Roberto Schmidt/AFP
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Megafone

A felicidade está ao virar da esquina: a falácia

Vejo a felicidade mais como de geração espontânea que surpreende a meio do dia sob a forma de uma música, de uma árvore outoniça ou de ambas vindas do nada

Convencemo-nos quantas forem as vezes precisas de que a felicidade vem depois do virar da esquina na congosta da amargura. Esperamo-la depois de terminado o curso, depois de um trabalho e salário decentes, depois do casamento, depois da doença e, por fim, depois da morte. E já fomos virando tantas esquinas que o movimento de dobrar mais uma é tão automatizado que deixa de custar e a desilusão já se confunde com o nosso modo de estar e o de ser da vida: "É a vida!", diz-se.

Falar sobre um tema tão delicado quanto este obriga-me muitas vezes a ser cuidadoso com as palavras porque o embalo na desilusão pode ser tão grande que sou logo acusado de ser um teórico ou irrealista (isto numa versão mais suave). Acresce que se confunde com facilidade a felicidade do momento presente com a inércia e conformação com o estado das coisas. Permite-me discordar ou, pelo menos, virar a meia ao contrário. Quem está mais incapacitado: o feliz que olha o mundo objectivamente e percebe onde há trabalho para fazer? Ou o embalado que filtra o mundo como mais lhe convém e desespera em queixumes? Julgo que o feliz é inconformado sem deixar de ser feliz e o que vive de lamentos direcciona ímpetos de forma ineficaz.

Os argumentos falaciosos têm validade psicológica e emocional, mas não há ponta de validade lógica em ser-se desligado do presente grande parte da vida. Não quero com isto dizer que a felicidade seja como uma máquina de movimento perpétuo e que um empurrão único sirva para gerar um rio de felicidade "ad eternum". Vejo-a mais como de geração espontânea que surpreende a meio do dia sob a forma de uma música, de uma árvore outoniça ou de ambas vindas do nada.

A propriedade mais interessante e generosa da felicidade é que ela não se gasta com os outros. Tal como a chama da vela não perde o brilho se acende outro pavio, também a felicidade contagia sem desbotar. Façamos por ser felizes ou deixemos que a felicidade apareça do nada, o que importa é que estejamos atentos ao filme que se vai desenrolando.