e maleável” que tem como símbolo químico Fe. Alguns dicionários acrescentam à definição de “ferro” a característica “tenaz”, dizendo ser “muito abundante na natureza e de inúmeras aplicações”. Mas falam de indústria, não de política. Só em sentido figurado se consegue chegar ao sentido que determinou que esta fosse a escolha para palavra da semana.

“Pessoa dura, intransigente”, regista um. Em “de ferro”, outro nos esclarece: “Diz-se do que é forte, resistente, difícil de quebrar ou vencer.” E dá um primeiro exemplo de frase, no masculino: “É um homem de ferro.” Nada de damas. Outros exemplos: “Tem uma saúde de ferro” e “precisa de alguém com um pulso de ferro, para repor a ordem”.

Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990, morreu a 8 de Abril, com 87 anos. Chamavam-lhe Dama de Ferro pelas características “do metal” descritas antes, mas também porque nunca “trocou votos por simpatia” nem mostrou a sensibilidade que sempre se espera das mulheres. Situações recordadas por estes dias em que se confirma a sua “dureza”: aplicou cortes na despesa que lançaram milhões no desemprego, assistiu, sem ceder, à morte de presos do IRA em greve de fome e em 1984 venceu um longo “braço-de-ferro” com os mineiros em greve. Pouco depois, limitou o poder dos sindicatos.

“Chumbo” poderia ter sido “outro elemento metálico”, em sentido figurado, a ocupar este espaço, já que também ocupou a semana. Falamos do chumbo de medidas do Orçamento do Estado para 2013 pelo Tribunal Constitucional e que pôs o Governo “a ferro e fogo”. Mas isso era “malhar em ferro frio”.

7 de Abril
Fraude

Acto ardiloso, mentira, embuste...

“Qualquer acto ardiloso, de má-fé, com intenção de enganar ou lesar outrem.” Mas o dicionário também diz que “a fraude traduz a intenção de procurar uma vantagem indevida, patrimonial ou não”.

“Fraudes” curriculares e académicas voltaram a ser notícia na semana que passou, com Miguel Relvas prestes a ver anulada a sua licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais e a demitir-se do Governo.

Quem muito saberá sobre o sentido de “prática ilícita” (ou fraude) serão os médicos, farmacêuticos e outros profissionais de saúde que se incluem nos 252 arguidos e nas 34 pessoas detidas pelas investigações da Polícia Judiciária. Motivo: fraude em prescrições médicas e em meios complementares de diagnóstico e burlas praticadas nas farmácias. Tudo avaliado em verbas “bastante superiores” a 100 milhões de euros, segundo o ministro da Saúde, Paulo Macedo.

A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, admitiu igualmente que a fraude ao Serviço Nacional de Saúde “é de enorme dimensão” e “praticada em todo o país”. Mas também há fraudes em investigação na Segurança Social, respeitantes a “reformas, abonos e subsídios”.

Quem comete uma fraude é “fraudulento” ou “frauduloso”. Sinónimos estranhos: “garatusa”, “guilha”, “muamba”. Sinónimos comuns: “mentira”, “artimanha”, “baldroca”, “falsidade”, “velhacaria”.

Sinónimo mediático: “embuste”. Mas esse vem de outras narrativas.

MARÇO

31 de Março
Previsão

Conjectura, futurologia ou apenas imaginação

“Acto ou efeito de prever”, “antevisão”, “conjectura” ou “presciência” são algumas das explicações que os dicionários registam para a palavra “previsão”. A origem deste substantivo feminino singular é latina: praevideo (“ver antes”). Também quer dizer “antecipação a partir de indícios ou suposições do que vai acontecer”, “pressentimento” ou tão-só “imaginação”.

Muitas previsões sobre indicadores económicos em Portugal têm sido divulgadas (e falhadas) nos últimos tempos. Na semana que passou, foi possível escutar o Banco de Portugal a “ajustar” as suas previsões: “Em vez de uma recessão de 1,9%, como previa há dois meses, o Banco de Portugal aponta no Boletim Económico de Primavera para uma contracção mais forte da economia (...) O supervisor bancário Carlos Costa agravou as suas previsões económicas e aponta agora para uma recessão de 2,3% em 2013.”

