Soldadinhos de hoje em dia

Talvez queiramos abrir a boca e dizer que o está errado não é o facto de termos um trabalho de que nos podemos pontualmente queixar mas sim o facto de nem todos o poderem ter. Mas talvez não o digamos com receio de parecermos ingratos

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Scott Barron/Flickr

Passam-se os dias. Assim, um atrás do outro. Quantos dias em que mal vemos o sol. Acordamos cedo, levantando-nos quase sem pensar da cama que (sentimos) mal tivemos tempo de aquecer.

A leitura de casa de banho passou a ser digital, quase sempre com um remetente e destinatário em que o @ tem lugar. Saímos da cama já a trabalhar, atualizando-nos com correspondência que, parecemos acreditar, fugirá se a demora na leitura e resposta for maior.

Tomamos um duche rápido em que a cantoria é substituída pela repetição quase exaustiva de algo como “tem de ser”, como “tenho de dar mais”, algo capaz de nos motivar, de nos ativar realmente. Mordemos qualquer coisa a caminho do trabalho, enquanto que com uma mão nos agarramos, esquivando-nos ao contacto físico com o vizinho do lado. Às costas uma mochila pesada, como se ao levarmos connosco todos os dossiês e o computador portátil nos tornássemos pessoas mais produtivas. Uma mochila pesada a puxar mais para trás, mais para cima, a camisa e a gravata – e o nó desta a apertar mais o outro, o que não se vê. Sentamo-nos em cubículos com cadeiras já adaptadas ao nosso sentar e ficamos durante horas. Fazemos o nosso trabalho e fazemos o outro, que daria lugar a mais dois ou três. Os olhos muitas vezes já vermelhos. Comemos em frente ao computador porque – dizem os estudos – isso contribui para aumentar a produtividade.

E depois, quando o sol já se tiver ido, sairemos porta fora dentro destes fatos inteiros, com as mochilas às costas e cruzar-nos-emos com tantos outros como nós, soldadinhos de hoje em dia. Os "phones" sempre nos ouvidos para nos mantermos isolados neste mundo que é só nosso e nos dedos sempre o telemovel — para cima, para baixo, agora um "comment" ou um "like" só para recordar que ainda temos amigos. De vez em quando — só muito de vez em quando — talvez consigamos encontrar um tempinho para nos encontrarmos todos, para nos sentarmos à volta de uma mesa de copo numa mão e telemóvel quase sempre na outra, recordando os tempos passados e atualizando a vida social com os que não estão presentes — mas assim, tudo ao mesmo tempo, que se há coisa em que não somos bons é em estar por completo num sítio só.

Quando a família nos arrasta para um evento demorado talvez ganhemos então alguma coragem para nos expressarmos sobre a vida que levamos (ou que sentimos levar-nos a nós) e aí a resposta será certamente um “ao menos tens trabalho” que nos deixa sem resposta. Talvez queiramos abrir a boca e dizer que o está errado não é o facto de termos um trabalho de que nos podemos pontualmente queixar mas sim o facto de nem todos o poderem ter. Mas talvez não o digamos com receio de parecermos ingratos.