Crítica

Isto é o Fim!

Vários nomes da “nova comédia americana”, encabeçados por Seth Rogen e Jay Baruchel e coadjuvados por uma série d vedetas não necessariamente originárias desse meio (o omnipresente James Franco, a harrypotteriana Emma Watson, a cantora Rhianna), são apanhados pelo fim do mundo, pleno de labaredas e buracos enormes no solo, em plena desbunda hollywoodiana, plena de coca, erva e bebidas alcoólicas. Particularidade: todos eles desempenham as suas próprias personagens, num exercício permanente de auto-depreciação e auto-caricatura. Não é o huis clos de Sartre, mas talvez este pessoal tenha tido ultimamente algum choque frontal com os clássicos do existencialismo. São bons, são maus?, estão condenados a perecer com a Terra ou merecem ser salvos e um lugar no Céu? Isolados numa mansão algures num bairro chique de Los Angeles, enquanto à volta tudo arde, essa é a questão para as personagens. Entre a crítica americana alguém notou que isto pode não passar de um grupo de cómicos judeus a divertir-se com mitologias cristãs, e particularmente com algumas das suas modernas declinações americanas (a “rapture”, que salvará os justos do apocalipse e deixará os outros “para trás”). Sê-lo-á, mas é um pouco mais do que só isso. É um clímax, perfeitamente auto-consciente, e em grande medida auto-crítico (a vacuidade das “estrelas”, que é o que Franco lá está a representar), daquela eternização da adolescência que tem sido a trave-mestra do humor de todos os intérpretes desta geração de cómicos americanos: mesmo em face da ameaça de extinção, continuam obcecados com as coisas de sempre, “gajas”, drogas, masturbação. Isto é o Fim! mistura aridez narrativa, porque pouco se passa, e escatologia, em todos os sentidos do termo, e é uma mistura que primeiro se estranha e depois se entranha (um bocadinho). O que nele falha é não se conseguir ver livre de outro elemento fundamental neste geração: uma enorme queda para a auto-complacência. Teríamos gostado de os ver a deixarem de achar piada uns aos outros e a si próprios, a tornarem o filme um lugar infrequentável para o espectador, que no entanto é sempre trazido pela trela. A dar o salto para a regressão civilizacional absoluta, a ser uma espécie de “remake” do Anjo Exterminador de Buñuel. Às vezes o filme parece apontar para aí, mas fica bem longe de o ser - há sempre um golpe de rins, e os Backstreet Boys. Em todo o caso, a porção de angústia que se toma como “real” torna o filme intrigante. “Oh mamã, será isto mesmo o fim?”. Resposta nos próximos capítulos da “nova comédia americana”.

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