Também o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, declarou que “o crescimento do PIB e os valores do desemprego são muito menos favoráveis do que era esperado” e que “o ajustamento se mostrou consideravelmente mais custoso”.

Por acumulação de várias previsões não confirmadas, o ministro foi alvo das seguintes declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, algo perito em “futurologia” (sinónimo de “previsão”). “Como é que os portugueses podem acreditar nas previsões de Vítor Gaspar, parece um astrólogo”, disse o comentador à TVI.

“Prever” significa “afirmar antecipadamente, por meio de cálculo ou estudo”. Uma frase do dicionário espelha bem o sentimento dos portugueses e mais ainda de muitos cidadãos cipriotas: “Nunca previ que isto me acontecesse.”

24 de Março
Desconfiança

Disposição para a suspeita

Substantivo feminino que significa “temor de ser enganado” e “disposição para a suspeita”. Sentimentos cada vez mais presentes nos cidadãos da União Europeia e que se tornaram mais fortes ainda nesta semana depois das decisões do Eurogrupo em relação a Chipre. O propósito era taxar a 6,75% os depósitos bancários inferiores a 100 mil euros, ignorando “a protecção jurídica consagrada na legislação europeia dos montantes até este valor”. Para depósitos superiores a 100 mil euros, a taxa seria de 9,9%. O Parlamento cipriota (55 deputados) disse “não”.

Esta seria a contrapartida pelo programa de ajuda do FMI de 10 mil milhões de euros àquele país. E vem à memória um provérbio bem conhecido em Portugal: “Quando a esmola é grande, o pobre desconfia.”

Na quinta-feira, “o Presidente cipriota, Nicos Anastasiades, e os líderes dos partidos chegaram a acordo para ser criado um Fundo de Investimento de Solidariedade como alternativa à proposta rejeitada”. Um plano para que o Governo consiga obter 4000 milhões de euros. (Valor que nos é familiar.)

“Desconfiança” também quer dizer “desesperança” ou “perda parcial da esperança”. Outro sentimento que grassa por aí. O verbo “desconfiar” vem registado como “não fiar”.

Um dicionário, sábio, dá como exemplos duas frases: “Desconfiar de algumas promessas eleitorais” e “ver o futuro com alguma desconfiança”. Um outro, igualmente avisado mas mais radical, recorre ao provérbio “a desconfiança é a mãe da segurança”. E explica: “Convém não confiar em excesso para não ser enganado.”

17 de Março
Conclave

Reunião para escolher um Papa ou um alvo

O sentido mais amplo da palavra “conclave” é o de “reunião para discutir algo”. Há no entanto algum secretismo nessa discussão, já que conclave, na sua origem latina, significa “compartimento que se fecha com chave”.

Nesta semana, falou-se mais do conclave dos cardeais em Roma, enquanto “assembleia para eleger novo Papa”, do que do encontro de militares na Coreia do Norte com o seu Presidente, Kim Jong-un. Aqui, foi “eleito” o primeiro alvo “para o arranque das hostilidades militares com a vizinha Coreia do Sul”: a ilha de Baengnyeong.

Kim Jong-un, Presidente da Coreia do Norte, anunciou a decisão após visitar casernas do Exército nacional perto da fronteira, no dia em que a Coreia do Sul e os Estados Unidos iniciaram manobras militares conjuntas. E disse: “Depois de ser dada a ordem, devereis torcer as costas aos inimigos, abrir-lhes as goelas, mostrar-lhes claramente o que é uma verdadeira guerra.”

Do conclave de Roma, saíram palavras mais positivas e bem-humoradas, ditas por Francisco, o primeiro Papa jesuíta e latino-americano: “Vocês sabem que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram quase até ao fim do mundo para me buscar. Mas aqui estamos. (...) Auguro que o caminho que hoje começamos será frutífero para a Igreja.”

Embora o colégio cardinalício contasse com 207 cardeais, o conclave era formado por apenas 115, isto porque só podiam votar os “menores” de 80 anos. Depois dos argumentos de renúncia de Bento XVI, esperava-se que fosse escolhido um cardeal mais novo. Mas as verdadeiras motivações do Vaticano estão quase sempre “fechadas à chave”.

