Monsieur Antidoping

Pierre Dumas, médico-chefe da caravana, foi responsável por um estudo que seria apresentado em 1963 e a base da primeira lei francesa antidopagem.

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Na noite depois da 13.ª etapa, Hans Junkermann ficou doente. Quarto na geral final em 1960 e quinto em 1961, o alemão ocupava o sétimo lugar da classificação. O estatuto acumulado nos dois anos anteriores leva a sua equipa, a Wiel, a pedir aos patrões do Tour para abrirem uma excepção e adiarem dez minutos o início da etapa seguinte. Autorização concedida, o combalido ciclista começa a rolar com todos os outros.

Rapidamente, Junkermann perde o contacto com o grupo e, sem forças, é obrigado a desistir. Não seria o único: outros 12 ciclistas sentiram-se mal e abandonaram a Grande Boucle no decurso da 14.ª tirada. A maleita geral tinha um denominador comum, repetido pelos desistentes à exaustão: peixe estragado. Ao coro juntou-se o alemão, que se queixava de ter ingerido comida estragada. 14 corredores abandonaram o Tour nesse dia, incluindo o anterior líder, Willy Schroeder, o vencedor de 1960, Gastone Nencini, e um futuro candidato, Karl-Heinz Kunde.

A sucessão de abandonos alerta Pierre Dumas, médico-chefe da caravana desde 1952. Para ele não há dúvidas quanto à causa justificativa de tantos casos de intoxicação alimentar. O peixe estragado só poderia ser, na realidade, uma mistura de substâncias dopantes, que incluía morfina e analgésicos, cujos efeitos ainda não seriam conhecidos pelos administradores.

O director da prova, Jacques Goddet, assume que suspeita de recurso a doping, mas reconhece que nada pode provar, a não ser que nenhum dos hotéis onde as equipas se instalaram tinha servido peixe. Os jornais ridicularizam os corredores, proliferam as caricaturas, a piada da comida estragada chega aos adeptos. O pelotão, ofendido, ameaça fazer greve, mas o jornalista Jean Bobet, antigo ciclista, convence-os a continuar - mais tarde seria um dos criadores do filme Vive Le Tour!, que goza com a justificação do peixe estragado.

Dumas endereça um comunicado à organização: "O serviço médico do Tour, assombrado pelo número importante de corredores doentes na partida de Luchon, todos com os mesmos sintomas, considera que está diante de um tema maior do que a sua capacidade de controlo, não podendo fazer mais do que alertar para os perigos de certas formas de tratamento e preparação".

A indignação de Dumas com este episódio teria sérias consequências. Juntamente com Robert Boncourt, o seu colega, inicia uma investigação que seria apresentada numa conferência de imprensa no ano seguinte, na edição de 1963 da Volta à França. O estudo seria a base da primeira lei francesa antidopagem no desporto, um exemplo seguido pela Bélgica.

A 1 de Junho de 1965, a França aprova a Lei Herzog, baptizada com o nome do ministro da Juventude e do Desporto, Maurice Herzog, que tem aplicação prática no Tour de 1966, com a realização dos primeiros testes de despistagem de substâncias dopantes. A novidade desagrada aos ciclistas, que ameaçam fazer greve e exigem que o próprio Dumas seja testado, de modo a saber se teria bebido vinho ou tomado uma aspirina para tornar o seu trabalho mais fácil.

"A implicação era clara: mais testes, não ao Tour", escreveu o britânico Geoffrey Nicholson. A lei era dura e ninguém estava disposto a sujeitar-se a um ano de prisão e mais de 400 euros de multa. O protesto dos ciclistas, preocupados com a sua liberdade pessoal e apoiados pela opinião pública, teve efeito imediato, mas não a longo prazo. A derrota não desarmou Dumas, que prosseguiu a sua luta, no Tour e fora dele. Médico da prova até 1969 - em 1967, foi o primeiro a assistir o britânico Tom Simpson, que morreu na subida ao Mont Ventoux, devido à ingestão de anfetaminas e álcool -, tornou-se responsável pelos controlos antidoping ao pelotão até 1977.

Pioneiro no ciclismo, estendeu a sua influência aos organismos polidesportivos, nomeadamente ao Comité Olímpico Internacional. Os primeiros testes de rotina nos Jogos Olímpicos aconteceram no México em 1968, com o cunho de Dumas.
 
 
 
 

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