Santa Casa vai investir um milhão de euros para recuperar Igreja da Conceição Velha

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai financiar a reabilitação da igreja, que é considerada uma das jóias manuelinas do património português. Um investimento “invulgar”, diz Santana Lopes.

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Interior da igreja reconstruída depois do terramoto de 1755 Miguel Manso

A Igreja da Conceição Velha, uma jóia manuelina escondida na Rua da Alfândega, em Lisboa, está prestes a ganhar uma nova vida, depois de a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ter anunciado ontem o investimento de 1,1 milhões de euros na sua reabilitação. As obras de restauro vão avançar já no início de 2014 e, se tudo correr como planeado, no dia 8 de Dezembro desse ano abre portas a “nova” igreja.

É um dos maiores investimentos feitos pela Santa Casa no que à recuperação do património diz respeito. Mas como Pedro Santana Lopes, provedor da instituição, disse ontem na cerimónia, que teve direito a missa, e onde foi assinado o protocolo por si e pelo reitor da igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, o padre Mário Rui Leal Pedras, o edifício há muito tempo que estava a precisar de uma grande intervenção estrutural.

“Num tempo da nossa história em que há notícias recorrentes de que o património nacional se está a deteriorar por força da situação que atravessamos e da falta de afectação de fundos, a Santa Casa quer intervir para salvaguardar a memória deste edifício”, disse Santana Lopes, lembrando depois as ligações históricas da instituição à Igreja da Conceição Velha, classificada como monumento nacional em 1910.

Sede da Santa Casa em 1534

Foi aqui, nesta igreja, que surpreende quem passa na rua com a sua majestosa fachada mas que desilude quem nela entra com as suas paredes cinzentas que pouco têm para mostrar, que se instalou a primeira sede da Santa Casa. Foi em 1534 e durante dois séculos. Até ao trágico terramoto de 1755 que destruiu grande parte do edifício. A sede da Santa Casa mudou então de local, assim como mudou depois o traço único da igreja, reedificada em 1770 pelo arquitecto pombalino Francisco António Ferreira (com colaboração de Honorato José Correia).

Do estilo manuelino ficou apenas a fachada, que na época era uma porta lateral. Mas é o suficiente para esta igreja ser considerada o segundo maior templo da Lisboa manuelina, que tem o seu maior símbolo no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém.

“É uma obra com muito significado para a Santa Casa”, disse aos jornalistas Santana Lopes, para quem a recuperação da igreja é prioritária. “Por isso mesmo as obras vão arrancar já no início do ano”, explicou o provedor, que não deixou de considerar o investimento “invulgar pela sua dimensão”. “[Mas] vem ao encontro da aposta estratégica que entendemos fazer no apoio à preservação do nosso património próprio e também do património artístico que existe de norte a sul do país”, continuou Santana Lopes, considerando a Igreja da Conceição Velha como património da Santa Casa. “Não nos está entregue mas é a nossa história e mal das instituições que esquecem a sua história.”

Como contrapartida pedida pela Santa Casa para o investimento, a paróquia ficará responsável pela criação de um novo Polo Cultural de Arte Sacra em Lisboa, que funcionará em rede com a colecção do Museu de São Roque. Neste novo espaço vão ficar ainda em exposição o tesouro da igreja, bem como outras peças vindas das igrejas de Santa Maria Madalena e de São Nicolau.

Para o padre Mário Rui Leal Pedras há muito tempo que esta igreja merecia uma intervenção desta dimensão, que vai permitir ainda à paróquia reforçar a sua função assistencial aos mais desfavorecidos. É por isso que, quando questionado sobre a opção de investir 1,1 milhões de euros nesta obra numa altura em que o país atravessa uma grande crise económica e social, Santana Lopes garantiu estar seguro da opção, que foi tomada “em respeito pelas nossas obrigações”. “No compromisso da Santa Casa estão as obras materiais e as obras espirituais, esta é uma obra espiritual e material porque aqui muitas pessoas são apoiadas e ajudadas”, defendeu o provedor.

Aposta no turismo

Segundo Santana Lopes, o orçamento da Santa Casa é de cerca de 200 milhões de euros e o investimento desta obra “representa o esforço que traduz exactamente o seu valor”. “Temos a obrigação de a manter [à igreja]”, defendeu o provedor. “No ano passado fizemos uma campanha publicitária a propósito dos jogos sociais em que dizíamos que “Há mais em jogo” e no “Há mais em jogo” da Santa Casa está o seu património."

O padre Mário Rui Leal Pedras assinalou ainda a localização da igreja, “a 100 metros do porto de Lisboa”, lembrando que o turismo religioso “cresceu exponencialmente”, sendo preciso tirar proveito da situação. “Temos o dever de transmitir às novas gerações e a todos os que nos procuram a nossa riqueza patrimonial, o génio dos nossos artistas”, disse o pároco na cerimónia, apontando para Dezembro do próximo ano o fim dos trabalhos, que serão feitos em duas fases: a primeira fase será dedicada ao exterior e a segunda ao interior do monumento. E se tudo correr como planeado, no dia 8 de Dezembro de 2014, dia de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja da Conceição Velha abrirá portas com o esplendor há tanto tempo imaginado.