Professores contratados queimam certificados de habilitações em protesto contra nova prova de conhecimentos

Há cerca de 30 a 40 mil professores contratados. Todos se espantam que nem as universidades nem os politécnicos que os formaram tenham reagido em defesa da qualidade da formação que lhes ministraram.

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Dezenas de certificados de habitações foram queimados junto ao Parlamento Miguel Manso
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Faz o que te digo, não faças o que eu faço. Isilda Santos, de 58 anos, sempre disse à filha para não pensar sequer em tornar-se professora. Toda a vida bateu nessa tecla. Mas Patrícia Santos, hoje com 25 anos, via os alunos que lhe vinham dar abraços nas férias e marcou-a a história do Rui, um rapaz de 15 anos que já tinha assaltado, esfaqueado e batido em professores. Tinha sido expulso de todas as escolas onde tinha andado e a sua mãe, professora há 36 anos que estava nesse ano à frente do conselho executivo, sentou-se com ele a conversar e conseguiu que terminasse o 6.º ano. Foi preso no dia em que acabou esse ano de escolaridade.

A filha, professora recém-profissionalizada, e a mãe, recém-aposentada, estiveram neste sábado na manifestação de professores contratados contra a existência da chamada Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos, que o Ministério da Educação e Ciência quer que os docentes contratados façam para que possam continuar a candidatar-se a vagas em escolas públicas, tendo que pagar 20 euros para fazê-la. Se não passarem, perdem o direito a concorrer. Ainda ninguém sabe do que constará a prova mas está marcada para 18 de Dezembro —, dia em que, soube-se hoje, haverá greve de professores.

Patrícia Santos tem na mão uma cópia do certificado do mestrado de dois anos que acaba de terminar em ensino de Biologia e Geologia na Universidade de Lisboa, com uma média de 17 valores. Percorre as disciplinas que mais a entusiasmaram: Didáctica da Biologia e da Geologia: 17 valores; Indisciplina e Violência na Escola: 18 valores; Metodologias do Ensino I e II: 18 e 18 — mas a leitura tem que ser interrompida porque é tempo de o ir queimar. Vai para o centro da manifestação e as duas folhas pegam fogo por um dos cantos e depressa se transformam em cinzas que ficam espalhadas no alcatrão. É cópia, o original custou 27 euros, diz a filha, o mestrado cerca de três mil euros, junta a mãe.

Patrícia respondeu ao pedido dos organizadores da manifestação que juntou este sábado em Lisboa cerca de 300 pessoas frente à Assembleia da República: trouxe o seu certificado de habilitações e depois ateou-lhe fogo. Os números dos participantes são de uma das organizadoras, Sónia Santos Dias, professora que explica que tudo começou de forma espontânea no Facebook. Compareceram sobretudo professores contratados, na sua maioria pessoas na casa dos 30 a 40 anos, mas também familiares e amigos. Também estavam marcadas acções em Braga, Coimbra, Santarém e Évora.

“Pôr um milhão de euros ao bolso”
No centro do protesto está precisamente a ideia de que todos os professores contratados são licenciados, alguns com mestrados e doutoramentos. Por que razão têm que prestar provas agora? E porquê só os professores contratados não colocados? E de que o que comprova a sua capacidade para ensinar não se pode resumir “a uma prova de 120 minutos dentro de uma sala fechada, a avaliação é feita em sala de aula”, resume Pedro Santos, professor de 1.º ciclo.

Muitos dizem que a criação desta prova tem duas razões: “É uma forma de descartar mais professores e de pôr um milhão de euros ao bolso”, diz Luísa Melo e Castro, professora de 1.º ciclo de 40 anos, lembrando que terão que pagar 20 euros.

Não muito longe dali, uma professora não usa cartaz nem grita as palavras de ordem. Está ao telemóvel, usa no cabelo uma bandolete onde tem pendurada uma nota daquele valor e anda com um nariz de palhaço. “Pagar para não ter trabalho”, lê-se noutro cartaz.

Quanto ao argumento do ministro da Educação, Nuno Crato, de que esta é uma medida em defesa da qualidade do ensino, ela não colhe, continua Luísa Melo e Castro: “Os contratados são uma minoria”.

Segundo Sónia Santos Dias, professora de Biologia e Geologia com cinco anos de contrato e uma das organizadoras do protesto, este universo docente representa entre 30 a 50 mil pessoas.

Todos se espantam que nem as universidades nem os institutos politécnicos que os formaram tenham reagido em defesa da qualidade da formação que lhes ministraram e que foi certificada na altura certa, diz Catarina Matos, professora de Educação para a Infância e pré-escolar, que mandou um e-mail para a instituição onde se licenciou, a Escola Superior de Educação João de Deus, em Lisboa, a perguntar do porquê do silêncio. Não teve ainda resposta.

Dá-lhe alento a notícia que se soube na sexta, a de que os tribunais aceitaram nove das 12 providências cautelares interpostas pela Federação Nacional dos Professores para travar a realização das provas de conhecimento. “É uma esperança.”

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