Um pouco antes do fim

Para quem um dia resolve escrever sobre Macau é quase irresistível o apelo da poesia de Camilo Pessanha: “Há no ambiente um murmúrio de queixume/ De desejos de amor, d’ais comprimidos… Uma ternura esparsa de balidos/Sente-se esmorecer como perfume.”

Em A cidade do Fim Miguel Real assume o patrocínio do poeta simbolista com epígrafes de Pessanha em cada capítulo. Homem de um só livro, Clepsidra, o poeta simbolista viveu grande parte da sua vida em Macau, onde morreu.

É uma das portas de entrada possíveis para um romance que pretende fazer um voo rasante sobre alguns dos clichés associados ao último vestígio do Império Português a mudar de mãos e que tenta ir um pouco mais longe nesta abordagem de um território que sempre foi para os portugueses, terra de fuga. De si próprios na sua condição íntima, volúpia de sexo tântrico, vício de jogo, perfume de poder. Mas também de ilusão colectiva na procura de um Eldorado que permita encher os bolsos de patacas.

Há muito que Miguel Real assumiu através dos seus romances a sua condição de andarilho pelo rasto dos territórios coloniais portugueses. Faltava Macau. No início do romance, somos remetidos para um manuscrito escrito por Fátimo Martins agora na posse de uma cidadã chinesa, Siu Lin. Este romance escrito em homenagem a uma língua que, segundo o autor, vai diluir a sua importância à medida que o império desaparece, é A Cidade do Fim.

Cada capítulo, que começa por uma letra do alfabeto, de A a Z, vai-nos fazer viajar pela vida de Macau nos últimos 70 anos. Tudo começa quando Fátimo, no início dos anos 1940, chega ao território asiático para ser professor de liceu. Como sempre nos livros de Miguel Real, cada herói traz um lastro do muito que andou para ali chegar. Como aqui, para onde fugiu Fátimo: “Um sítio longínquo, onde ninguém o conhecesse e pudesse recomeçar a vida, a sua vida, a verdadeira vida, vida própria, não a de filho de operário, não a de afilhado de um casal francês rico, não a de perfeito de colégio, cortar com tudo, o passado de pobreza, a meia-irmã boçal, o Barreiro estupidificado, os colegas fascistas do colégio, os colegas ricos do curso que trabalhavam nas empresas de família, considerando um desprestígio ser professor de liceu. Fátimo foi o único concorrente com estágio para a disciplina de Português.”

Outras características próprias da narrativa de Miguel Real presentes neste romance são a constante remissão para a história de Portugal e das suas glórias, mas também o saber trazer à tona episódios pouco conhecidos, como acontece com as páginas em que descreve as dificuldades no território durante a Segunda Guerra Mundial, com o aumento do número de refugiados e a escassez de alimentos. O preço elevado foi pago para que o governo português conseguisse que o Japão respeitasse a neutralidade da cidade.

Há ainda uma piscadela de olho à cumplicidade que em Os Maias existe entre Carlos da Maia e João da Ega, na amizade devotada e de características didácticas existente entre o protagonista do romance e o professor de história e colega Herculano Noronha-Pereira.

Mas onde este livro se distingue como um passo adiante na obra de Miguel Real é no carregar de tintas eróticas que se espraiam desde a primeira vez que Fátimo avista Siu Lin, uma criança por quem se apaixona e que será amor de uma vida: “uma beleza angélica, pura, eterna, perfeita, formosa, pele alva cintilante, radiosa, dentes brancos evidentes, proeminentes, provocadores, cabelos, lisos e corridos, retintos, enfeitando uma testa breve e umas orelhas de madrepérola, Fátimo petrificara-se frente à beleza pura e virginal da menina, transtornada com o insistente olhar do estrangeiro.” Fechamos a citação porque os parágrafos de Miguel Real estendem-se por páginas, com um ritmo próprio e uma sonoridade de ladainha que prolonga o sabor das descrições. Só lidos de fio a pavio se pode entender a sua eficácia.

No final, conhecido o desenlace romanesco de um homem embrenhado e, por isso mesmo, perdido num território geográfico que a custo deixa que lhe chamem seu, mas também na sua própria condição de alma penada, fica a sensação de termos acompanhado uma jornada a caminho de um vazio que não podia terminar de outra forma.

Aí as histórias de Fátimo e dos últimos dias de um Macau Português correm paralelas, como a de uma linha de comboio construída ao lado de uma auto-estrada.

É quando se conclui que “Macau fora de facto um vazio.”

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