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“Lincoln”… do passado para o futuro

A clarividência de Abraham Lincoln é tudo o que ambicionamos para os tempos presentes. Tudo o que mais queremos num tempo de crise de valores, crise de esperança

Ao contar a história do 16º presidente dos Estados Unidos, um dos mais icónicos e recordados, Steven Spielberg abdica do elemento surpresa. Cada passo, cada resultado, cada final é sabido e esperado. E, também, cada processo até ele. Ainda assim, este filme é um espectacular relato dos acontecimentos que levaram à abolição da escravatura e ao fim da guerra civil americana no século XIX. Pausado, a sépia, entre sombras e luzes, amiúde no vão de uma janela ou numa sala cheia de papéis, esta história é contada com os impulsos e os suspenses de um discurso apaixonante. É contada exactamente como deve ser sentida.

“Lincoln” é o filme com mais nomeações para os Óscares em 2013. São 12. Entre elas, Daniel Day-Lewis para Melhor Actor. Interpretando um homem intrigante, inteligente, dedicado e justo, Daniel Day-Lewis não sucumbe ao peso da personagem, antes faz justiça à ideia que permanecia na mente das pessoas. Abraham Lincoln é como que um mito para os Estados Unidos, um presidente de sonho que entrou na história a representar os valores mais intrínsecos daquela nação: igualdade e paz.

Ainda que os factos históricos tenham ficado amplamente registados e, mesmo, as rotinas, os tiques e alguns momentos desta figura icástica também, a história não nos diz cada passo, cada gesto, cada olhar. E é exactamente aqui que Daniel Day-Lewis entra, com mestria, com carinho e com muito, muito talento. As mãos, as pausas nas histórias que contava e o olhar denunciam este poder de trazer à vida uma lenda. “Eu sou o Presidente dos Estados Unidos, revestido de imenso poder, você vai conseguir-me esses votos” é uma das frases que sobressai, sobretudo pelo pico emocional que representa, pela sensação de desespero que transmite e pela imensidão de poder que Daniel Day-Lewis, como actor, emana.

PÚBLICO -
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Leonor Capela, finalista do curso de Ciências da Comunicação, Universidade do Porto

Em termos políticos e sociais, “Lincoln” é um marco não só pelo momento histórico que narra mas, também, pelo debate moral e pela discussão política que relembra. Por muito disfarçada que se encontre essa mensagem, os espectadores de todo o mundo devem perceber este filme como uma forma de reacender uma chama dentro dos seus corações. E por muito floreada que a história esteja neste filme, o futuro é incendiado por um passado floreado. É apenas uma forma de construir esperança. É isto que este realizador faz, de um modo muito americano.

Cada espectador abandona o cinema questionando-se, inocentemente tocado: “Que homem maravilhoso foi este? Que sabedoria, que poder, que justiça!”. E questiona-se ainda sobre como terá sido estar naquela sala, como terá sido ter de votar, escolher um voto que iria fazer história. Será que eu teria tido a capacidade de saber votar “sim”? E a mensagem está lançada. Porque o verdadeiro lema deste filme é transmitido insistentemente nas pequenas lições que o presidente conta. Como a lição de Euclides. A clarividência de Abraham Lincoln é tudo o que ambicionamos para os tempos presentes. Tudo o que mais queremos num tempo de crise de valores, crise de esperança. Resta saber se acreditar que um dia aconteceu chega para fazer acreditar que pode voltar a acontecer.