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Quando o resto da Europa pára, o futebol inglês acelera

No dia a seguir ao Natal, há sempre uma jornada da Premier League. Dois dias depois há outra. E no primeiro dia do ano também.

Quem joga no futebol inglês é obrigado a trabalhar na altura das festas
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Quem joga no futebol inglês é obrigado a trabalhar na altura das festas Rebecca Naden/Reuters

O último jogo da liga portuguesa em 2013 foi um Belenenses-Estoril que terminou por volta das 21h do passado domingo. O campeonato só vai voltar no fim-de-semana de 12 de Janeiro, o que significa uma interrupção de três semanas. A liga espanhola parou no mesmo fim-de-semana e irá retomar uma semana antes, tal como a italiana. Na Alemanha, a Bundesliga tem a sua prolongada interrupção de Inverno, com um mês sem campeonato. Em Inglaterra, o futebol não pára, com quatro jornadas em 12 dias. Sean Ingle, jornalista do Guardian, faz a comparação perfeita: “Enquanto a Europa respira fundo durante as festas, o futebol inglês entra em hiperventilação.”

Hoje cumpre-se uma ronda completa da Premier League inglesa (e nos outros escalões do futebol inglês, e na Escócia), a tradicional jornada do Boxing Day, depois de se ter jogado no último fim-de-semana. A competição continua a dia 28 de Dezembro e o primeiro dia de 2014 também vai ter futebol inglês. É uma tradição que mais uma vez se cumpre, que não dá descanso aos jogadores, mas que mantém as audiências televisivas em alta.

Nem Alex Ferguson, com toda a sua autoridade, conseguiu acabar com os dias mais intensos do futebol inglês. “Os jogadores e os treinadores precisam de uma pausa também para refrescarem as ideias. Mas nunca dão ouvidos aos que realmente contam no futebol. A televisão tem demasiado poder”, lamentava em 2011 o antigo treinador do Manchester United.

Manuel Pellegrini, o experiente técnico chileno do Manchester City, é um recém-chegado à Premier League e estava habituado à pausa de Inverno da liga espanhola, onde passara nove temporadas. Mas, em Inglaterra, o seu City terá hoje de receber o Liverpool, dois dias depois o Crystal Palace, e, a 1 de Janeiro, vai ao País de Gales defrontar o Swansea. Três jogos em sete dias. “É incrível como os jogos estão tão perto uns dos outros. Dois jogos com menos de 72 horas de diferença não é bom. Os jogadores não recuperam”, observa o chileno.

Os jogos no Boxing Day são tão antigos como o próprio futebol. O primeiro ter-se-á disputado a 26 de Dezembro de 1860, entre o Sheffield FC, o clube mais antigo do mundo, e o Hallam FC, o segundo mais antigo do mundo, também de Sheffield. Aliás, era esta uma característica do Boxing Day, tentar organizar o calendário de forma a que, tanto quanto possível, os jogos desse dia fossem entre equipas da mesma cidade ou região, de forma a poupar os adeptos a grandes deslocações para acompanharem as respectivas equipas.

Apenas um dos dez jogos desta 18.ª será entre equipas da mesma cidade, um dérbi de Londres entre o West Ham e o Arsenal. Pelo contrário, se um adepto do Stoke City quiser ir a St. James Park ver o confronto com o Newcastle, terá de viajar 312 quilómetros. No Boxing Day, o Chelsea de José Mourinho irá ficar em casa para receber o Swansea. O técnico português admite o cansaço provocado pelo excesso de jogos, mas abraça a tradição: “É difícil, mas o futebol é para homens e para mulheres rijas. Adoro. Eu não jogo e é mais difícil para os jogadores do que para mim. Mas para mim também é difícil, porque eu também jogo à minha maneira. Gosto de trabalhar no Boxing Day, sinto-me orgulhoso por dar às pessoas o que elas querem.”

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