Apoio psicológico a vítimas de violência doméstica com funcionamento deficiente, aponta estudo

Falta de divulgação e de financiamento destes serviços são as principais causas apontadas.

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Nos últimos 14 anos, as denúncias de violência doméstica aumentaram mais de 30% MIGUEL MANSO (Arquivo)

A constatação é feita no projecto “Comparação Europeia: Aconselhamento de vítimas de violência doméstica”, financiado pela iniciativa europeia Dafne e resultado de uma parceria transnacional entre o Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS) e as Universidades de Wolverhampton (Reino Unido) e Osnabrück (Alemanha).

O projecto teve como principais objectivos conhecer as percepções dos terapeutas e de mulheres vítimas que passaram por um processo terapêutico, sobre as principais características e resultados desse acompanhamento; e apreender o impacto das condições de financiamento nos serviços de intervenção psicológica com vítimas.

Os resultados provisórios, a que a Lusa teve acesso, vão ser apresentados terça-feira no seminário “Intervenção psicológica a vítimas de violência doméstica: As percepções das vítimas e terapeutas”, em Lisboa.

Esses resultados mostram que “parece existir uma lacuna ao nível da divulgação dos serviços existentes” de apoio psicológico, o que “pode configurar como barreira ao acesso por parte das mulheres”.

“A par dessa lacuna, evidenciou-se uma relativa ausência de compreensão por parte de potenciais financiadores, e mesmo dos Estados, sobre os impactos que esta intervenção pode ter a nível individual e a sua repercussão social”, lê-se no estudo.

Por outro lado, ficou claro para os investigadores que esta ausência de financiamento faz com que estes serviços funcionem de forma deficiente, “o que muitas vezes impede a realização da intervenção com a qualidade e o rigor que a mesma exige”.

No entender dos investigadores, a dificuldade em encontrar investimento nesta área tem muito a ver com o facto de os resultados positivos da intervenção psicológica nas mulheres vítimas de violência doméstica não serem suficientemente conhecidos e divulgados.

O projecto defende, por outro lado, que haja uma intervenção junto das crianças. Ao mesmo tempo, os terapeutas que estiveram envolvidos no estudo reconheceram a necessidade de investir na autonomia das mulheres, “construindo, para o efeito, uma intervenção que respeite integralmente as necessidades das mulheres e lhes devolva a noção de controlo sobre as suas vidas”.

As mulheres entrevistadas no decorrer da investigação defenderam que é importante existir um profissional que as possa ouvir e que saiba respeitar a realidade de cada vítima.

O trabalho levado a cabo pelo Centro de Estudos para a Intervenção Social e as Universidades de Wolverhampton e Osnabrück serviu para desenhar a investigação mais tarde implementada por seis Organizações Não Governamentais (ONG) do Reino Unido, Itália, Letónia, Bulgária e Holanda.

O seminário, que se irá realizar nesta terça-feira, vai servir igualmente para analisar os resultados obtidos e reflectir sobre esta temática tendo por base a realidade portuguesa.

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