Nuno Crato quer escolas a escolher professores com base no mérito

Entrevista à revista brasileira Veja desta semana.

O discurso de exigência e de rigor contrastou com a demonstração pública de erros e omissões
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O discurso de exigência e de rigor contrastou com a demonstração pública de erros e omissões RUI GONçALVES/NFACTOS

O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, quer que qualquer escola pública possa “escolher quem contrata e quem demite, com base no mérito”. O problema da educação não é a falta de dinheiro mas de objectivos, revela, esta quarta-feira, numa entrevista à revista brasileira Veja, que tem uma tiragem de 1.169.488 exemplares.

Nuno Crato – que é apresentado como um “matemático”, que se “notabilizou por divulgar e traduzir para o quotidiano os grandes teoremas e equações” e que “comanda hoje uma radical reforma no ensino que se baseia em metas, avaliações e mérito” – diz que o segredo para o sucesso do ensino em Portugal são as metas de aprendizagem. Fundamentais para que os professores saibam o que leccionar e para que os pais possam verificar se as matérias foram ou não dadas.

“Estou a mexer justamente aí, ao sistematizar metas de aprendizagem ano a ano, matéria a matéria, no detalhe. Ter metas para a sala de aula é crucial para orientar não só os professores mas os próprios pais” para que estes possam “cobrar se um determinado conteúdo foi mal dado ou ficou para trás”, defende.

Numa entrevista de três páginas com o título "Contra a demagogia na escola", o ministro revela que, tal como acontece no ensino privado, as escolas públicas devem ter liberdade para contratar e despedir os professores. “É o que estou a planear para os próximos anos em Portugal. Visto como um todo, o modelo de gestão de educação do século XXI ainda faz lembrar muito o velho sistema soviético, em que um comité central concentra todas as decisões. As escolas públicas precisam de mais autonomia para atrair os melhores cérebros e avançar mais rapidamente”, defende.

Horas depois desta notícia ser publicada, o ministério enviou um esclarecimento onde refere que a entrevista não foi transcrita "exactamente [com as palavras] proferidas pelo Sr. Ministro da Educação e Ciência, como aliás se pode perceber pela utilização de diversas expressões brasileiras" e que o ministro falou de "uma maior autonomia e de um papel decisivo das escolas na contratação de professores num horizonte de dez anos e não nos próximos anos, como é dito na entrevista". A nota do ministério diz ainda que Nuno Crato se estava a referir "essencialmente à contratação de professores, mencionando a possibilidade de 'eventualmente' poderem ser dispensados apenas na sequência de uma pergunta da jornalista. O Sr. Ministro diz, aliás, que 'o que importante é dar incentivos para que as pessoas melhorem'".

Escolas premiadas

De volta à entrevista, o governante revela que a tutela reconhece e premeia as melhores escolas, e que estas “recebem mão de obra extra de qualidade”. Tratam-se de estabelecimentos de ensino que dão “reforço aos alunos com mais dificuldades” e apoiam os outros a evoluir. “Sim, os alunos são diferentes entre si e por isso mesmo devem ser tratados de forma diferenciada. A utopia do igualitarismo, essa que muitos na educação defendem, só seria possível num único e não desejável cenário: aquele em que todos são medíocres.”

Sobre a necessidade de investir no sistema educativo, Nuno Crato considera que os “desafios dependem menos de dinheiro e mais de objectivos claros, ambiciosos e de organização”, com o propósito de formar cada vez “mais e mais engenheiros, médicos e cientistas. As crianças devem ser despertadas, desde cedo, para o interesse por essas áreas. Não será à base do velho e empolado ‘eduquês’ que conseguiremos dar o grande salto."

Memorizar a tabuada, cidades e rios

Contra o 'eduquês' e as teorias de Jean Piaget, Nuno Crato defende a memorização. “É importante decorar a tabuada, o nome e a localização de certos rios e cidades e as datas mais importante da História.”

Questionado sobre o modo como as crianças aprendem, o ministro afasta a ideia do gosto pela aprendizagem. Esse é um “pensamento muito limitado” e exemplifica: “Veja o caso da leitura. Muitos educadores acham que para ler bem a criança precisa, antes de qualquer coisa, estar desperta para o gosto pela literatura”, mas não, Crato considera que “tem de se ler muito, mesmo sem gostar. O treino precisa de ser permanente e exaustivo. Quanto mais automática se tornar a leitura, mais hipóteses a criança terá de retirar prazer”.

Para o ministro, o ensino da matemática só tem sucesso se houver “organização do conteúdo por parte dos professores e muito treino do lado dos alunos”. Actualmente, “as sociedades não valorizam o conhecimento rigoroso, aquele que exige método, empenho e exercício para ser bem sedimentado. Acham que as crianças vão aprender por osmose”, conclui.

Notícia actualizada dia 6/6/2013, às 11h40, acrescentada informação de nota de esclarecimento do Ministério da Educação, já expresso numa notícia publicada no dia 5/6/2013, às 23h27.