Crítica

M.I.A. mais livre do que nunca

Um dos nomes fundamentais da última década num álbum que recupera o balanço e a suavidade exótica dos seus primeiros anos

Desde que deu nas vistas há dez anos que a britânica Maya Arulpragasam, ou seja M.I.A., 38 anos, tem estado envolvida em polémicas. Umas vezes a controvérsia parece procurá-la, outras é ela que parece sentir-se confortável em assumir uma atitude de confronto. A sua essência é essa. Desde o primeiro momento que assumiu que música, estilo e política faziam parte do seu posicionamento artístico e não era agora que iria mudar.

Os dois primeiros álbuns (Arular de 2005 e Kala de 2007) ajudaram a criar a sua identidade, através de uma sonoridade singular feita de sobreposições inesperadas num contexto sincrético colorido, resgatando linguagens urbanas desacreditadas da invisibilidade (do dancehall jamaicano ao baile funk brasileiro). De alguma forma foi uma das primeiras artistas urbanas a perceber que existia um novo contexto pós-globalização, onde músicos amadores de diversos continentes recriavam linguagens ocidentais ajudando a criar todo um novo ambiente criativo.

O terceiro álbum, Maya (2010), era diferente. Havia canções dançantes e lúdicas como antes, mas também momentos de saturação e de catarse claustrofóbica. Tematicamente era um disco centrado nas convulsões da Internet - no facto de aquilo que é visto como sendo uma espaço de liberdade, ser cada vez mais controlado por multinacionais ou governos. Um tema profético, na ordem do dia, neste mundo pós-Edward Snowden.

Era um bom álbum, mas a sua recepção provocou divisões. Agora vamos encontrar M.I.A. mais serena. As celeumas não cessaram. Nem os posicionamentos políticos - e para o provar existiu até uma pequena colaboração numa canção com o fundador da WikiLeaks, Julian Assange, que abriu com uma mensagem via Skype um concerto seu em Nova Iorque. Mas dir-se-ia que M.I.A. percebeu que, faça o que fizer, a sua acção irá sempre ter várias leituras contraditórias e não há forma de se opor a isso. Acontece quase sempre assim quando celebridades pop tentam ajustar a sua condição à defesa dos oprimidos. Por norma são acusados - muitas vezes de forma simplista - de incoerência ideológica.

Este é menos um álbum reactivo e mais uma obra emancipada, sem agenda. Não tem naturalmente o travo de novidade sónico dos dois primeiros álbuns, mas recupera a suavidade exótica desses discos. É obra livre de compromissos, constituída por canções pop de balanço digital, com subgraves, climas exóticos e elementos deformados e resgatados a diversas linguagens dançantes (dancehall, hip-hop, kuduro, R&B), tudo encadeado de forma aparentemente caótica. Por cima, a sua voz adolescente.

Na sua companhia teve, como habitualmente, vários produtores (de Switch a The Weeknd) que acabaram por contribuir para a feitura de um álbum mais límpido e festivo do que o anterior, com batidas quebradas, linhas de baixo encorpadas, melodias que desembocam em caminhos inesperados e efeitos sonoros estranhos que nos obrigam a olhar para lá da superfície. Ou seja, tudo aquilo que faz parte da sua essência criativa desde o início. A única diferença é que aquilo que há dez anos nos aparecia como vagamente diferenciador, organiza hoje os nossos dias.