Camisola amarela sem nunca o ser

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Jean Robic a subir o Tourmalet DR

Há um antes e um depois de Jean Robic na Volta à França. Nada surpreendente, já que o francês é o elemento de separação das duas fases da mais importante competição velocipédica do calendário internacional. Mas estas linhas vão além do papel simbólico por ele desempenhado.

Sim, Jean Robic representa a nova era, a era do pós-guerras, a do ciclismo moderno, a do recomeçar do zero após um conflito mundial que obrigou a uma paragem forçada de sete anos. Sim, Jean Robic é o primeiro vencedor depois das edições interrompidas, mas esse é apenas um pormenor quase insignificante.

Na estrada estava o Tour de 1947, o primeiro da França em reconstrução. O orgulho francês estava posto à prova e mais do que nunca "exigia-se" um vencedor nacional. O organizador, Jacques Goddet, fundador em 1946 de um novo jornal, denominado LÉquipe, deparava-se com numerosas dificuldades: o desinteresse do público, a ausência do duo italiano Fausto Coppi e Gino Bartali, a logística impossível.

O favorito lógico era René Vietto, o último vencedor, no distante ano de 1939. Era nele que os franceses acreditavam para uma amarela nacional. E Jean Robic? Bem, o cognome "Bezerro" é a melhor resposta. Pequeno bretão de 1,61 metros, 26 anos, estava longe de ser o campeão ideal. A fisionomia era a de um pugilista, a personalidade de vulcão em permanente erupção. As qualidades natas de trepador eram insuficientes para poder aspirar a uma vitória na Volta à França.

À 14.ª etapa estava definitivamente fora da lista de candidatos. Vietto liderava confortavelmente e "Cabeça de Couro" olhava-o à distância de 20 minutos. No mapa seguia-se Luchon-Pau, uma jornada dantesca com o quarteto Peyresourde, Aspin, Tourmalet e Aubisque. Ressabiado por não ter sido eleito para a equipa de França - representava o modesto Oeste, uma segunda linha francesa, com menos glamour e menos projecção -, Robic ataca de entrada.

Os quilómetros vão passando, as forças diminuindo, mas o orgulho ferido do pequeno trepador dá-lhe asas, tantas que, cortada a meta, teve de esperar mais de dez minutos pelo segundo na etapa. René Vietto, pois claro. Nessa noite, "Biquet" dormiu a nove minutos do anunciado vencedor final.

A caravana seguiu com normalidade até ao próximo desafio, situado à 19.ª etapa. O contra-relógio entre Vannes e Saint-Brieuc era apenas uma formalidade. Especialista exímio, o camisola amarela só poderia reforçar a sua liderança. Mas uma situação insólita haveria de mudar o destino desse Tour. Durante o exercício solitário de luta contra o cronómetro, o "rei" Vietto aproximou-se do director da corrida para conhecer as diferenças e reparou num acidente junto à berma.

Uma moto tinha-se virado na estrada e o condutor, inanimado, estava caído numa valeta. Atordoado, o camisola amarela regressa lívido à estrada. O impacto da visão tinha-o perturbado e cortava a meta a mais de 14 minutos do vencedor. Estava perdido o Tour, mas não a pose de "rei": "Abandonar, quem está a falar em abandonar? Vocês não pensam? Um Vietto não abandona, retira-se."

Segundo à partida do contra-relógio, o italiano Pierre Brambilla veste o "maillot jaune", com menos de 58 segundos de vantagem sobre o seu compatriota Ronconi. Os sonhos dos adeptos franceses estavam desfeitos. O homem que nasceu "acidentalmente" nas Ardenas não tinha percurso nem dificuldades que lhe permitissem recuperar os 2m58s que o colocavam no terceiro lugar.

Na véspera da chegada a Paris, as posições mantêm-se inalteradas. Só um milagre daria a primeira amarela do pós-guerra à França. Restava a etapa da consagração, um percurso plano e sem história entre Caen e Paris.

Mas o inesperado acontece: Robic acelera, rosto desfigurado pelo esforço, pedalar grosseiro e desajeitado. A ele junta-se Fachleitner, membro da equipa de França. Brambilla está isolado, os italianos não reagem. A rivalidade entre os dois companheiros de fuga vem momentaneamente ao de cima. Fachleitner recusa-se a colaborar. Exige-se uma medida desesperada. "Não vais conseguir ganhar o Tour, porque não te vou deixar partir. Se colaborares, pago-te 50.000 francos." O francês abana a cabeça, quer 100.000. "Negócio fechado."

Em Paris, Jean Robic conquista o seu primeiro e único Tour, sem nunca ter vestido a camisola amarela ao longo dos 21 dias da prova. Brambilla entra de amarelo em Paris, derrotado. Exemplo de tenacidade, "Biquet" escreve a 20 de Julho de 1947 uma das jornadas gloriosas da Grande Boucle. A sua vitória continua a ser a única, no pós-guerra, em que o "maillot jaune" mudou de dono numa última etapa em linha.



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