Detidos 42 incendiários desde o início do ano

PJ deteve mais quatro homens nas últimas horas.

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Rafael Marchante/Reuters

Um dos suspeitos, um agricultor de 66 anos, foi detido em Vila Nova de Foz Côa, por ser o presumível autor do crime de incêndio florestal, ocorrido no dia 23 deste mês, em Freixo de Numão.

O comunicado da PJ adianta ainda que lhe foram “apreendidas um largo número de munições para utilização em arma de fogo”.

Um outro homem de 31 anos, trabalhador agrícola, foi detido em Baião, por suspeita de ter ateado um incêndio no sábado.

Um servente reformado por invalidez, de 42 anos, foi também detido no concelho de Cinfães, igualmente por suspeita de ter ateado um fogo no sábado, que destruiu mais de 100 hectares de floresta.

A PJ deteve também um homem de 40 anos, desempregado, suspeito de ter ateado dois incêndios no Lugar de Portela, Freguesia de Pretarouca, em Lamego.

Este suspeito ficou em prisão preventiva, enquanto os outros três vão ser presentes a tribunal, para a aplicação de eventuais medidas de coacção.

Estes novos casos reforçam o perfil de incendiário que tem sido divulgado pelas autoridades judiciais. Dos 42 detidos pela PJ, apenas dois são mulheres, informou na semana passada Almeida Rodrigues, director nacional daquela polícia.

Questionado sobre o perfil habitual do incendiário, o mesmo responsável disse que se trata de alguém desempregado, ou de um trabalhador precário, “solteiro ou com situação familiar disfuncional e por vezes com hábitos de alcoolismo”.

Três perfis de incendiário
Os problemas psicológicos estão na origem da maioria dos casos de fogo posto em Portugal, defende Cristina Soeiro, do Instituto Superior da Polícia Judiciária, que há década e meia estuda o fenómeno.

A investigadora traça três perfis distintos: aqueles que ateiam o fogo por vingança, como forma radical de resolver um conflito que têm com o proprietário de um terreno, e que não sofrem habitualmente de distúrbios mentais; os casos clínicos, em que se enquadram, aqui sim, os portadores de défices cognitivos e a piromania, no caso dos homens, e, no que respeita às mulheres, as depressões profundas; por fim, surgem as situações em que na origem do comportamento criminoso está a obtenção de um qualquer proveito, como o caso do pastor que queria abrir caminho para o gado poder passar.

A especialista explica que o segundo perfil, que abrange as demências alcoólicas, é o mais frequente. Muitos destes incendiários são solteiros e desempregados. Raros são quer os casos das pessoas que ateiam fogo compulsivamente só pelo prazer de ver as chamas, os pirómanos.

No primeiro tipo de perfil, em que encaixam indivíduos com poucas competências sociais, a psicóloga entende que a pena de prestação de trabalho à comunidade é, por vezes, mais eficaz do que a cadeia quando não existe um histórico de criminalidade violenta.

Já nos perfis patológicos, o tratamento clínico é essencial. Os mais recentes estudos da Judiciária apontam para uma taxa de reincidência neste tipo de crime, pouco cometido por mulheres, da ordem dos 18%. Seja como for, só cerca de 20% dos incêndios resultam de fogo posto, sendo os restantes atribuíveis a causas naturais ou negligência.

As estatísticas do Ministério da Justiça dos últimos anos mostram uma redução significativa dos reclusos a cumprir pena por esta razão: de 88 detidos, em 2005, passou-se para 27, no ano passado. Mais de 170 arguidos foram condenados por incêndio florestal entre 2008 e 2010, mas apenas sete cumpriram prisão. Em nenhum dos casos as penas foram substituídas por trabalho a favor da comunidade: na maioria das vezes, os juízes aplicaram multas. "Não tive culpa, foi o vento", já ouviu Cristina Soeiro dizer mais do que uma vez a indivíduos que queriam queimar o terreno do vizinho, mas acabaram por devastar muitos quilómetros em redor.

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