A greve de Valence d'Agen

No dia 12 de Julho de 1978, os ciclistas revoltaram-se. Chegados perto da meta, desceram das bicicletas e atravessaram a linha branca a pé.

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AFP

Em 1978, os ventos de mudança do Maio de 68 ainda se faziam sentir numa França em permanente ebulição. E o Tour não era excepção. Ano após ano, na década anterior, a Volta à França tinha servido como "montra" a movimentos de cidadãos, a trabalhadores, a revolucionários. Cientes da projecção mundial da prova, viam as suas reivindicações correr mundo.

Longe dos sindicatos, sem qualquer tipo de organização colectiva, o pelotão mostrava-se alheio aos protestos na berma da estrada. Em dez anos, nem um sinal de que Maio tivesse chegado ao coração da Grande Boucle. Até à noite de 11 de Julho. Durante a tarde, os ciclistas enfrentaram uma duríssima etapa de montanha, transpuseram o temível Tourmalet e terminaram, cansados, na estação de desportos de Inverno de Saint Lary-Soulan.

Perdida nos Pirenéus, junto à fronteira com Espanha, a pequena comuna francesa não dispunha de unidades hoteleiras suficientes para acolher as mais de 3000 pessoas que seguiam na caravana. Era obrigatório descer até à localidade mais próxima. Tarbes ficava a 70km, o equivalente a mais de uma hora de carro. Nada de extraordinário para homens habituados a mais de 150km diários sobre a bicicleta e a transfers superiores a 100km etapa após etapa.

Mas a organização do Tour cometeu um erro de cálculo, ignorando as dezenas de milhares de espectadores que, de um lado e de outro da fronteira, acorreram para ver o espectáculo ao vivo em Saint Lary-Soulan. Com uma única saída viável, uma estrada cheia de curvas, o tradicional engarrafamento no final da etapa tomou proporções gigantescas. Sem desvio alternativo para fugir à confusão, os ciclistas tiveram de esperar como toda a gente. Enclausurados, sem direito a massagem e com os níveis de impaciência a aumentar.

Resultado? Todos os da caravana, corredores incluídos, se deitaram depois da meia-noite. Indiferentes ao atraso da véspera, os organizadores, mais preocupados com o espectáculo e a transmissão televisiva, mantiveram o horário de partida da etapa, obrigando o pelotão a acordar às 7h30. Os ciclistas reagem com revolta. O burburinho sobe de tom, a palavra passa de boca em boca e a hipótese toma dimensões reais. E se, como resposta à desconsideração, nesse dia não pedalassem?

Nos bastidores, a greve adquire forma, definem-se as regras do protesto. Opta-se por um "passo de caracol" durante a etapa, com o pelotão agrupado, sem fugas, pela recusa em disputar os sprints intermédios. Mas a medida mais contundente é aquela reservada para o final: chegados a Valence d'Agen, onde está instalada a meta, descem das bicicletas e atravessam a linha branca a pé. O rosto do protesto é Bernard Hinault, o símbolo do novo ciclismo francês - haveria de ganhar esse Tour e outros quatro para se tornar recordista de vitórias, tal como Jacques Anquetil e Eddy Merckx antes dele.

Mas seria André Chalmet, colega de equipa de Bernard Thèvenet, o vencedor de 1977, o porta-voz do descontentamento geral. Em entrevista ao L"Équipe, justificaria o acto do pelotão. "Compreendemos os imperativos financeiros dos organizadores, mas nós não somos animais de circo que são mostrados de cidade em cidade. Não queremos mais dinheiro, mas sim mais consideração. E que respeitem o nosso descanso."

Na edição do diário desportivo francês de 13 de Julho, cuja manchete titulava "Eles perderam os pedais", Chalmet continuava: "As organizações não têm por hábito discutir connosco os problemas. Nós estamos na bicicleta para tentar ganhar a nossa vida, temos contas a prestar aos nossos empregadores e se somos contra algumas práticas podemos manifestar a nossa oposição."

A luta deu frutos. Sem espectáculo e sem vencedor de etapa, a organização mudou de postura. Os patrões do Tour aprenderam que o descanso dos guerreiros era imperial e, daí em diante, fizeram por garantir que as dez horas de repouso exigidas pelos ciclistas fossem cumpridas.
 

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