Crítica

Tempos de trevas

Consciência crítica sobre o tempo, a decadência e o mundo à beira do seu abismo na nova série de imagens de Paolo Nozolino

Num inquietante texto intitulado Misera Caput Mundi, João Bénard da Costa dá conta da incapacidade contemporânea em produzir ruínas. As ruínas que diz já não existirem são as que jazem nas profundezas das águas e que são os destroços materiais das antigas civilizações. E estas são aquilo que o mundo contemporâneo deixou de poder produzir e, por isso, ele diz: “a ruína é o nada”. No seu lugar surgiram as imagens, as quais, diz Bénard da Costa, serão a única ruína que guardaremos.

Esta apresentação mostra uma espécie de infertilidade do homem contemporâneo, relacionada com a incapacidade de marcar o tempo. Bénard da Costa desconfia da capacidade das imagens poderem vencer o tempo e, por isso, diz que elas só serão ruínas enquanto durarem. Independentemente do desenvolvimento do argumento, importa fixar que as imagens são as novas ruínas e são aquilo que os que virão depois de nós terão a receber como herança. Este estatuto das imagens é uma novidade sobretudo se pensarmos tratar-se não das imagens da pintura ou da escultura, cujo estatuto já foi garantido pela tradição, mas de imagens do cinema e da fotografia, ou seja, imagens técnicas ainda agora inventadas.

Paulo Nozolino não fala das ruínas, mas o seu olhar transformado nos seres de luz escuridão das suas fotografias inscrevem-se nesta procura dos vestígios do presente. As fotografias são imagens de destroços, lugares abandonados e totalmente esquecidos, ou seja, são imagens acerca das novas ruínas. As quais já não são os vestígios daquilo que um dia existiu e que pode testemunhar a configuração do espírito humano, mas são o que resta depois do abandono e esquecimento. Não se trata de um olhar melancólico com um gosto especial por paisagens de dor, mas do esforço de mostrar o dilúvio em que, como diz Brecht, nos afundámos.

O poeta alemão é o mote desta exposição e o poema Aos que virão nascer não serve como texto que as imagens desenvolvem, mas é a indicação da temperatura a que estão estas imagens. A que se junta o título gloom o qual não tem correspondente em português e cobre uma imensa variedade de sentidos: escuridão, melancolia, tristeza, pessimismo, etc. O que não significa que estas imagens são a materialização de um pessimismo reinante, mas elas dão conta de, voltando a Brecht, vivermos em tempos de trevas.

Estas trevas não são nossas, daqui ou dali, de ontem ou de hoje, mas são de todos e de sempre e parecem colar-se a todos os corpos mortais. Este é o sentido dos versos do poeta. Mas Nozolino mostra essas trevas como sinais do actual ensombramento da comunidade humana e, sobretudo, serem só essas trevas e escuridão que deixaremos “aos que virão a nascer.”

As fotografias, feitas entre 2010 e 2012 na Bretanha em França e por encomenda do Centre de Arte et de Recherche GwinZegal, não documentam aquele lugar, nem têm um conjunto fixo de referentes que querem respeitar. São imagens cujo único lugar é o que é criado no interior de cada imagem e por ocasião de cada enquadramento e de cada disparo. No entanto, serão tudo o que vai sobrar daqueles lugares onde o dia houve vida: são as suas ruínas. Mas é preciso dar-se mais um passo na apresentação destes trabalhos, porque eles não servem unicamente para guardar a memória e serem uma espécie de dique contra a maré do esquecimento, mas as próprias fotografias são elas já uma ruína, ou seja, a condição da imagem fotográfica é ser reconstrução, interpretação e ponto de vista e, portanto, nunca são as próprias coisas, nem se substituem a elas o que as faz serem ruínas de ruínas.

Nesta nova série não há exterior e o fechamento, muito próprio das trevas materializadas nas imagens, é relativo à falta de luz que caracteriza o presente. Não que estes trabalhos falem exclusivamente do nosso tempo, mas a sua condição é a de serem presenças nesse universo onde já quase nada se pode distinguir e este é o tempo da sua respiração. A esta consciência crítica sobre o tempo, a decadência e o mundo à beira do seu abismo, junta-se o rigor com que Nozolino usa a fotografia e que faz com que estes trabalhos pareçam poemas porque nascem da utilização precisa, cirúrgica e simbólica da sua linguagem e que é o mecanismo poético por excelência.