Eanes: “É uma decisão definitiva, não penso voltar à política"

Defende o consenso para mobilizar a sociedade. Não crítica Cavaco, afirma que as actuais eleitores estão melhor preparadas, mas lamenta os cortes transversais no ensino.

Ramalho Eanes preside à comissão de honra da candidatura de João Cordeiro pelo PS
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Eanes vai ser homenageado na segunda-feira Enric Vives-Rubio

“Dali não vai sair uma pomba, nenhum coelho. É uma decisão definitiva, não penso voltar à política”. No terceiro andar do edifício Presidente, das Avenidas Novas, em Lisboa, Ramalho Eanes fala ao PÚBLICO dias antes da homenagem que esta segunda-feira lhe é prestada no auditório da FIL.

A quem suspeita que o acto é rampa de lançamento de futura acção política, o ex-Presidente desmente. Esgrime o argumento da idade, não tece críticas demolidoras aos actuais poderes. Está preocupado com o país, mas é moderado no verbo.

“A acção política deve ser deixada aos jovens, não a acção cívica que é uma responsabilidade social de todos.” É desta forma que Eanes desenha a separação de águas. “Tenho desenvolvido uma longa actividade cívica, fiz centenas de conferências em que defendi a reforma do Estado”, revela. “Os ex-Presidentes são atracções baratas”, enuncia com humor.

“Tenho tentado fazer o que posso, mas não tenho sido ouvido”, afirma: “Que posso fazer? Tenho 78 anos, estou no fim da vida, tenho um presente que já não tem futuro. O que poderei fazer é alertar os portugueses, não posso fazer mais que isso.” Soa a resignação. Talvez por isso, Eanes tenha hesitado em aceitar ser homenageado.

“Os promotores falaram comigo uma vez, disse que não concordava com a homenagem”, revela. “Pretendem sublinhar o que eu fiz, que foi o que quase todos os homens em Portugal fazem, actuar no limite das capacidades de cada um e desenvolver a comunidade a que pertence”, contesta. “Dizem que me envolvi de maneira coerente nessa responsabilidade social, que sou um exemplo que querem sublinhar, é a opinião deles”, diz a contragosto.

O antigo Presidente da República admite que se empenhou: “Uma vez com sucesso, outras sem sucesso”. Um balanço imperfeito, portanto. “Estou num dilema, tenho que mostrar agradecimento e não tomar uma posição que seja encarada como arrogância”, pondera. Foi no fim da tarde da passada quinta-feira. Um dia depois, confirmou a sua presença no final do acto desta tarde.

“Quando olho para o país sinto uma certa angústia, preocupa-me que hoje os pais preparem os filhos para irem para fora”, diz. A frase é pronunciada em tom baixo. Sem exaltação. São as palavras mais duras que, ao longo de hora e meia de conversa, se lhe ouvem. Prefere a análise. A crise de valores, o capitalismo weberiano estilhaçado pelo capitalismo “de casino”. Especulativo. “Sempre gastámos mais do que produzimos, mais cedo ou mais tarde isso levaria a uma ruptura que necessita novos instrumentos, novas estratégias e processos”, enumera.

“As elites não fizeram a reflexão necessária quando, em 1974, perdemos o Império, e não foi desenhada uma estratégia nacional mobilizadora para identificar as nossas vulnerabilidades e possibilidades, passámos da descolonização à internacionalização.” A reflexão contínua. “Fizemos do projecto europeu o nosso projecto, o drama é que não há projecto europeu definido, a Europa é uma realidade com diferenças várias em matéria fiscal e de solidariedade social”, enumera. Não é antieuropeu: “Foi correcto termos entrado na União Europeia, mas devíamos ter entrado com a nossa estratégia.”

Defende que o futuro exige políticas de emancipação do Homem. Baseada no ensino, da primária à universidade que concretize a igualdade de oportunidades. “Por isso, preocupo-me quando vejo os cortes transversais no ensino, que não exceptuam as escolas e as universidades”, critica. Mas contrapõe que “as elites actuais têm mais formação, são mais cosmopolitas, estão melhor preparadas para este novo tempo”. Recorda um êxito da sociedade civil: o estudo que pôs termo à construção do aeroporto da OTA. “Quando a sociedade civil tem capacidade de se empenhar consegue que a acção política seja mais correcta”, refere.

É defensor do consenso para mobilizar a sociedade. “O actual Presidente da República tem dirigido ao país mensagens de estímulo correctas, é através de um consenso sobre a reforma do Estado e a modernização que o país pode assentar em alicerces sólidos”, destaca. Exemplifica: “O Presidente tem tido uma atitude proactiva nos apelos que faz à sociedade, como ocorreu no Verão passado.” No entanto, reconhece que “os nossos partidos políticos privilegiam o combate ideológico, esquecendo a necessidade de cooperação”.

Mas, diz, “a responsabilidade é de todos”. Ele, como afirma, foi apenas mais um.