A maldição de gars Jean

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Esta história começa ao contrário, pelo fim. Por tudo aquilo que precisa de saber sobre Jean Alavoine. Nascido em Roubaix, a 1 de Abril de 1888, cresceu em Versailles, bem perto de Paris, e tornou-se um corredor de garra, dotado de uma formidável resistência.

Venceu 17 etapas na Volta à França, a primeira em 1909, a última 14 anos depois, algo único na história do ciclismo. Teve como adversários não apenas Louis Trousselier, Lucien Petit-Breton, François Faber, Octave Lapize, Gustave Garrigou, os heróis de 1900, que entre eles somam seis Tour, mas também os do pós-guerra, os dois Pélissier, Henri e Francis, Eugène Christophe, Philippe Thys, Firmin Lambot, Ottavio Bottecchia.

Melhor ciclista nos Pirenéus, onde ganhou por seis vezes, o dobro de Federico Bahamontes, Eddy Merckx ou Lucien van Impe, Alavoine permanece como o oitavo mais vitorioso de sempre na Volta à França. Dono de uma carreira excepcional, encerrada em 1925, no final de um último Tour muito honrado, em que ficou em 13.º, tem uma única mácula no currículo. Um único detalhe que não lhe permitiu permanecer eternamente na memória colectiva: nunca foi o melhor da Grande Boucle.

Se há algo de que ninguém pode duvidar é que Alavoine era um verdadeiro predestinado. Em 1909, ainda como neoprofissional, sagra-se campeão nacional. O título permite-lhe a selecção para a equipa em que todos queriam estar. Na Alycon corriam François Faber, vencedor nesse ano, Gustave Garrigou, segundo, Paul Duboc, quarto, Cyrille van Houwaert, quinto, Trousselier, oitavo. Dono de uma extraordinária pujança física, maravilha a França ao ganhar duas etapas. Na estreia, sobe ao terceiro lugar do pódio e é a revelação da prova.

A euforia criada em seu redor condiciona-o e nos dois anos seguintes perde-se no pelotão, só para poder voltar ainda com mais força. 1913 seria o ano das três etapas e do quinto lugar em Paris. Um ano depois, ganha por mais três vezes e chega ao fim em terceiro. Nada podia interpor-se entre Alavoine e a sua inevitável vitória na Grande Boucle. Mas a guerra invade a Europa e o jovem Jean é enviado para a frente de batalha.

O Tour pára e, quando regressa, o ciclista não é o mesmo. A I Guerra Mundial roubou-lhe a juventude, o seu irmão, Henri, os seus companheiros de pelotão. E mudou-lhe o estilo. Menos explosão, menos força, mas uma verdadeira ciência de gestão do esforço que o tornava particularmente perigoso na terceira semana. O ano de 1919 traz-lhe o pior e o melhor. Tem 46 (!) furos e enfrenta a evidência de que não é tão popular como Christophe, nem tão admirado como Henri Pélissier. Mesmo assim é segundo na geral e festeja em cinco etapas.

O explosivo é agora um filósofo da modalidade, condição que não o impede de conquistar o segundo título de campeão nacional, em 1920. Alavoine sonhava, mas o Tour fugia--lhe. Desiste nessa edição da Grande Boucle e na seguinte. Em 1922, apesar de três triunfos consecutivos e de cinco dias de amarelo, será de novo segundo, ultrapassado por Firmin Lambot, depois de ter perdido 37 minutos na 12.ª etapa, 23 na 13.ª e 16 na seguinte. Sempre devido a furos.

Como acreditar que não estava amaldiçoado? O ciclista de Roubaix, de 35 anos, recusa-se a falar em maldição e encara o ano de 1923 como se de uma primeira oportunidade se tratasse. E a vida não podia correr-lhe melhor. Anda na frente, dá espetáculo nos Pirenéus. Ganha três etapas e aproxima-se perigosamente de Ottavio Bottechia.

Mas é um gesto no alto do Peyresourde que ficaria marcado na memória desse Tour. Enquanto subia rumo a um dos cols mais emblemáticos de cada percurso da Volta à França, apercebe-se de que o adversário que seguia à sua frente, Robert Jacquinot, está a definhar na subida. "Então Robert, vais bem?", pergunta com a sua gentileza habitual. Grato pela preocupação, Jacquinot responde-lhe, levantando cerimoniosamente o capacete. "Já não sou capaz de mais. Mas saúdo-te, gars Jean."

O nome ficou e, nos jornais, Jean Alavoine passou a ser "o rapaz Jean". Oito dias depois do "baptismo" de Jacquinot, uma queda terrível na descida do Izoard acaba com o sonho. Tem o cotovelo aberto até ao osso. "Esta manhã, fui ver Jean Alavoine. Estava deitado, com o braço ligado e chorava, o gars Jean. Não porque sofria, mas porque acabou. Chorava porque as suas esperanças caíram com ele sobre a estrada cruel e sem alma", escreve Henri Decoin, o enviado especial do L'Auto. "Acabou, nunca mais vencerei o Tour. Nunca, nunca mais", desabafa Alavoine. Tinha razão. Vinte anos depois, durante uma prova de veteranos, adoece subitamente, é transportado para o hospital e morre.



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