O anel de noivado que Napoleão deu a Josefina foi a leilão

Pode não ser tão vistoso como muitas das jóias da imperatriz, mas é certamente muito simbólico. No domingo, a jóia rendeu 730 mil euros num leilão nos arredores de Paris. Napoleão tinha 26 anos quando lho ofereceu e estava apaixonado.

O anel foi vendido por quase 50 vezes mais do que o máximo estimado pela leiloeira em catálogo
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O anel foi vendido por quase 50 vezes mais do que o máximo estimado pela leiloeira em catálogo Patrick Kovarik/AFP

Napoleão tinha-se apaixonado perdidamente por Josefina de Beauharnais, a viúva que viria a coroar como imperatriz dos franceses em Dezembro de 1804. Estavam casados há oito anos, estariam mais seis. O anel que a casa Osenat leiloou no domingo em Fontainebleau, Sudeste de Paris, por 730 mil euros, foi o que o general e imperador (1769-1821), à data apenas um oficial promissor, usou para pedir Josefina em casamento, em Janeiro de 1796. Ele tinha 26 anos, ela 32 e dois filhos.

O compromisso foi anunciado a 24 de Fevereiro e, a 9 de Março, estavam já casados. Pouco depois da cerimónia civil, Napoleão partiu para a guerra, liderando a campanha em Itália. À lua-de-mel que durou apenas 36 horas seguiu-se uma longa separação em que o oficial chegava a escrever à mulher duas vezes por dia. “Desde que te deixei tenho estado constantemente deprimido”, diz uma das cartas, citada pela televisão ABCNews. “A minha felicidade é estar perto de ti.”

Com 18 milímetros de diâmetro, o anel de ouro, decorado com uma safira azul e um diamante, tinha uma base de licitação de oito mil euros e é certamente muito mais simples do que as outras jóias que Napoleão viria a oferecer mais tarde à mulher. “Nessa época, Bonaparte tem muito pouco dinheiro”, explicou aos jornalistas o director do departamento de património histórico da leiloeira, Jean-Christophe Chataignier, citado pelo jornal espanhol ABC. E, por isso, “o anel é de grande simplicidade.”

As pedras, em forma de lágrima e montadas no aro de ouro lado a lado, mas em direcções opostas, têm pouco menos de um quilate cada, garante a ABCNews, a quem Chataignier disse que Napoleão “deve ter ficado nas lonas para comprar o anel”, modesto para uma imperatriz, mas demonstrativo do amor que sentia pela sua futura rainha, continuou. Josefina, por seu lado, movia-se na alta sociedade, já que era viúva de Alexandre de Beauharnais, aristocrata que apoiou a Revolução Francesa mas acabou por perder a cabeça na guilhotina.

Contas feitas, a jóia foi arrematada no domingo por quase 50 vezes mais do que o máximo que a leiloeira previa atingir (12 mil euros), por um comprador que preferiu o anonimato. “Baseámos as nossas estimativas em catálogo no valor actual do anel, menos o facto de ter pertencido a Napoleão e Josefina. Não nos cabe a nós dizer aos licitadores quanto devem eles pagar pela importância histórica [de uma peça]”, disse à cadeia norte-americana Emily Villane, a leiloeira.

O anel de noivado foi intensamente disputado e atraiu atenções, disse ainda Villane. Na sala de Fontainebleau estavam cerca de 300 pessoas, às quais se somam os 50 interessados que licitaram pelo telefone e os cerca de 40 que enviaram propostas por escrito à casa de leilões, que agendou o leilão de modo a coincidir com os 250 anos do nascimento da imperatriz. “Foram 15 minutos de licitação incansável”, contou a leiloeira. “Abrimos com 10 mil euros, subi para 50 mil e a partir daí os lances sucederam-se de dez em dez mil. Quanto bati com o martelo para fechar a venda, tinha chegado aos 730 mil euros e houve um enorme aplauso.”

O casal divorciou-se oficialmente a 10 de Janeiro de 1810, depois de infidelidades de parte a parte, que segundo muitos historiadores teriam sido esquecidas, ou pelo menos ultrapassadas, se Josefina tivesse conseguido dar um herdeiro ao imperador. Napoleão viria a casar outra vez, dois meses mais tarde.

Mas Josefina continuou a estimar o anel de noivado, que viria a dar à sua filha, Hortense, que, tal como o irmão, foi adoptada por Napoleão. Hortense, mais tarde rainha da Holanda, deixou-o, por sua vez, ao filho, Napoleão III, e à mulher deste, Eugénia, a cuja família a jóia pertencia até ao leilão de domingo, explicou Jean-Christophe Chataignier, da leiloeira Osenat.

O anel foi vendido no estojo do século XVIII com a inscrição “toi et moi” (tu e eu). Não sabemos se Josefina era o diamante, se a safira azul.