Oceanos estão mais quentes, mais ácidos e com menos oxigénio

Painel de cientistas alerta para "trio mortífero" e reitera apelos para conter aquecimento global.

Aquecimento e acidificação ameaçam flora e fauna marinha, dizem os cientistas
Aquecimento e acidificação ameaçam flora e fauna marinha, dizem os cientistas Reuters
Investigadores trabalham no Oceano Ártico para tentar descobrir reservas de fitoplâncton, base da cadeia alimentar dos animais marinhos
Investigadores trabalham no Oceano Ártico para tentar descobrir reservas de fitoplâncton, base da cadeia alimentar dos animais marinhos Kathryn Hansen/NASA/Reuters
Proliferação de algas na linha costeira de Qingdao, na China
Proliferação de algas na linha costeira de Qingdao, na China China Daily/Reuters
Tubarão-martelo nos Galápagos, património mundial da UNESCO
Tubarão-martelo nos Galápagos, património mundial da UNESCO Jorge Silva/Reuters
Oceano Ártico
Oceano Ártico Michael Studinger/NASA/Reuters
Recife de coral no Egipto
Recife de coral no Egipto Asmaa WaguihReuters
Derrame de petróleo no Golfo do México
Derrame de petróleo no Golfo do México Sean Gardner/Reuters
Tubarão-baleia no Oceano Índico
Tubarão-baleia no Oceano Índico Kurt Amsler/Reuters
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Os oceanos estão cada vez mais quentes, mais ácidos e com menos oxigénio. Este “trio mortífero”, segundo classifica um painel de cientistas internacionais, está a ter “efeitos dramáticos” sobre a fauna e flora marinha, além de exacerbar outras ameaças, como a poluição.

Esta é uma das mensagens da mais recente avaliação do Programa Internacional sobre o Estado dos Oceanos, uma iniciativa criada por investigadores da Universidade de Oxford, com o apoio da União Internacional para a Conservação da Natureza. Outras mensagens: a sobrepesca está a ameaçar a capacidade dos oceanos em resistirem a outras ameaças; os recifes de coral não são capazes de se adaptar às rápidas mudanças climáticas em curso; o futuro dos oceanos estará seriamente comprometido se não se limitar o aumento da temperatura global a 2,0 graus Celsius até ao final do século.

A temperatura superficial dos oceanos aumentou 0,6 graus Celsius nos últimos 100 anos e continuará a subir ao longo deste século, com consequências significativas: redução do gelo, com desaparecimento da calota polar no Árctico até 2037, redução da concentração de oxigénio, libertação de metano do fundo do mar.

Com oceanos mais quentes, refere o painel de cientistas, as espécies marinhas tenderão a migrar na direcção dos pólos e para águas mais profundas, a diversidade de peixes e invertebrados hoje explorados pode diminuir 60% e os recifes de coral tropicais sofrerão uma redução colossal até 2050.

Acificação da água e sobrepesca

“Como foi tornado claro pelo IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas], os oceanos estão a suportar o fardo do aquecimento do sistema climático, com consequências físicas e biogeoquímicas directas e bem documentadas”, diz o Programa para o Estado dos Oceanos, na síntese da sua avaliação.

Um destes efeitos é a acidificação da água do mar, devido à absorção do excesso dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, devido às actividades humanas.

Outro problema é o da redução dos níveis de oxigénio. “As previsões para a quantidade de oxigénio nos oceanos sugerem uma redução de 1% a 7% até 2100”, sintetiza o painel científico. As causas são o aquecimento global e a poluição.

Os cientistas alertam também para a sobrepesca, com 70% da população de peixes a ser explorada de modo insustentável, segundo dados da agência das Nações Unidas para a alimentação e agricultura (FAO, na sigla em inglês).

“A saúde dos oceanos está a piorar mais rapidamente do que se pensava”, alerta o investigador Alex Rogers, do Somerville College, da Universidade de Oxford, e um dos criadores do Programa Internacional para o Estado dos Oceanos. “Esta situação deveria ser motivo de grave preocupação para todos, dado que todos serão afectados pelas alterações na capacidade dos oceanos em suportar a vida na Terra”, completa, num comunicado.

Reiterando uma meta internacionalmente reconhecida, os cientistas afirmam que é preciso reduzir as emissões de CO2 de modo a que a concentração deste gás na atmosfera fique abaixo de 450 partes por milhão (ppm), limitando a probabilidade da temperatura média global subir mais de 2,0 graus acima dos níveis pré-industriais. “Se os actuais níveis de libertação de CO2 se mantiverem, podemos esperar consequências extremamente sérias para a vida nos oceanos, e para a protecção alimentar e costeira”, alertam.

Esta avaliação surge dias depois do IPCC ter divulgado o seu mais recente relatório sobre as alterações climáticas, que reitera o seu carácter “inequívoco” e reforça que a maior parte do problema deve-se às actividades humanas.