Portugueses estão mais solidários e preferem dar alimentos

Aumentou o número de pessoas que contribuem de forma regular com donativos para causas sociais, mas há menos a fazer voluntariado.

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As acções do Banco Alimentar são as mais conhecidas entre os inquiridos Enric Vives-Rubio

“As pessoas têm mais atenção no que diz respeito à solidariedade social. Ouvimos todos os dias nas notícias casos de pessoas que precisam de ajuda e cada um de nós conhece alguém que está em necessidade”, explica Luísa Villar, presidente da associação Link, responsável pelo estudo Solidariedade e a Responsabilidade Social em Portugal: Onde Estamos?, que foi apresentado nesta quarta-feira em Lisboa.

Contudo, apesar do aumento do número de pessoas que contribuem regularmente para acções de solidariedade, são também mais os inquiridos que afirmam não contribuir para qualquer causa solidária (eram 46% em 2010, contra 54% em 2013), dos quais fazem parte os indivíduos que já deram apoio a instituições ou ONG no passado e que agora deixaram de fazê-lo de forma regular e que aumentaram de 11% para 22%)

De acordo com os resultados, os portugueses preferem ajudar através do donativo de bens alimentares (74%), seguindo-se o voluntariado (35%), os donativos em peditório de rua (31%) e os donativos no momento do pagamento de compras (27%).

“Os portugueses ajudam se não lhes der trabalho”, refere Luísa Villar, para explicar o facto de a doação de bens alimentares ser a principal escolha dos inquiridos. “Se for comprar um pacote de arroz, compro dois e isso não custa nada”, acrescenta.

O mesmo argumento ajuda a explicar por que os donativos por transferência bancária não são comuns entre os inquiridos, representando apenas 12% das preferências. “Nos Estados Unidos, cada pessoa contribui para uma ou duas associações por transferência bancária todos os meses. Aqui, as pessoas não gostam disso, dá-lhes trabalho e não gostam de ajudar sempre a mesma instituição”, explica a presidente da Link.

Quem mais doa vive no Litoral Norte
No entanto, se a doação de bens alimentares aumentou, o mesmo não se pode dizer do voluntariado, que diminuiu sete pontos percentuais face a 2010 (de 42% para 35%). Quanto ao seu perfil, a maioria dos voluntários tem entre 18 e 24 anos e tem maior prevalência no interior do país. Quanto às pessoas que fazem donativos, têm maioritariamente entre 45 e 54 anos e concentram-se sobretudo no Litoral Norte do país, não existindo diferenças de comportamento entre homens e mulheres nos dois casos.

As crianças e os idosos são os grupos considerados prioritários para o apoio social por 76% dos inquiridos. Seguem-se os deficientes (54%), os doentes (51%) e os sem-abrigo (48%).

O estudo revela ainda que 81% das pessoas entendem que a realização de acções de causas sociais deveria ocorrer ao longo do ano e não apenas no Natal, o que representa um aumento face aos 70% em 2010. “As campanhas ao longo do ano funcionam se forem bem pensadas. As empresas é que só se lembram na altura do Natal”, refere Luísa Villar. A presidente da Link explica que, mesmo para o marketing das empresas envolvidas nestas campanhas, a concentração no Natal não é tão positiva, uma vez que “as pessoas nem se lembram de quem estão a ajudar”.

Quanto às acções de solidariedade social, o Banco Alimentar é a mais conhecida dos portugueses (32%), seguindo-se a campanha Arredonda, (com 7%). As marcas mais associadas a acções de carácter social são o Continente (25%), o Lidl (11%) e o Pingo Doce (9%).

Para Luísa Villar, ainda há muito caminho a percorrer. “Já entrámos no carro, mais ainda não arrancámos”, refere. “É necessário educar as crianças para a responsabilidade social”. E refere como exemplo o caso dos EUA, país no qual “as crianças começam a fazer serviço comunitário na escola e no liceu, têm tempo lectivo dedicado a isso e dá-lhes créditos para a sua avaliação”.

O estudo foi feito com base nas respostas de 1021 indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos, distribuídos proporcionalmente por todas as regiões de Portugal continental. Os inquéritos foram conduzidos entre 17 e 28 de Maio pela empresa GfK, através de entrevistas directas nas residências dos inquiridos.