Crítica

Brisas de Verão

Há tantas razões para defender "Viagem a Tóquio" como o melhor filme de sempre como para dizer o mesmo de "O Gosto do Saké": duas obras-primas de Ozu finalmente com estreia comercial em Portugal.

Tecnicamente trata-se mesmo de uma estreia, porque são dois filmes que nunca tinham chegado ao circuito comercial português. E que filmes são, dois dos mais belos alguma vez feitos em qualquer parte do mundo, e para muitos as duas máximas expressões do sereníssimo génio de Yasujiro Ozu, reputação que no caso de Viagem a Tóquio pode ser facilmente aferida pela circunstância de, na mais recente (de 2012) sondagem da Sight & Sound para apurar os “melhores filmes de sempre”, ter ficado classificado em terceiro lugar na “lista dos críticos” e em primeiro lugar na “lista dos realizadores”. Na verdade, há tantas razões para defender Viagem a Tóquio como o maior filme de sempre como para dizer o mesmo de O Gosto do Saké (que foi o derradeiro Ozu), ou ainda de uma boa dezena de títulos, pelo menos, da filmografia do mestre japonês. Ozu foi um dos maiores entre os maiores, e se dizer isto se arrisca a ser mera pregação aos convertidos é aos outros, a todos aqueles (e com sorte serão em número razoável) que aproveitarão esta ocasião para verem o seu primeiro Ozu, que nos dirigimos.


Realizados com nove anos de intervalo - Viagem a Tóquio é de 1953 e O Gosto do Saké de 1962 -, há tanta coisa a uni-los como a separá-los. Viagem a Tóquio, realizado apenas oito anos após o final da Segunda Guerra Mundial, com fotografia a preto e branco, mostra-nos um Japão em reconstrução, “material” (quase todos os planos de “pontuação” sinalizam uma Tóquio em obras) mas também “social”, onde os filhos já não são nem sentem como os pais são e sentem. Em O Gosto do Saké, filmado nas maravilhosas cores do Agfacolor tal como interpretadas pelo genial operador Yuharu Atsuta (um dos vários “colaboradores permanentes” de Ozu, que também fotografou a Viagem), tudo indica que o “milagre” da recuperação económica já se completou, e Tóquio tem definitivamente a cara lavada, iluminada, à noite, por dezenas de néons brilhantes e coloridos. Esta transformação foi, a partir do pós-guerra, um tema dominante dos filmes de Ozu, mas nunca de uma maneira declarada, nunca de uma maneira trazida ostensivamente para o primeiro plano, antes como uma cortina perante a qual se recortam as histórias e as personagens. O que é uma das coisas que fazem a força de Ozu, e em particular do seu “período colorido”, os seis filmes finais de que O Gosto do Saké é o “clímax”, todos eles variações quase minimais sobre os mesmos temas e elementos, a tal ponto que tendem a confundir-se na memória de quem os viu, como se fossem um só longo filme. Nesse aspecto, Viagem a Tóquio talvez seja um filme mais facilmente distinguível, porque independentemente da perfeição (em Ozu, como no céu, tudo é perfeito...), em primeiro lugar dramatúrgica, que o cineasta alcançou, é um filme que isola, com a simplicidade de um risco firme feito a carvão (é a metáfora cromática ideal), uma situação essencial: a “falha geracional” entre aqueles (os pais) que viveram a juventude antes da guerra e aqueles (os filhos) que são os jovens adultos do pós-guerra. É mais isto do que a oposição campo/cidade, embora também ela seja reveladora - os pais vêm do campo, os filhos vivem na cidade, é o ambiente urbano consagrado como força motriz da modernidade e da ruptura com a tradição. E, depois, os pais sentem-se fora de água, desconfortáveis, e os filhos também com os pais em casa, não têm tempo, nem sobretudo ritmo para eles, e todo o filme se desenvolve sobre este desentendimento fundamental, sempre tratado com uma doçura inacreditável, um amor enorme por tudo e por toda a gente, que não impedem que se chegue (cheguem, as personagens) às conclusões mais cruéis, e que as verbalizem umas à outras, sem que isso alguma vez pareça exercício de crueldade, antes a descoberta de “verdades universais” que é forçoso aceitar, para mais quando (isto é o Japão) verificadas dentro dum omnipresente sentido da “forma” e do “formalismo” sociais. No fim, numa sequência de planos estarrecedora, é com o velho Chishu Ryu que a câmara de Ozu fica.

E o velho Chishu Ryu, actor-chave de Ozu, volta em O Gosto de Saké. Um velho diferente, urbano, apreciador da bebida (bebe-se mais num só filme de Ozu do que em todo o Cassavetes), viúvo há mais tempo, com filhos em idade “casadoura”. E de maneira diferente da da Viagem, mas semelhante à de praticamente todos os filmes desses anos finais de Ozu (que, nascido em 1903, tinha mais ou menos a idade dos seus protagonistas), tudo decorre entre pais e filhos, entre as reuniões masculinas, cheias de cerveja e saké, onde se cantam canções e se evocam os velhos tempos, e as preocupações dos e com os filhos, que querem casar e não conseguem, ou não querem casar e também não conseguem. Mas o ponto de vista é, definitivamente, o dos mais velhos, e O Gosto do Saké, no que tem de mais bonito, é essa aprendizagem da “velhice” no que tem de mais amargo e simultaneamente mais doce - o “gosto do saké”, de certa maneira não apenas simbólica. O plano final - o derradeiro plano de Ozu - é outra vez uma coisa fabulosa, ficamos sem saber se abandonar a sala em lágrimas ou sair para a rua com um sorriso nos lábios. Em todo o caso, uma óptima sensação.