10 de Março
Aniversário

O PÚBLICO fez 23 anos

“Diz-se do dia em que se completa um ano ou anos que certo acontecimento se deu.” De origem latina, anniversarius significa “que volta, acontece todos os anos”. E voltou a acontecer. O calendário tornou a assinalar o dia 5 de Março. Data de aniversário da primeira edição do PÚBLICO, que foi para as bancas em 1990. Por isso, ao contrário do habitual, escolhemos uma “palavra da semana” que diz principalmente respeito a quem está deste lado das páginas.

Outras definições do dicionário: “O dia que, anualmente, corresponde ao de um acontecimento: o aniversário de uma vitória, de um nascimento” e “aniversário natalício, dia em que se completa mais um ano de vida”.

Explicações de enciclopédia: “Comemoração de periodicidade anual de um qualquer evento importante, como a morte de uma personalidade, o fim de uma ditadura ou uma batalha.” Há religiões que não recomendam e outras que nem toleram a comemoração do aniversário.

Nos aniversários, faz-se uma festa e canta-se os Parabéns a você, normalmente com desafinação. No PÚBLICO, não foi diferente, mesmo se este ano foram menos as vozes.

Os brasileiros usam o verbo “parabenizar” (para felicitar, congratular) e “aniversariar” (para comemorar o aniversário).

Neste 23.º aniversário do PÚBLICO, um agradecimento especial às crianças que nos ajudaram a criar uma edição diferente, mas também aos leitores, por se manterem desse lado das páginas (e do ecrã).

3 de Março
Populismo

Substantivo masculino com duas facetas: a simpática, “proximidade do povo, atenção ao povo na arte, na literatura ou noutra manifestação cultural”, e a pejorativa, “conduta de quem se serve das necessidades e dos anseios do povo para fins de política partidária”. Ou seja, “demagogia” (sinónimo de populismo).

Beppe Grillo, comediante, bloguista e agora político, concorreu para as eleições italianas pelo Movimento 5 Estrelas e prometeu um “rendimento de cidadania” de mil euros, a saída do euro e 20 horas para a semana de trabalho. E o povo embarcou. Beppe Grillo conquistou 25,5% do eleitorado.

“Populismo” também significa, ainda em política, “movimento, por vezes protagonizado por um chefe carismático e paternalista, que apela à simpatia das bases populares”. A Beppe Grillo, não chamaram "carismático", mas “palhaço”. A Berlusconi, também. Disse Peer Steinbrück, candidato a chanceler da Alemanha: “Até certo ponto estou chocado por dois palhaços terem ganho.” Mais formal, afirmou depois: “A minha impressão é a de terem ganho dois populistas (...), o que, nesta situação, irá novamente contribuir para maiores problemas na zona euro.”

“Populista” regista-se como “pessoa que é adepta do populismo ou que utiliza os seus métodos”. As frases que o dicionário escolhe para clarificar o sentido pejorativo deste substantivo e adjectivo uniforme são: “Os populistas enganam o povo” e as “práticas populistas desacreditam a democracia”. É capaz de ter razão.

FEVEREIRO

24 de Fevereiro
Cantar

Quem canta seus males espanta

Muito antes de existir a canção Grândola, vila morena, um dicionário de 1940 registava assim o verbo “cantar”: “Exprimir por meio de canto. Celebrar em verso.”

Depois de se ouvir aquela canção da autoria de Zeca Afonso nas galerias do Parlamento no dia 15 de Fevereiro, que interrompeu o discurso do primeiro-ministro, a segunda senha do 25 de Abril de 1974 foi entoada mais vezes e menos ordeiramente durante a semana que passou. Cantaram-na para Miguel Relvas, ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, e para Paulo Macedo, ministro da Saúde. Passos Coelho reconheceu o “bom gosto” dos manifestantes, os outros ministros não.

O mesmo dicionário (Cândido Figueiredo) diz-nos que, enquanto termo popular, “cantar” também significa “retrucar” e “replicar com energia”. Já os mais recentes falam em “emitir sons musicais, entoar uma música”. E dão-nos algumas expressões comuns, como “cantar de galo” (“falar em tom superior, vitorioso ou arrogante”) e “já cá canta!” (que “exprime posse ou concretização de um grande desejo”). Enquanto substantivo masculino, “um cantar” pode traduzir-se por “cantiga”, “cântico”, “hino”.

