No Meco, só a rebentação das ondas quebra o silêncio da espera

As buscas continuaram esta segunda-feira na Praia de Moinho de Baixo, no Meco, mas nenhum dos cinco jovens desaparecidos foi encontrado. Com o passar das horas, a situação torna-se cada vez “mais complicada e difícil”, admite o comandante do Porto de Setúbal

Fotogaleria
Pais dizem que não "querem atrapalhar o trabalho da justiça"
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel manso

Quando, no domingo, as famílias começaram a ser chamadas para irem à Praia de Moinho de Baixo, no Meco, saber que nessa madrugada o mar tinha levado seis jovens, ouviram-se gritos, choros, e revolta, houve familiares a desmaiar. Nesta segunda-feira, o desespero não era menor e continuava a haver muitas lágrimas e abraços no areal, mas o que mais se ouvia era um silêncio pesado que só a rebentação furiosa das ondas quebrava.

Os familiares, com rostos cansados, fechados, de olhar vago, não arredaram pé e continuaram à espera durante todo o dia. Porém,  além do rapaz que sobreviveu e do corpo que foi encontrado na manhã de domingo, continuam desaparecidos cinco estudantes da Universidade Lusófona de Lisboa. As buscas marítimas foram suspensas ao cair do sol, mantendo-se apenas as equipas em terra. 

Entre o grupo de sete jovens, com idades entre os 21 e os 25 anos, que foi até esta praia na madrugada de domingo, continuam desaparecidos quatro raparigas e um rapaz.

Na Praia de Moinho de Baixo, no Meco, muitas perguntas continuam sem resposta. O que terá levado sete jovens trajados a ir à uma da manhã até à praia, numa noite de Inverno e de maré cheia, depois de um jantar numa casa que teriam arrendado para passar o fim-de-semana em Aiana de Cima, junto a Alfarim? Não se aperceberam do perigo? Não terão visto o tamanho das ondas na escuridão da noite nem ouviram o barulho da rebentação?

O proprietário de um restaurante na zona, Fernando Costa, terá sido a última pessoa a ver o grupo na madrugada de domingo. "Estava na esplanada a fumar um cigarro e vi-os passar. Achei estranho estarem todos vestidos de igual, trajados. Vi-os a descer a estrada em direcção à praia. Iam sossegados. Só estranhei irem para a praia com este frio. Nesta altura não é costume". 

Argentino Veríssimo, 85 anos, conhece bem aquele mar. Foi pescador e saiu muitas vezes no barco Galinho da Manhã para enfrentar as ondas. Diz que o mar merece sempre respeito, mesmo quando parece calmo. “Tem de se respeitar as barbas brancas, a espuma do mar. A mocidade gosta de ver o mar, de estar ali a brincar e a conversar, mas se vier uma onda cavaleira não têm tempo de fugir nem nada. Nem dão por ela”, assegura Argentino, garantindo que no fim-de-semana o mar estava “três vezes mais bravo”. Tanto este antigo pescador como o comandante do Porto de Setúbal não têm memória de tragédia semelhante na Praia de Moinho de Baixo, no Meco.

Apesar de já ter conversado com o jovem que conseguiu sobreviver e pedir ajuda, o comandante do Porto de Setúbal, Lopes da Costa, defende que não é a altura apropriada para se fazer a reconstituição exacta daquela madrugada, porque essa descrição dos acontecimentos não é fundamental para a estratégia das buscas. Também não confirmou se os jovens estariam ou não em praxes naquela altura. “Quando falei com o jovem, concentrei-me em saber os contactos das famílias, o que não foi fácil. Não é altura para estar apurar essas causas, agora estamos concentrados nas buscas”, defende o comandante, deixando esse apuramento para mais tarde.

Na segunda-feira, no terreno, além de psicólogos que continuavam a apoiar as famílias, havia cerca de 50 operacionais a trabalhar no processo de buscas. Ao todo, os meios que já colaboraram incluem Autoridade Marítima, Protecção Civil, bombeiros, INEM, GNR, e Força Aérea. Os meios aéreos chegaram a ser suspensos, mas na tarde de segunda-feira um helicóptero voltou a sobrevoar a zona.

Decidiu-se também alargar a zona de buscas marítimas, em extensão, até bem perto do Cabo Espichel, entre a Lagoa de Albufeira e a Praia dos Lagosteiros, e em profundidade – distância em relação à costa -, passando de três para cinco milhas náuticas. A estratégia tem passado por suspender as buscas marítimas durante a noite, consideradas pouco eficazes sem luz, e manter durante esse período apenas as terrestres. Na terça-feira, quando o sol nascer, os meios marítimos voltarão ao terreno e a estratégia será ponderada, em função das condições meteorológicas.

No areal, os bombeiros e os pescadores garantiam que no fim-de-semana as ondas estariam ainda maiores. Mas mesmo na tarde de segunda-feira o barulho da rebentação era forte e as ondas gigantes. Alguns curiosos que se aproximavam espantavam-se com o som furioso do mar e exclamavam como poderiam os jovens não ter sentido medo nem medido o perigo. O comandante Lopes da Costa garante que naquela praia as ondas podem atingir, na zona de rebentação, quatro a cinco metros.

“Estamos a empenhar tudo o que podemos, temos de aguardar. Mas à medida que o tempo passa, a situação fica mais complicada, não fica mais fácil”, admitia o comandante do Porto de Setúbal. A equipa de psicólogos não prestava declarações aos jornalistas, estando apenas concentrada em apoiar os familiares que se mantinham entre o areal e as tendas montadas na zona. À espera, de olhos postos no mar. Entre o silêncio, as lágrimas e os abraços prolongados de conhecidos que iam chegando à praia.

A Universidade Lusófona também decidiu decretar três dias de luto e disponibilizar alguns docentes que leccionam na área da psicologia para darem apoio aos familiares dos alunos que foram vítimas das ondas na Praia de Moinho de Baixo, no Meco.
 
 
 
 

Sugerir correcção