Contra a privatização dos CTT

Não podemos dizer “sim” e arriscar que um único reformado que seja habitante de uma aldeia montanhosa veja desaparecer, e anunciado a centenas de quilómetros, o cavalo de 2013 que assegurava que ia ali receber a sua pensão, porque numa comunidade não há “distantes”

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Pedro Miguel/Nfactos

Talvez pudesse escrever este título: “seria sempre contra a privatização dos CTT”. E seria verdade. Acontece que há razões, para além das clássicas, que endurecem uma posição que assumo como pessoal.

Não vou debruçar-me sobre trapalhadas do processo de privatização. Vou tomar partido sobre a questão de princípio: nada justifica a privatização desta empresa; tudo e, em particular, o contexto que vivemos, conduz a uma opção decente pela não privatização.


O resultado mais intencional da continuada forma de marchar a austeridade é a quebra dos elementos essenciais que constituem e mantém viva uma comunidade. Classes contra outras classes: eis a legitimação da marcha austera nessa vitória desagregadora, a vitória que faz aparecer gente que, de repente, não é gente, mas a propriedade de palavras que arrumam, que dizem “velhos”, ou “doentes”, ou “distantes” até se apagarem no mundo das alternativas inexistentes.

Vem isto a propósito dos CTT. O logotipo dos CTT é um cavalo. Porque a função dos CTT já existia no século XVI, ia-se a cavalo dar o escrito de alguém para alguém, que assim garantia a sua ligação, que é como quem diz coesão. Devia ser difícil e pouco lucrativo andar meses a cavalo, mas reinos e gente precisavam de um mensageiro.


Não é preciso recuar a D. Manuel para perceber a função. Qualquer um de nós tem a memória pessoal ou coletiva dos tempos, em pleno século XX, em que os correios eram a garantia de não ser um “distante”, mesmo que o serviço chegasse de comboio ao ponto possível, sendo a distribuição da correspondência pelas várias aldeias responsabilidade de um trabalhador, a burro, ou a cavalo, o tal do logotipo.


A empresa concreta CTT teve um caminho. E o caminho, até hoje, foi um caminho de modernidade, uma empresa que no início do republicanismo passou a ter autonomia administrativa e financeira, com a sigla que dura há 102 anos, o símbolo que vem atravessando gerações, acontecimento que tem a ver com identidade e com a identificação imediata, por parte dos cidadãos, do substrato atrás do cavalo: o tal do serviço que assegura que o que é importante para mim, por exemplo, chega onde estiver o meu alguém, mesmo que o meu alguém viva no cimo de uma serra em lugar distante e, portanto e afinal, próximo. A coesão é isto e não vale a pena andar a gritar pela pátria e por 1640 se não se tem uma ideia material e interiorizada do que é a proximidade uns dos outros feita em garantia prestada por um serviço público.

Por isso mesmo, os CTT passaram a ser uma empresa pública em 1969, no tal caminho de modernidade que deve percorrer um serviço destes e, em 1992, passaram a ser uma sociedade anónima. Para quem anda com a pátria na boca, são os CTT, correios de Portugal. São nossos e devem continuar a ser de todos nós, públicos, mesmo que não se desse o caso de gerarem, como geram, lucro para o Estado. São nossos e devem continuar a ser nossos, públicos, mesmo que um patriota aflito invoque o memorando da troica, caso em que à falta de argumentos mais profundos basta explicar que já ultrapassámos a “meta” estabelecida para o encaixe financeiro com as privatizações.


Não podemos dizer “sim” a uma decisão conjuntural de privatização que lança à lógica do lucro a empresa que presta serviços como correio normal, correio azul, correio verde, correio registado simples, correio registado em mão, correio registado pessoal, entre tantos outros.


Não podemos dizer “sim” ao encaixe financeiro momentâneo de milhões, que será perdido em décadas, mas que significa rasgar um elemento estratégico de coesão nacional.


Não podemos dizer “sim” e arriscar que um único reformado que seja habitante de uma aldeia montanhosa veja desaparecer, e anunciado a centenas de quilómetros, o cavalo de 2013 que assegurava que ia ali receber a sua pensão, porque numa comunidade não há “distantes”.


Nem um.

Antes que os inventem e a palavra passe a “esquecidos”, é preciso dizer não à privatização. Não ao retrocesso. Não à diluição: à nossa.

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