Pouca malta na romagem à campa do autor de Grândola, Vila Morena

Academia de Alhos Vedros evocou José Afonso no 26.º aniversário da sua morte.

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Cerimónia mobilizou pouco mais de 40 pessoas Miguel Manso

Leonel Coelho agita a malta, porque sente que o que faz falta é mesmo isso. Aos 80 anos, o militante fiel do MRPP continua a mobilizar a Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, de Alhos Vedros, para a romagem anual à campa do cantor José Afonso, no cemitério velho de Setúbal.

Há 26 anos que José Afonso foi ali a enterrar, perante milhares de pessoas. Mas na tarde de ontem compareceram ali pouco mais de quatro dezenas, munidas de um leitor de CD a tocar músicas do "Zeca".

Leonel sabe que só o forte resiste ao combate. E isso explica a sua aparente indiferença aos números. “Eu não me vergo, o que faz falta é agir”, incentiva o activista com a mão pousada na singela lápide do cantor que tanto admira. Mas a ausência de autarcas – só a Junta de Freguesia de Alhos Vedros se fez representar – é objecto de reparo.

Notada também é a presença de jovens muito jovens na romagem. Vestem fato de treino, são os  praticantes de ténis de mesa da Academia de Alhos Vedros, treinados por Leonel Coelho. Vão à loja chinesa mais próxima dar seis euros em troca de pilhas para fazer um velho leitor portátil de CD do anos 90 tocar algumas canções de José Afonso. Junto à campa também discursam.  

“Há que criar nestes jovens o bichinho, o orgulho de estarem ali, de virem no jornal. Há que contar-lhes as histórias, até as mais simples, como a da minha mulher que está aqui e fez muitas vezes uma sopinha para o Zeca”, afirma Leonel Coelho lembrando também as vezes em que os alhosvedrenses esconderam o cantor da PIDE. “A romagem serve para passar este testemunho e dizer nunca digas nunca”, proclama.

A resistente flor da camélia

A campa de José Afonso está à margem dos protocolos habituais nos cemitérios. Na lápide vertical tem apenas inscritos o nome e os anos do nascimento e morte de José Afonso. No chão não há pedra tumular, apenas terra coberta de malmequeres roxos. “A campa é simples como o Zeca”, resume Leonel Coelho.

Mesmo ao lado há uma camélia de com flores vermelhas. Esta pequena árvore floresce apenas no Inverno, dando um colorido especial a quem visita a campa em Fevereiro, o mês em que José Afonso morreu. “A camélia é de uma resistência grande, desenrasca-se sozinha”, destaca Leonel.

No cemitério de Setúbal, ninguém canta: ouve-se apenas o CD. Mas na evocação lembra-se a “Grândola”, senha da revolução de 1974 e dos protesto contra os ministros do Governo português dos últimos dias - e que até em Espanha já foi cantada em contextos idênticos. Leonel Coelho preferia “algo mais forte”, como Os Vampiros, cuja letra avisa: “Se alguém se engana com seu ar sisudo/ E lhe franqueia as portas à chegada/ Eles comem tudo eles comem tudo/ Eles comem tudo e não deixam nada/ Eles comem tudo eles comem tudo/ Eles comem tudo e não deixam nada”. “'Grândola' foi uma música da paz, uma música do golpe de Estado, mas para este momento eu preferia Os Vampiros. A 'Grândola' podia cantar-se antes do 25 de Abril, mas muitas outras não”, explica Leonel Coelho.

O activista elogia a atitude dos estudantes do ISCTE, que há dias impediram o ministro Miguel Relvas de discursar. “Os estudantes são aqueles que em toda a parte do mundo são os primeiros a dar a cara”, defende. E Leonel Coelho acredita que é no no chão do medo que tombam os vencidos.

Junto à campa há quem lamente a fraca presença dos setubalenses. Estes respondem do Estádio do Bonfim: é golo do Vitória e o eco do megafone e dos festejos faz-se ouvir no cemitério. O golo dita a vitória da equipa frente ao Beira-Mar, equipa de Aveiro, cidade onde nasceu José Afonso, a 2 de Agosto de 1929. O cantor morreu a 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.