Pedalar ao ritmo de Agostinho

Joaquim Agostinho foi vítima de várias quedas durante a carreira, uma das quais motivou a sua morte. No Tour, também foi ao chão algumas vezes.

Joaquim Agostinho no Tour
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Joaquim Agostinho no Tour DR

Yffiniac. O nome pode não lhe dizer nada, mas poucos serão os franceses adeptos de ciclismo que não reconhecem a palavra. Aí nasceu um dos seus maiores campeões, Bernard Hinault, o homem que, em 1978, tinha vestido a primeira de cinco amarelas em Paris. A 16 quilómetros de Yffiniac, outro nome ficaria registado na memória.

O pelotão passava em Moncontour, pequena vila na Bretanha, quando a “tragédia” aconteceu. Numa curva à esquerda, um triângulo direccional num cruzamento surpreende os corredores. Sem qualquer sinalização, o obstáculo de cimento é contornado por uns, que se desviam. Outros não o vêm a tempo e caem desamparados. Agostinho é um deles.

“Foi o inferno. Eu ainda evitei o murozinho de cimento do triângulo, mas uns italianos não. Caíram em cima de mim, fui bater com a perna esquerda no passeio, cortei um dedo, nem sei que mais. Na altura fiquei com a sensação de ter partido a perna. Levantei-me, como me pareceu que conseguia pedalar, montei e fui. Sofri de morte. Nunca, com as quedas todas que dei, senti tantas dores”.

E, de facto, Agostinho caiu muitas vezes. Um ano antes fez 70 quilómetros a perder sangue na sequência de uma queda na terceira etapa. Em 1978, o percurso é mais curto, o sofrimento mais intenso. Percorre seis quilómetros até à meta, com o sangue a escorrer-lhe para a bicicleta. Perde 47 segundos para o pelotão. Imediatamente assistido, tem de ser amparado. A perna está o dobro.

É tratado pelo médico da corrida. A perna é envolta, toma analgésicos e anti-inflamatórios. A aflição mantém-se. Entre a equipa reina a incerteza. Joseph Huysmans, seu director desportivo na Flandria, decide procurar o doutor Miseret, um dos especialistas belgas em traumatologia, que tinha cuidado do “Canibal” Eddy Merckx, e que, por coincidência, estava em Saint-Brieuc. Depois de perguntar nuns quantos cafés da vila, finalmente encontra-o. Conduz o “curandeiro” até ao quarto onde Agostinho repousa, saco de gelo na perna, cara de sofrimento. A madrugada estava apenas a começar e a noite adivinhava-se longa. O especialista aconselha repouso, retira-lhe o gelo, opta por uma infiltração e manda-o dormir.

Amanhece. Na partida de Saint-Hilaire du Harcouet, os colegas de pelotão, ao vê-lo, apressam-se a inteirar-se do seu estado. Agostinho, o azarado, que soma quedas como quem soma triunfos, é o centro das atenções. A perna, inchada, é alvo de curiosidade. Quem a vê não percebe como o português pode continuar em prova. Milagre ou teimosia? Talvez apenas sorte, com uma pequena grande dose de determinação e de tolerância à dor. E a inspiração dos sonhos. “Passei a noite toda a sonhar que andava de bicicleta e só dizia: “Vejam bem, tão mal que eu estava e fiquei tão bom num instante”. Era só desejo”.

Mas os sonhos têm um final anunciado e ao despertar as dores permanecem, tão fortes quanto se lembrava. Quando se dirige para o início da etapa, agravam-se. “Nem sequer consigo subir para a bicicleta”, diz a quem o quer ouvir, numa citação apresentada no livro “Joaquim Agostinho, Uma lenda do centenário”.

Pela primeira vez, pensa em desistir do Tour. Em desespero, lembra-se de uma solução: alguém que encontre o especialista de Merckx. Ele sim, saberá o que fazer à dor agonizante que sente. Partem à procura do doutor Miseret. Encontrado o alvo, levam-no ao pobre ciclista, que chora de tanta dor. O "curandeiro" encaminha-o até a uma ambulância, fecha a porta atrás de si. Cá fora aumenta a expectativa. Ninguém sabe o que se passou, o que continha a injecção dada a “Ago”, mas este regressa à bicicleta e prepara-se para partir.

Na Flandria reza-se por uma etapa tranquila, sem grandes acelerações, que permita ao português continuar na prova. Mas os deuses estavam do seu lado. Ou melhor, o deus Bernard Hinault, que ordena ao pelotão que pedale à velocidade que Agostinho conseguisse correr. “Era um grande corredor, muito combativo, um verdadeiro guerreiro. Corri contra ele durante alguns anos e foi sempre um prazer ter um adversário como ele”, explicaria mais tarde o francês.

Na meta, depois de uma etapa feita quase só com uma perna – o joelho não dobrava e Agostinho nem tentava – perde um único segundo para Hinault e Joop Zoetemelk. No dia seguinte há um contra-relógio por equipas. O português receia não terminar. Nada a temer. Mesmo só com uma perna, foi o melhor da sua equipa. Dias depois, subia ao pódio em Paris para celebrar o seu segundo terceiro lugar consecutivo.



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