Líder da esquerda radical grega defende “nova primavera” dos povos europeus

Alexis Tsipras tem sublinhado o alto custo para a UE de uma saída da Grécia do euro
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Alexis Tsipras: "São possíveis três grandes vitórias que podem mudar o curso da história John Kolesidis/Reuters

O líder da coligação da esquerda radical grega (Syriza), Alexis Tsipras, apelou nesta quinta-feira em Lisboa para uma "nova primavera" dos povos que mude o rumo da história e derrote a austeridade.

"São possíveis três grandes vitórias que podem mudar o curso da história. Façam o mesmo em Portugal, quadrupliquem a votação, acredito que o podem fazer", disse Tsipras num comício do Bloco de Esquerda (BE), numa referência à votação obtida pelo seu partido nas eleições legislativas gregas em 2012, que o tornaram no maior da oposição.

"No próximo ano, é uma promessa, o povo e a Syriza estarão no poder e a Grécia livre da troika", afirmou. "Portugal, Espanha, Irlanda, Chipre, também podem livrar-se da troika. Acredito que vamos fazê-lo, unidos vamos vencer", frisou, aplaudido pela assistência que quase encheu o Fórum Lisboa, o antigo cinema Roma.

O combate às políticas de austeridade e às políticas da troika, a defesa de uma "verdadeira democracia" foram temas sublinhados pelo dirigente político grego, em consonância com intervenções anteriores da eurodeputada Marisa Matias e da dirigente bloquista Joana Mortágua.

A união dos países do Sul foi o tema central da intervenção de Alexis Tsipras, que denunciou a "ditadura económica europeia imposta pelos poderosos", recordando que no processo de transição para a democracia, a partir de meados da década de 1970, Portugal, Espanha e Grécia foram considerados casos exemplares.

Países unidos por "laços fortes" mas hoje confrontados com "políticas de desvalorização interna" impostas ou com um "desemprego de longa duração" que contribui para a "crise humanitária" na UE, afirmou Tsipras, que durante a tarde desfilou na avenida da Liberdade nas celebrações do 39.º aniversário do 25 de Abril, integrado no cortejo do BE.

"A Europa do Sul será mais forte que Merkel e a sua aliança", insistiu Tsipras, antes de garantir que a união dos países confrontados com resgates financeiros "a uma só voz" poderá fazer "inclinar" a balança no interior da União Europeia, hoje dominada por um "directório", referiu o coordenador da Syriza.

A realização de uma conferência europeia sobre a dívida soberana, nos moldes "da conferência de Londres de 1953 sobre a Alemanha" voltou a ser defendida pelo líder da coligação de esquerda grega, que pugnou pela anulação do memorando da troika, por políticas que promovam o aumento da procura e imponham uma cláusula de crescimento no quadro de "um novo acordo para a Europa".

"Não aceitamos mais medidas de austeridade, é necessário cooperar, promover iniciativas e acções, porque separados seremos derrotados", assinalou na sua intervenção em inglês, com tradução simultânea.

A mudança dos governos na Europa do Sul foi ainda considerada determinante porque "quem governa no sul determina a direcção da zona euro", antes de recordar que o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, também reconheceu recentemente o efeito negativo de uma continuada austeridade "talvez porque a recessão esteja a chegar ao norte".

Na intervenção que encerrou o comício, o coordenador do BE João Semedo não deixou de fazer uma alusão à sessão comemorativa do 25 de Abril que decorreu pela manhã no Parlamento, e considerou no seu discurso, "Cavaco Silva deu hoje luz verde à nova vaga de cortes e de austeridade que está a ser preparada pelo Governo".