Adriano Miranda
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Adriano Miranda

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Desemprego: muito mais que estatísticas

Isto do desemprego tem muito que se lhe diga e se custa não ter quem se empenhe em dar formação, muito mais deve custar ser-se dispensado, despedido, demitido das funções que muitas vezes levaram consigo os anos áureos da juventude

Terminei a minha licenciatura em 2011 crente de que “isso” do desemprego só acontece aos outros. Terminei-a com uma média razoável e nos três anos da sua duração, em suma, tinha em mim “todos os sonhos do mundo”. Mas isso não aconteceu e em pouco tempo vi-me a ser parte de todas as estatísticas: recém-licenciada, com menos de 30 anos e desempregada.

Inscrevi-me então no Centro de Emprego da minha área de residência, esse local mágico, qual Meca dos desempregados, que com cartazes motivacionais com fotografias de pessoas felizes nos promete a única coisa que em Portugal ninguém encontra: emprego. Fiquei inscrita como “licenciada à procura do primeiro emprego”. Aceitei bem esta designação pois emprego, de facto, nunca tive nenhum pois até à data eu só trabalhei, pelo que a ideia de experimentar algo que comporte um contrato e não recibos verdes, um horário fixo e não um “trabalhas enquanto fores precisa” e um ordenado com descontos para a Segurança Social e não um “pagamento por horas trabalhadas” soou-me deveras aliciante.

As cartas de chamada às apresentações mensais (uma espécie de termo de identidade e residência para desempregados) iam-me aparecendo na caixa do correio, tal como as chamadas a entrevistas de emprego. O dia de ir a uma entrevista era em tudo semelhante a uma festa ao domingo: roupa aprumada, sorriso sempre bem posto e a confiança de que seria eu a vencedora do cabaz que estavam a rifar. Em nenhuma fiquei por causa da lengalenga do “não tem experiência mas também não vou ser eu a dar-lha” e o resultado era quase sempre uma entrevista envergonhada de quem já não sabia muito bem como havia de dizer mais um não.

Um dia fui chamada para frequentar um curso de alemão de três meses através do centro de emprego. Apresentou-se ali a oportunidade de colocar algo mais no meu currículo, ignorando na totalidade o facto de que Alemão não se aprende em três anos, muito menos, em três meses. Esperava de tudo, só não esperava uma sala cheia de engenheiros, psicólogos, arquitectos, um físico nuclear, administrativos e isso doeu-me, pois foi a materialização da expressão “um canudo já não chega”. Ao fim de pouco tempo era evidente a função do curso: por muito boa vontade que a professora tivesse, por muito bem-intencionada que fosse a nossa tentativa de falar alemão, a verdadeira razão para estarmos ali era só uma: a de ganharmos uma rotina, já que tínhamos horários, metas, obrigações e até assinámos um contrato, ou seja, por três meses estivemos todos empregados.

Isto do desemprego tem muito que se lhe diga e se custa não ter quem se empenhe em dar formação, já que ensinado ninguém nasce, muito mais deve custar ser-se dispensado, despedido, demitido das funções que muitas vezes levaram consigo os anos áureos duma juventude que já não volta. Agora, e até que me provem o contrário, talvez, seja melhor emigrar.