Terá sido como “hino à liberdade” que se escolheu Grândola para calar os governantes? Haverá contradição nisso? Questões que ocupam por estes dias as redes sociais e os meios de comunicação.

Diz uma canção sobre si própria que “a cantiga é uma arma”. E o povo diz há muito que “quem canta seus males espanta”. Em vários tons.

17 de Fevereiro
Renunciar

O Papa desistiu de o ser

“Abandonar cargo, função, título.” O mesmo que “abdicar”, “resignar”. A semana começou com a notícia da renúncia de Joseph Ratzinger ao mais alto cargo da Igreja Católica. Eleito Papa em 19 de Abril de 2005, escolheu chamar-se Bento XVI. A 11 de Fevereiro de 2013, desistiu de o ser. E disse: “Depois de examinar reiteradamente a minha consciência perante Deus, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro (petrino). Sou consciente de que este ministério, pela sua natureza espiritual, deve ser levado a cabo não apenas por obras e palavras mas também, em menor grau, através do sofrimento e da oração.”

Um dicionário de 2006 perguntava na entrada explicativa do verbo (transitivo e intransitivo): “Deve ou não o Papa renunciar?” Mais adiante, aparecia um outro exemplo ligado à Igreja, para a palavra “resignação”. “O bispo pediu a resignação por motivos de saúde.”

Mas, em português, o sentido mais comum para “resignação” é o de “atitude de quem se resigna, aceitação com paciência dos males e contrariedades da vida”. Daí a estranheza do público perante o uso desta palavra pelos meios de comunicação social para designar a “renúncia” do Papa. Mas são sinónimos e ambos têm origem latina: renuntiare e resignare.

Outro significado: “Deixar de praticar um credo”, “renunciar um culto”. Não serão, certamente, exemplos que se apliquem a Ratzinger, o homem que, nas palavras de Angelo Sodano, provocou “um trovão em céu sereno”.

Mais ou menos resignados, os cardeais reunir-se-ão em conclave a partir de 15 de Março para escolher um novo Papa.

10 de Fevereiro
Secretário

Alguém que guarda segredos e anda à boleia

As origens mais remotas da palavra “secretário” vêm do latim tardio, sob a forma de secretaríu. Significado: “O que guarda segredos de outro.”

O mundo estava então muito longe de conhecer siglas como BPN ou SLN. Descodificando, Banco Português de Negócios e Sociedade Lusa de Negócios. Esta proprietária daquele. No currículo, uma fraude.

Um ex-gestor da SLN, Franquelim Alves, foi escolhido pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e pelo ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, para secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação. Mas nada de SLN no currículo tornado público do ex-gestor. A oposição não gostou. Cavaco Silva aprovou.

Diz o dicionário na entrada “secretário de Estado”: “Entidade governamental, de categoria geralmente inferior à de ministro, que tem a seu cargo um departamento importante de um ministério.” Mas um “secretário” foi durante muito tempo apresentado como “aquele em que se confiava algum segredo para o guardar”, até mesmo “um confidente”.

Terá Franquelim Alves a prática de guardar segredos? Sobre o “segredo” do BPN não é possível ainda perceber se foi ele a revelá-lo. O ministro da Economia garante que o agora secretário de Estado terá enviado uma carta, a 2 de Junho de 2008, ao Banco de Portugal denunciando a fraude. A oposição duvida e pede provas.

No Brasil, um “secretário” era um “indivíduo que o cocheiro trazia à boleia”.

3 de Fevereiro
Coragem

Valentia e alguma loucura

“Força de espírito que permite ultrapassar o medo e combater o perigo ou fazer frente a situações ameaçadoras.” É esta a primeira definição de “coragem” que o dicionário regista. A sua origem é latina, de cor, que significa “coração”. E há que o ter em bom estado para desafiar o mar, como fez Garrett McNamara, de novo, na Nazaré. Surfou uma onda que terá à volta de 30 metros, conquistando um novo recorde. Há alguma loucura nisto.

