José Miguel Júdice: “Precisávamos de acabar com estes partidos”

Numa entrevista ao Jornal de Negócios, o advogado diz que Passos Coelho e António José Seguro "são a mesma pessoa" e caracteriza Paulo Portas como "histérico". Falta uma revolução para mudar o país, defende.

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Júdice é advogado e foi militante do PSD, tendo depois saído e apoiado o PS na candidatura a Lisboa Nuno Ferreira Santos/Arquivo

Um golpe de estado, uma revolução, enfim, uma ruptura. É disto que Portugal precisa para mudar o sistema político e instituir o presidencialismo, “a única solução” para os problemas do país, defende o advogado José Miguel Júdice, em entrevista ao Jornal de Negócios.

“Precisávamos de acabar com estes partidos”, afirma Júdice, numa entrevista de seis páginas publicada na edição desta sexta-feira daquele jornal, na qual afirma sem pudor o que pensa sobre actuais líderes políticos e até sobre os que já deixaram o poder.

“O Pedro Passos Coelho e o António José Seguro são a mesma pessoa. São amigos, tratam-se por tu. Depois atacam-se em público como se fossem os maiores inimigos”, declara. Passos “tem tido coragem”, mas não chega. "Um Governo tem que ter no primeiro-ministro o melhor deles todos", afirma, sugerindo que quem aceitar ser ministro de Passos Coelho vai olhá-lo "de cima para baixo". Seguro, por seu lado, “é um maçador” e "obsessivo". Sobre Paulo Portas, diz que é “um político profissional”, “um homem implacável” sem amigos nem aliados. É ao mesmo tempo “emocional” e “histérico”, considera.

O ex-militante do PSD, partido do qual se desfiliou para depois apoiar a lista do PS à Câmara de Lisboa em 2007, não tem melhor opinião sobre Cavaco Silva, a quem nunca reconheceu “coragem”. “Cavaco podia ter feito todas as reformas e não fez praticamente nenhuma”, afirma Júdice, referindo-se ao período em que Cavaco foi primeiro-ministro. E agora que “o país está sequioso” de uma ruptura, o Presidente “não é capaz de [a] fazer”, critica.

Questionado sobre que políticos tiveram coragem em Portugal, nomeia três: Mário Soares, Sá Carneiro e José Sócrates. Actualmente, “não há ninguém (…) que tenha poder”, à excepção da troika, ou melhor, de Angela Merkel, observa.

A solução para o país passa pelo presidencialismo, defende. E quem poderia liderar esse sistema? Júdice responde: “Nenhum deles está com pachorra para isto, mas Rui Vilar e Artur Santos Silva são duas pessoas que têm as características para uma coisa dessas.”

Rui Vilar, economista e antigo presidente da Fundação Gulbenkian, garantiu nesta quinta-feira ao PÚBLICO que não foi sondado para mediar o acordo entre os três partidos que assinaram o Memorando de Entendimento, anunciado na quarta-feira por Cavaco Silva. Questionado sobre se estaria disponível para aceitar esse convite, caso fosse formulado, disse que “é uma questão que não se põe”.

Artur Santos Silva é banqueiro e substituiu Vilar na presidência da fundação, e pediu recentemente um “compromisso sério entre os principais partidos para durante “duas ou três legislaturas” devolver o país ao caminho do crescimento.

Para liderar um golpe de estado escolheria "homens moderados", como o economista Vítor Bento, que "sabe exactamente o que é que é preciso fazer", e António Pires de Lima, que chegou a ser apontado como "ministeriável" na remodelação do governo.

Segundo uma nota do jornal, a entrevista a Júdice é anterior à comunicação de Cavaco Silva ao país. Contactado depois disso afirmou que os acontecimentos de quarta-feira fortalecem o que pensa sobre os partidos e o Presidente.