Bob AuBuchon/Flickr
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Megafone

Condição: emigrante

Emigrar tem tudo a ver com reaprender a viver. Emigrar para África ainda mais. A quem chega, não se pede que desista de ser quem é, mas espera-se que aceite os outros como são

Quando me pagavam casa e alimentação e me davam transporte e viagens a Portugal de três em três meses, era expatriado. A partir do dia em que decidi trocar Angola por Cabo Verde (um dia hei-de escrever sobre isto) e um ordenado razoável por um orçamento apertado, tornei-me emigrante.

Saí de Portugal em 2008, por vontade própria, quando a crise estava apenas no início e ninguém imaginava – tirando o Medina Carreira, vá – que viesse a ser “isto tudo” em que se tornou.

Deixar o país implica duas coisas: primeiro, estar disposto a recomeçar; segundo, saber abdicar. Se a viagem tem como destino um país africano, então abdicar significa deixar de lado, em versão simplista: luz eléctrica 24 horas por dia (ou pelo menos aprender a lidar com cortes frequentes), água potável na torneira (dependendo das zonas, água de todo), supermercados com dez marcas diferentes para cada produto e Internet rápida.

Nestes cinco anos, já vi de tudo: betinhos de cabelo impecável que confundem Luanda com Londres, drama queens que choram do primeiro ao último dia com saudades de casa (e do shopping), novos hippies que se põem tão à vontade que acabam com uma hepatite ao fim de três semanas e trolhas que deixam as mulheres em Portugal e arranjam uma amante – ou várias – que os levam até onde não julgavam ser possível.

Todos os outros são aqueles que se envolvem, participam e tentam fazer parte. Tenho visto muita presunção, mas vou conhecendo, também – e felizmente – muita gente cheia de vontade de dar a volta por cima. Assumem o risco e, mesmo quando as coisas correm mal e a estadia acaba por ser mais curta do que o previsto, guardam da experiência o que esta teve de melhor.

Certo dia, a propósito de um episódio de má memória, escrevi qualquer coisa parecida com isto: “nunca serei de cá e não voltarei a ser de lá”. E é este o principal dilema de um tipo como eu.

Em Portugal, olham para mim como o tipo que vive lá fora e não faz a mínima ideia “do que passamos aqui” (além de acharem que estou rico e que passo o dia na praia). Onde vivo, sou um estrangeiro “na terra de gente” e, por melhor integrado que esteja e menos preconceituoso que seja, o argumento “vai para a tua terra” é sempre o último recurso numa discussão.

Emigrar tem tudo a ver com reaprender a viver. Emigrar para África ainda mais. A quem chega, não se pede que desista de ser quem é, mas espera-se, pelo menos, que aceite os outros como são.