“Valentia”, “ânimo”, “intrepidez”, “bravura”, “firmeza”, “ousadia” são sinónimos de “coragem”. A que terá faltado a Pedro Passos Coelho para uma remodelação mais profunda no Governo.

Exemplos de frases: “Resistiram com coragem aos invasores” e “a coragem de enfrentar as chamas durante o incêndio”. Poder-se-ia acrescentar um exemplo inspirado em McNamara, qualquer coisa como “a coragem de surfar as maiores ondas do mundo”.

Há outros sentidos para a palavra: “grandeza de alma”; “carácter nobre”; “perseverança”. Um deles é inesperado: “dinheiro”. Pode usar-se “coragem” no sentido de “vontade, força interior para levar a cabo alguma coisa” ou ainda “capacidade de dominar os sentimentos”, “sangue-frio” (“o marido não teve coragem para assistir ao parto”).

Também significa “acção ou efeito de corar, de dar ou tomar cor” e “branqueamento da roupa na lavadeira, dos tecidos na fábrica”.

Diz-se de quem tem coragem que é “corajoso”, mas também se pode dizer duas estranhas palavras: “corajudo” e “coragento”.

JANEIRO

27 de Janeiro

Mercado

Venda de fruta (ou de dívida) da época

Substantivo masculino de origem latina, “mercado” deriva de mercatus: “comércio”, “tráfico”, “negócio”. A primeira acepção é: “Lugar público coberto ou ao ar livre em que se vendem géneros alimentícios e outras mercadorias.” Tanto pode ser fruta como dívida.

Portugal voltou aos mercados na quarta-feira para vender 2 mil milhões de euros de obrigações do Tesouro. Mas, face à procura (superior a 12 mil milhões de euros), o Governo colocou na “praça” um montante de dívida de 2500 milhões de euros. Diz-se que é uma boa notícia, pois significa que há investidores estrangeiros que acreditam no país. Banqueiros e políticos ficaram satisfeitos.

Ricardo Salgado, do BES, considerou “uma vitória” do povo português e do Ministério das Finanças “e, fundamentalmente, uma vitória sobre as agências de rating”. Mira Amaral, do famoso BPN, disse que “o sucesso desta operação prova que os bancos são essenciais para o financiamento da economia portuguesa e (...) ajuda a atenuar muitos dos problemas que actualmente existem”. Não se referiu a quem os terá criado.

A secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, classificou a operação como “‘um primeiro passo muito importante’ no processo de regresso aos mercados, que contribuirá para a recuperação da economia e para o financiamento das empresas e das famílias”.

O dicionário também regista “mercado paralelo” e “mercado offshore”. Se o primeiro significa “compra e venda de produtos à margem dos circuitos normais e dos preços fixados”, o segundo corresponde a “mercado financeiro fora de controlo de qualquer autoridade monetária nacional ou internacional”. Mas não queremos estragar a festa.

20 de Janeiro
Pensar

Reflectir por convite

Pensar o Futuro – Um Estado para a Sociedade. Assim se intitulou uma conferência de dois dias no Palácio Foz, em Lisboa, promovida pelo Governo português. “Pensar” significa “fazer uso da razão para depreender, julgar ou compreender”; “encadear ideias de forma lógica”; “raciocinar”.

Mas em Portugal pensa-se por convite. Apresentada como o início de “um debate na sociedade civil sobre a refundação do Estado”, excluiu alguns dos que nela queriam participar. Como Luís Paulo Fernandes, presidente da Associação de Feirantes: “As pessoas tentaram participar numa conferência tão importante para o futuro dos portugueses. Eu pedi para me inscrever mas disseram-me que só se entra por convite, o que me indignou porque se trata de a sociedade civil discutir o futuro do país.”

Na forma transitiva, “pensar” regista-se como: “reflectir sobre”, “meditar”, mas também “ter em conta” ou “considerar provável”. Pensa Pedro Passos Coelho: “Estamos condenados a ser bem-sucedidos no processo de reforma do Estado.” Mas parece que pensa sozinho. “Depois de PCP e BE terem recusado participar na comissão de reforma do Estado, socialistas seguem o mesmo caminho”, noticiou-se na quarta-feira.

