Crítica

Banda em construção

Uma canção basta. Uma simples canção pode “fazer” uma banda. Os First Breath After Coma têm essa canção. Intitula-se Escape e é a terceira de The Misadventures of Anthony Knivet, álbum de estreia dos leirienses. Versos repetidos qual mantra muito pop (“Skipping on/ skipping on/ skipping on time/ and we’ll collide”), à volta dos quais a canção vai crescendo em ritmo e intensidade: os farrapos sonoros em fundo irão tornar-se ruído de quem aprendeu com o shoegaze e a secção rítmica irá crescer até se tornar a propulsora de toda a música, enquanto a voz continua a recitação do mantra e a guitarra dança em movimentos angulares. Escape, muito orelhuda, pode tornar-se neste final de 2013 aquilo que foi Time (better not stop), dos We Trust, há dois anos: uma música omnipresente, recebida como conhecida de sempre.

Escape tornar-se-á então, muito provavelmente, a música de assinatura dos First Breath After Coma. Porém, assinalemos o óbvio, é apenas uma das canções de The Misadventures of Anthony Knivet, álbum livremente inspirado na história do navegador do título, corsário inglês do século XVI que foi cativo e feito escravo pelos portugueses, que fugiu e acabou a viver com uma tribo índia e que passaria por África antes de voltar a Inglaterra para escrever as suas memórias.

Ao longo de nove músicas, a banda que escolheu por baptismo o título de uma canção dos ícones pós-rock Explosions In The Sky (escolha nada inocente), funde a natureza mais expansiva destes últimos com o intimismo sonhador de uns Sigur Rós e uma veia pop denunciada (Dead men tell no tales, com as guitarras funcionando como mancha sonora e sons da natureza como pano de fundo, ilustra-o bem). A banda mostra-se ainda estudiosa atenta do actual cenário pop: Knivet, por exemplo, com o sintetizador ambiental muito 80s, batida seca e uma voz evanescente (o eco dá realmente essa sensação), não esconde ter Bon Iver no pensamento.

Meticulosos e preocupados com o brilho da produção (tudo no sítio certo, bem polido), falta aos First Breath After Coma o golpe de asa que elimine aquilo que sentimos ao longo de The Misadventures...: a de que os leirienses são emanação bem conseguida, mas dissolvida no cenário geral, de um certo espírito estético destes tempos. Confortáveis nesta melancolia atinada, falta-lhes o rasgo que revele verdadeiramente uma identidade, por agora, ainda em formação.