Nelson ia levar um pacote de arroz mas teve um cabaz para calar a fome

Desempregado que se recusa a pagar impostos fez mais uma acção simbólica. Supermercado respondeu com uma oferta.

Nelson classifica esta iniciativa como um "acto de resistência involuntária"
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Nelson classifica esta iniciativa como um "acto de resistência involuntária" Enric Vives-Rubio

Nelson Arraiolos, desempregado de 41 anos, avisou com antecedência que tencionava ir nesta quarta-feira a um supermercado e que saíria sem pagar um pacote de arroz. E foi com esse objectivo que se dirigiu a um espaço comercial na Rua 1.º de Dezembro, em Lisboa. Mas acabou por receber a oferta de um cabaz de Natal.

“O Pingo Doce fez mais uma manobra de charme aproveitando uma acção de resistência”, concluiu Rita Neves, uma desempregada presente nesta acção simbólica de Nelson Arraiolos, o desempregado que em Setembro entregou uma carta ao Presidente da República comunicando que não pagaria mais impostos, por falta de condições financeiras.

À entrada, dizia entrar no supermercado para buscar um quilo de arroz sem pagar, para chamar a atenção, de forma simbólica, para os problemas de fome do país. À saída, a satisfação por ter conseguido transmitir a sua mensagem era indisfarçável.

Foi ao meio-dia que entrou no supermercado, sendo imediatamente recebido pelo gerente de loja, que o aguardava. Conduzido pelos corredores até ao responsável da marca pelas lojas de Lisboa, ouviu palavras de compreensão: “Sabemos que as suas intenções não são roubar e por isso oferecemos-lhe um cabaz de Natal.”

Nelson Arraiolos disse ao PÚBLICO que lhe foi dito que “compreendiam as razões do protesto e do acto”. O cabaz de produtos será oferecido por Nelson a uma família, com dois filhos menores, que está a passar fome. “Não é porque eu não precise, mas porque há pessoas que ainda precisam mais do que eu”, frisou.

Antes da hora marcada para o que o próprio classificou como um “acto de resistência involuntária” acumulavam-se algumas pessoas à porta da loja. Queriam assistir a mais um capítulo desta luta de Nelson, que está desempregado há dois anos e sofre de uma doença degenerativa, a doença de Charcot Marie-Tooth – que se caracteriza por perda progressiva de massa muscular e de sensibilidade ao toque.

Depois da carta entregue em Setembro a Cavaco Silva e de uma viagem de autocarro em Lisboa sem pagar bilhete, esta foi mais uma forma de Nelson chamar a atenção para o desemprego e a pobreza.

À porta, havia quem mostrasse uma camisola alusiva à privatização dos CTT e à situação dos Estaleiros de Viana. O ambiente era de tensão. “Espero compreensão quando entrar, tentarei explicar lá dentro as razões do meu protesto”, dizia Nelson Arraiolos à entrada. “Um acto de coragem e de valentia impressionante”, disse Rita Neves, apoiante do gesto. “Pode acontecer a qualquer um de nós e estou solidária com esta acção. Se todos fizéssemos o mesmo, seria um sinal a dar ao Governo”.

Nelson entrou com um documento explicativo na mão – que não entregou – e saiu com um cabaz. Dizia estar satisfeito, porque o importante era o resultado. “Mesmo que não trouxesse o pacote [de arroz], valeria pelo acto em si”. Deixa uma mensagem para o Governo: “Parem de salvar os bancos e salvem as pessoas.” E fez um apelo aos cidadãos na mesma situação. “Espero que mais gente se junte a esta luta.”

À volta, cá fora, nem todos estavam satisfeitos: “Apelo a todos os desempregados que venham ao Pingo Doce, porque pode ser que a próxima campanha seja a de um cabaz por desempregado”, disse Rita Neves ao PÚBLICO.

Nelson Arraiolos diz sair desta acção com mais força para as que ainda virão: “Tem de haver respeito pela dignidade humana; não havendo, iremos até ao tribunal internacional dos direitos do homem mover uma acção contra o Estado português”.