Toru Hanai/Reuters
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É bom ser competente?

Quando se atinge um patamar de notoriedade por algo novo, bem feito, aparecem arautos da desgraça a apontar inúmeras falhas, inúmeros defeitos, que tentam deitar por terra e denegrir quem se esforça

Numa época em que ter um trabalho é tão raro, e manter o mesmo posto de trabalho é igualmente difícil, sinto que há uma espécie de medo de ser competente. Medo porque o chefe se pode sentir ameaçado, porque ser competente é sinónimo de mais trabalho, porque ser competente pode causar perda de apoio.


Triste realidade esta em que se devia valorizar quem tem qualificações, dotes, ideias criativas, se esforça por uma causa. Ao invés, incute-se a cultura do medo e da não valorização do positivo. Não nos conseguimos desgrudar da quase "cultura" portuguesa de maldizer e de referir apenas o que está mal, e quando tudo funciona bem há que recriminar, apontar aquela coisinha mal feita. Parece que o bem e bom é algo que incomoda.


Há um aumento de situações em que ser competente se revela mais prejudicial que vantajoso. Quando alguém consegue superar os objectivos, consegue inovar, tudo parece cair-lhe em cima, tudo lhe é pedido, ficando todos os que rodeiam transformados em paisagem, ou com uma sobrecarga muito menor. Quando se atinge um patamar de notoriedade por algo novo, bem feito, aparecem arautos da desgraça a apontar inúmeras falhas, inúmeros defeitos, que tentam deitar por terra e denegrir quem se esforça. Defeitos todos temos, mas quem tenta e corre riscos, e no final tem sucesso, deve ser valorizado e não criticado porque não fez isto ou aquilo.


Pelo contrário, quando trabalhamos com alguém que não é tão competente, tendencialmente fazemos o trabalho que lhe estava destinado para não corrermos riscos. Estamos a fazer algo errado, deveríamos agir de outra forma? Sim, claro que sim. As tarefas devem ser partilhadas, mas se vezes sem conta o que foi feito estava mal executado, acabando por ser realizado por nós, porque não saltarmos etapas que já conhecemos e evitar fazer tudo em cima do joelho? O problema passa muitas vezes por quem chefia que não consegue avaliar de forma correcta estas disparidades tendo a “coragem” de enfrentar algumas discrepâncias e más divisões de tarefas. Como diz o ditado “vale mais um bom mandador que um bom trabalhador”. Eu digo que tem de existir bom mandador e bom trabalhador para ser uma equipa de sucesso. Saber gerir é muito difícil. Pessoas ainda mais.


Há momentos de desânimo em que dá vontade de “atirar a toalha ao chão” e gritar estou farto disto, só defeitos, só coisas más. E isto e aquilo que correu especialmente bem, que foi um sucesso? Já passou? Temos de ganhar quase que motivação extra interiormente para não apontar o dedo àquele que nada faz, que nada tenta, que nada faz brilhar, mas este apontar não traz nada de benéfico, antes pelo contrário.


Eu prefiro sempre primar pela competência, pelo “vestir a camisola”, por encontrar novas soluções. Apelo a que todos façam o mesmo e coloquem o olhar mais focado no esforço, no bom e no bem feito. Sorriremos mais e podemos mudar mentalidades. Tudo começa em nós e na nossa competência. É bom ser competente.

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