Andy Warhol bate o seu próprio recorde numa semana de valores históricos nos leilões

Terça, o tríptico de Bacon tornou-se a obra mais cara em leilão. Quarta, uma de Warhol tornou-se a terceira mais valiosa. Até quando crescerão os valores? E que dizem eles do actual mercado da arte?

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"Silver Car Crash (Double Disaster)", de Andy Warhol, atingiu os 78 milhões de euros Reuters
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"Silver Car Crash (Double Disaster)", de Andy Warhol, atingiu os 78 milhões de euros AFP
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"Silver Car Crash (Double Disaster)", de Andy Warhol, atingiu os 78 milhões de euros AFP
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"Silver Car Crash (Double Disaster)", de Andy Warhol, atingiu os 78 milhões de euros AFP
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"Liz #1 (Early Colored Liz)", também de Warhol, foi arrematada no mesmo leilão por 15,1 milhões de euros AFP

Um dia depois de o tríptico de Francis Bacon, Três Estudos de Lucien Freud, se ter tornado a obra de arte mais cara de sempre vendida em leilão, Silver Car Crash (Double Disaster), pintura de 1963 de Andy Warhol, bateu o recorde alcançado por obras do ícone da arte pop como, chegando aos 105 milhões de dólares (78 milhões de euros).

Mas não só. Com aqueles valores, situa-se agora logo atrás de Três Estudos de Lucien Freud como a obra de arte contemporânea mais cara em leilão. Entre as duas no ranking global surge a quarta versão de O Grito de Munch, que atingiu em Maio de 2012 os 119,9 milhões de dólares (89 milhões de euros). Três Estudos de Lucien Freud fora vendida terça-feira à noite no leilão de arte contemporânea da Christie’s, em Nova Iorque, por 142,4 milhões de euros (106 milhões de euros).

Silver Car Crash (Double Disaster), um painel duplo de 2,43 metros de altura e quatro de largura (no primeiro painel, dispõem-se 15 fotografias serigrafadas de um acidente, retiradas da imprensa, com a carcaça do carro e um corpo retorcido no interior; sendo o segundo painel formado por um rectângulo prateado), é uma das quatro obras da série Death And Disaster, criada entre 1962 e 1964. Curiosamente, apesar de representar uma faceta que, pela morbidez e negrume, não se identifica imediatamente ao Warhol que prevalece na consciência global, são precisamente duas das pinturas da série aquelas que alcançaram maiores valores em leilões da sua obra – Green Car Crash (Green Burning Car I) estava até quarta-feira no topo da lista, após ter sido arrematada em 2007 por 53 milhões de euros.

“É melhor pintura que já vendi em toda a minha carreira”, disse à BBC News o leiloeiro Tobias Meyer. “É a monumentalidade da imagem que a torna tão poderosa, como se a vida e a morte viessem directamente na nossa direcção”.

Silver Car Crash (Double Disaster), que só fora exposta uma vez nos últimos 26 anos, foi adquirida por um comprador não identificado num leilão histórico por mais que uma razão. Para além do recorde de Warhol, representou com 282 milhões de euros o maior volume de vendas da história bicentenária da leiloeira Sotheby’s. Terça-feira, recorde-se, a grande concorrente da Sotheby’s, a Christie’s, registara o maior resultado de sempre em leilão: 513 milhões de euros. “Continuaremos a testemunhar novos recordes”, declarou à BBC News Michael Frahm, conselheiro em arte contemporânea da Frahm Ltd. “A procura de obras seminais de artistas com relevo histórico é verdadeiramente inquestionável. Esta é a derradeira caça ao tesouro”.

No leilão de quarta-feira da Sotheby’s a estrela era Andy Warhol. Além de Silver Car Crash (Double Disaster), foi vendida por 20,3 milhões de dólares (15, 1 milhões de euros) a obra Liz # 1(Early Colored Liz), representando a actriz Elizabeth Taylor. No entanto, também se assistiu, por exemplo, à maior venda de sempre de uma obra do americano Cy Twombly. Poems to the Sea estava estimada em 7 milhões de dólares (5,21 milhões de euros), mas atingiu os 21,7 milhões de dólares (16,14 milhões de euros).


 

Os recordes estabelecidos por Bacon e por Warhol, aos quais podemos acrescentar o de Jeff Koons, cuja escultura Balloon Dog (Orange), arrematada por 58,4 milhões de dólares (43,5 milhões de euros) no leilão de terça-feira da Christie’s, o tornou o artista vivo mais caro, levaram a questionar quanto mais poderão crescer os valores gerados pelo mercado de arte - e que nos dirá esta inflação sobre a própria forma como o mercado se movimenta e se relaciona com o público.

Há uma década, apontava esta quinta-feira o El País, a Christie’s conseguiria num leilão vendas totais de 85 milhões de dólares. Terça-feira o valor recolhido, o mais alto de sempre, foi oito vezes superior: 691,5 milhões. “Que limite tem uma mulher como Sheikha Al-Mayasa bint Hamad bin Khalifa Al-Thani [irmã do Emir do Qatar e presidente da Autoridade dos Museus do Qatar] que, com apenas 30 anos, destina mais 600 milhões de libras (447,4 milhões de euros) por ano para a compra de arte?”, questionava o diário espanhol.

Pedro Lapa, historiador de arte e director do Museu Berardo, explica que, após o eclodir da crise financeira em 2008 se registou nesse ano e no seguinte um abrandamento no mercado de arte. A partir de 2010, porém, recomeçou o crescimento de valores “extremamente elevados”. Tal aconteceu, reflecte, precisamente pela “entrada de novos coleccionadores e de novos mercados do Médio Oriente, da China ou da Rússia”, que “trouxeram nova procura para um mercado no qual a oferta não se alterou”. Afinal, os grandes nomes da história da arte universal continuam a ser os mesmos: “O mercado leiloeiro que fixa os preços é muito conservador e preso a determinadas perspectivas e essa circunscrição também tem contribuído para esta bolha de preços que envolve Bacon, Warhol ou Picasso”.

Actualmente, a esmagadora maioria dos museus não tem possibilidade de competir com tais valores. Resta-lhes, segundo Pedro Lapa, “trabalhar mais directamente com os artistas e tentar dessa forma chegar às obras. Também tem sido meritório ver artistas, como eu próprio já testemunhei, que preferem vender a um museu nacional que a particular”.

Acontece que as grandes obras vendidas a privados por valores como os praticados nos últimos dias acabam muitas vezes em cofres, distantes do olhar do público e, de facto, de qualquer olhar: “sítios o mais abjectos possíveis”, adjectiva Pedro Lapa, “que são tudo o que contraria o trabalho artístico”. Segundo o director do Museu Berardo, o momento actual impõe um debate no meio: “Temos que reflectir seriamente sobre a junção da arte a um mundo neoliberal profundamente empresarial, que traz situações muito contrárias àquelas que levaram à criação de um sistema artístico tal como o idealizámos”.

 Actualizado às 16h40