“Fazer tenção de” e “pretender” também são explicações para o verbo. No caso de que se fala, será “tenção de” refundar o Estado. Já agora, “refundar” quer dizer “tornar a criar”, “fundar novamente”. Mas também significa, em primeiro lugar, segundo os dicionários, “tornar mais fundo”, “afundar”.

13 de  Janeiro
Inconstitucional

Parece que é, mas não é

Registam os dicionários: “Que não é conforme à lei constitucional do Estado, que se opõe a ela.” Dir-se-ia que a explicação para este adjectivo de dois géneros é clara e objectiva. Engano. Aferir o carácter “inconstitucional” de algumas medidas não é simples, como se tem observado a propósito do Orçamento do Estado para 2013 e mais recentemente face às novas medidas propostas pelo FMI. Outra definição: “Violação do disposto na Constituição ou dos princípios nela consignados.”

Uma petição a circular na Internet junta ao pedido de intervenção do Tribunal Constitucional o seguinte argumento: “O Art. 17.º do Decreto Lei nº 49680 de 20 de Outubro estabelece que ‘os subsídios de Natal e de férias são inalienáveis e impenhoráveis’.”

Já Vital Moreira, constitucionalista e eurodeputado (PS), não vê motivos para que o Tribunal Constitucional reprove o Orçamento. “(…) Não compartilho pessoalmente dos argumentos que têm sido enunciados para defender a inconstitucionalidade — e é a inconstitucionalidade (e não a constitucionalidade) que é preciso demonstrar de forma convincente, pois em caso de dúvida ela é dada como ‘não provada’”, escreveu no blogue Causa Nossa.

Complicando um pouco mais os conceitos, com a ajuda do constitucionalista Jorge Miranda: “Constitucionalidade e inconstitucionalidade designam conceitos de relação: a relação que se estabelece entre uma coisa — a Constituição — e outra coisa — uma norma ou um acto — que lhe está ou não conforme, que com ela é ou não compatível, que cabe ou não cabe no seu sentido.” (Contributo para Uma Teoria da Inconstitucionalidade, Coimbra Editora, 1996). Agora, é esperar.

6 de Janeiro
Mensagem

Esperança, mas pouca

Os finais de ano são férteis em vários tipos de “mensagem” — em sentido lato, “comunicação verbal ou escrita”. Mas este substantivo feminino também pode referir-se a “notícia” ou “recado”. As mensagens institucionais de Natal, como lembrou Vasco Pulido Valente no PÚBLICO, “são um hábito importado de Inglaterra”. E disse mais, no seu tom habitual: “Cá na terra, quem inaugurou este absurdo costume foi o ‘Presidente’ Américo Tomás (…) Mas, depois do PREC, a República achou a coisa boa e continuou a palhaçada.” Isto a propósito da mensagem, melhor, das mensagens de Pedro Passos Coelho, na televisão, e de Pedro (e Laura), no Facebook.

Além de “conteúdo de uma revelação de cáracter religioso”, também quer dizer “significado profundo atribuído a uma obra artística ou literária”.

Nos momentos de passagem de ano, multiplicam-se entre os cidadãos as mensagens de paz e de esperança. Este ano, pouca.

Um dos dicionários consultados regista em terceiro lugar  “comunicação formal de carácter institucional”, para logo dar o exemplo “mensagem do Presidente da República à nação”. Uma parte da de Cavaco Silva foi assim resumida pela RTP: “Presidente da República diz que é preciso travar a espiral recessiva em que entrou Portugal e que 2013 deve ser um ano de aposta no crescimento económico. Cavaco Silva aproveitou a mensagem de Ano Novo para deixar recados ao Governo, parceiros sociais e partidos políticos. O chefe de Estado afirmou ainda que Portugal não aguenta uma crise política.”

A esperança foi adiada. Se o pedido ao Tribunal Constitucional da fiscalização das normas do Orçamento do Estado relativas à suspensão do pagamento do subsídio de férias e à contribuição extraordinária de solidariedade resultar em inconstitucionalidade, também ele beneficiará de todas. E não pediu outras.