National Cancer Institute/Wikicommons
Foto
National Cancer Institute/Wikicommons

Megafone

Cancro: a insustentável fragilidade do ser

E depois de se fazer tudo o que se pode fazer chega a fase que mais custa a passar: a espera. E durante a espera duas coisas acontecem: ou ele nos engana a todos ou dá-se o desembarque na Normandia e sai o Euromilhões, quando num exame médico se lê “marcadores tumorais normais”

Consideram-no a epidemia dos tempos modernos, letal, furtivo, sem vacina e ainda com muitas falhas de tratamento. Mata e mói, a quem o sente na pele e a quem vive junto da pele que por ele passa. É lento e penoso mas ao mesmo tempo demasiado rápido a roubar-nos quem nos faz falta. Falo do cancro, o grande C, aquele cujo nome muitos de nós têm medo de pronunciar.

Já todos ouvimos relatos na primeira pessoa de quem passa por ele, do que ele lhes faz, de como ele os obriga a viver num corpo em luta consigo mesmo. Já ouvimos também quem acompanha a par e passo a luta do outro como se fosse sua, do desespero e impotência em que se vive, da falta de respostas, de porquês. Pensamos que só acontece aos outros, o que não nos impede de mostrar empatia com o sofrimento alheio, mas nada se compara a quando este nos entra pelas portas e janelas, varrendo a casa como se de um furacão categoria cinco se tratasse.

Aquando da notícia, do primeiro embate, passamos pela negação, pelo “os exames estão errados” ou “o médico não percebe nada disto”. Racionais e a tentar manter o sangue frio, fazemos cálculos, procuramos probabilidades, pesquisamos, inquisidores e cépticos. Mas a notícia confirma-se, é verdade, ele está mesmo lá e não está para brincadeiras e já nesta fase dão-se as primeiras fugas, que este tipo de tempestades pode acontecer a qualquer um mas só uns poucos, muito poucos, as suportam e lhes resistem.

Segue-se o contra ataque, a luta feroz, a/as cirurgia/as, internamentos, medicações, tratamentos altamente invasivos, a guerra aberta pela morte de quem nos mata. Nesta fase acreditamos em tudo, rezamos a qualquer entidade divina, prometemos tudo, prometemos ser melhores pessoas, deixar de lado os pecados não pelo perdão da nossa alma mas pela salvação daquele a quem a daríamos de bom grado. Plastificamos um sorriso e uma disposição brincalhona e alegre pois quem está doente já tem tristezas que chegue e o que precisa é de força, suporte, chão debaixo dos pés.

E depois de se fazer tudo o que se pode fazer chega a fase que mais custa a passar: a espera. Esperamos que o cancro entre em remissão, esperamos que os tratamentos façam efeito, esperamos que ele aceite ir embora, esperamos que nos seja devolvida a nossa pessoa que tanta falta nos faz. E durante a espera duas coisas acontecem: ou ele nos engana a todos e depois do aparente desaparecimento volta em toda a sua malvada glória ou dá-se o desembarque na Normandia e sai o Euromilhões, tudo ao mesmo tempo, quando num exame médico se lê “marcadores tumorais normais”.

Quem passa ou passou por isto sabe do que falo, quer na primeira pessoa ou como apoio de quem ama. Sabe das aflições, das pequenas vitórias, dos reveses da moeda, da fé incomensurável que se ganha nestes momentos. Por isso cuida-te, por ti, pelos que te estão perto, pelos que o sobreviveram. Prepara-te pelo teu irmão, pelo teu pai, pelo teu amigo, pela tua mãe. Não deixes que ele te apanhe e se apanhar, dá-lhe luta.