Fotogaleria
Fotogaleria
Paulo Ricca

22 mil arquitectos são demais para tão pouca obra para fazer

Número de arquitectos aumentou nos últimos vinte anos porque se passou de apenas duas escolas de arquitectura, no Porto e em Lisboa, para as actuais 30

Com mais de 22 mil profissionais no país e um mercado de trabalho em queda, a arquitectura está hoje a viver “uma situação muito grave”, que será debatida a partir desta quinta-feira, em Lisboa, no 13º Congresso dos Arquitectos.

O encontro magno dos arquitectos decorrerá até sábado na Faculdades de Belas Artes, em Lisboa, promovido pela Ordem dos Arquitectos (OdA) e terá como tema “O Futuro da Arquitectura, Hoje!”.

Em declarações à agência Lusa, Manuel Correia Fernandes, presidente da Assembleia Geral da OdA e um dos responsáveis pela organização do congresso, indicou que a Ordem fez recentemente um levantamento para conhecer com mais exactidão a dimensão dos problemas na profissão. “A crise atacou quem vivia muito da área da construção, seja das obras públicas ou particulares, deixando muitos arquitectos no desemprego”, e a saída tem sido a emigração para outros países da Europa, América Latina e Ásia, indicou o responsável da OdA.

Nos últimos anos, tanto a OdA como vários ateliês de arquitectos consagrados, desde Álvaro Siza Vieira a Carrilho da Graça, têm vindo a alertar para as dificuldades do sector desde o agravamento da crise económica do país, afectando a construção e o imobiliário. Manuel Correia Fernandes recordou que o número de arquitectos no mercado aumentou muito nos últimos vinte anos porque se passou de apenas duas escolas de arquitectura, no Porto e em Lisboa, para as actuais 30.

"Há arquitectos a mais"

“Há arquitectos a mais e cada vez menos obra para fazer”, conclui o presidente da Assembleia Geral da OdA, ao mesmo tempo que “proliferam os fogos vazios, sem comprador” em Portugal. De acordo com Manuel Correia Fernandes, “a arquitectura ganhou visibilidade nos últimos 20 anos em todo o mundo, sobretudo nos países do sul da Europa, onde os políticos quiseram deixar a sua marca com edifícios emblemáticos”.

“As cidades apostaram muito na arquitectura enquanto criadora de ícones sociais e Portugal não foi excepção”, apontou, recordando os fundos nacionais e europeus gastos na construção de escolas, estádios, museus e centros culturais. O arquitecto disse ainda que, devido à falta de trabalho no mercado, está a assistir-se “a uma diversificação do exercício da profissão que pode levantar problemas de regulação, formação e responsabilidade” quando estes profissionais trabalham em design, artes cénicas, ou indústria.

Todas estas questões vão ser debatidas a partir de quinta-feira no congresso, que também irá refletir sobre o papel social dos arquitectos, o que é a “boa arquitectura”, a disciplina como um direito cívico e como deve ser feita a sua internacionalização. Correia Fernandes assinalou ainda que cabe à OdA a regulação da profissão — que tem regras, direitos e deveres — e a representação dos arquitectos, que só podem exercer sendo membros da Ordem. A abertura do congresso está marcada para as 14h30 desta quinta-feira.