Testemunha do caso Pistorius ouviu gritos de mulher no intervalo dos disparos

Atleta volta quinta-feira ao tribunal. Vai ser acusado de posse de munições ilegais e pode ser suspenso de participar em provas, se se confirmar que usava esteróides anabolizantes.

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O atleta em tribunal esta quarta-feira Reuters
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Os irmãos do atleta Aimee e Carl, e o pai Henke Pistorius na sala de tribunal AFP
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A planta da casa de Pistorius onde ocorreu o crime AFP
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Títulos de jornais no exterior do tribunal de Pretória Reuters
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A imprensa sul-africana da manhã desta quarta-feira AFP

Um investigador da polícia disse nesta quarta-feira ao tribunal de Pretória que uma testemunha ouviu gritos de mulher entre os disparos de Oscar Pistorius que mataram a namorada, Reeva Steenkamp. O intervalo entre o primeiro tiro e os seguintes foi de 17 minutos, segundo outro testemunho.

Logo no início da sessão judicial desta quarta-feira, o procurador Gerrie Nel declarou que uma testemunha ouviu "gritaria" entre as 2h e as 3h da manhã de quinta-feira passada, pouco antes de Reeva Steenkamp ter sido assassinada, o que o contraria a versão dos factos apresentada pelo atleta sul-africano e a tese de acidente exposta pela defesa. Pistorius disse, na terça-feira, que estavam completamente enamorados.

Mais tarde, um investigador da polícia declarou que uma testemunha ouviu tiros, seguidos de gritos de mulher "e depois novos disparos". "Temos o testemunho de uma pessoa que disse que,depois de ter ouvido tiros, foi à varanda e viu a luz acesa [na casa de Pistorius], em seguida ouviu uma mulher gritar duas ou três vezes, e novos disparos", declarou, segundo a AFP, Hilton Botha, que chefia a equipa de investigação policial. Segundo a Reuters, o investigador disse também, citando outra testemunha, que o intervalo entre o primeiro disparo e os seguintes foi de 17 minutos.

A imprensa sul-africana tinha já escrito, a partir de informações prestadas por investigadores, que o casal se envolveu em disputas violentas nas horas que antecederam a morte da modelo. A indicação de que houve uma discussão contraria também a informação prestada por Pistorius de que esteve a dormir até pouco antes dos disparos que vitimaram a namorada.

Hilton Botha descreveu, nesta quarta-feira, ao tribunal o cenário que encontrou no local, às 4h15 da madrugada de dia 14. Reeva Steenkamp já tinha sido declarada morta pelos socorristas. "Acredito que ele sabia que ela estava na casa de banho", disse.

Botha afirmou ainda que a localização dos buracos das balas indica que Pistorius disparou de cima para baixo, o que indicia que já tinha as suas próteses colocadas.

O chefe da equipa de investigação revelou ainda que o irmão e o advogado de Pistorius chegaram a casa do atleta às 4h15 para recolherem documentos sobre contas bancárias em off-shore. O atleta tem um rendimento anual a rondar os 480 mil euros.

Assassínio premeditado
Num texto lido na terça-feira pelo seu advogado, Pistorius deu a sua versão. Afirmou ter disparado através da porta da casa de banho por pensar que estava um ladrão no interior e que mais tarde forçou a porta com um taco de críquete para socorrer a namorada.

Na terça-feira, o procurador responsável pelo caso acusou Pistorius de assassínio premeditado. "Pôs as próteses, caminhou sete metros e disparou", disse, citado pela AFP. "Preparou-se. Armou-se. Ele queria matar", argumentou, segundo os relatos da imprensa local. "São estes factos frios que fazem deste um assassínio premeditado.

Nesta quarta-feira Gerrie Nel disse que não há dados que sustentem a versão de que Pistorius confundiu a namorada com um ladrão. Segundo a AFP, o juiz do caso, Desmond Nair, deu a entender que é sensível aos argumentos do procurador, o que tornaria a libertação provisória um cenário pouco provável.

As declarações do procurador e do investigador policial, que procuraram desmontar a tese de morte acidental, dificultam a tarefa da defesa de Pistorius, que tenta convencer o tribunal de que o atleta matou a namorada por acidente e não de modo intencional e premeditado.

Barry Roux, o advogado do atleta, alegou que a autópsia não revelou a existência de outro tipo de violência para além dos disparos, facto confirmado pela polícia. Procurou também encontrar contradições nas declarações do investigador policial, procurando desacreditá-las. 

Segundo a Lusa, o detective-chefe entrou em contradição em declarações sobre a sequência de acontecimentos que antecederam a morte. O depoimento de Botha incluiu referências a telefonemas que Pistorius teria ou não feito, após a tragédia, à segurança do complexo de residências onde vive e aos serviços de emergência; a testemunhos de vizinhos e a substâncias encontradas no seu quarto.

Posse ilegal de arma e seringas no quarto
Hilton Botha disse que Pistorius será acusado pela posse ilegal de munições calibre .38 encontradas em sua casa. O tribunal foi igualmente informado pelo investigador que foi encontrada testosterona, produto proibido a desportistas, e seringas no quarto do atleta paralímpico, o que cria suspeitas de doping de um desportista que, até há dias, era idolatrado no país.O advogado de defesa disse que se trata de um "remédio à base de plantas" e que Pistorius tem o direito de o utilizar. 

Um porta-voz do Comité Paralímpico Internacional, Craig Spence, disse à AFP que o atleta foi submetido a dois testes anti-doping durante os Jogos Olímpicos de Londres, no ano passado, e que ambos deram resultados negativos.

A imprensa local, citando fontes da investigação, tinha avançado que foram encontradas caixas suspeitas e seringas em sua casa. O jornal sul-africano Times avançou que, independentemente da evolução do processo judicial pela morte da namorada, Pistorius pode ser proibido de participar em competições, se se confirmar que tomou esteróides anabolizantes. Os esteróides podem, nota a AFP, provocar crises de violência descontrolada.

O que para já está em causa é a decisão sobre a libertação, ou não, sob caução, de Pistorius, conhecido como "Blade Runner". Os trabalhos desta fase “prévia” foram suspensos às 15h locais (13h em Portugal continental) e prosseguem quinta-feira. Nessa altura, a defesa apresentará argumentos a favor da libertação condicional.

O crime vai também ter, naturalmente, efeitos a nível dos contratos publicitários. A Nike e a cosmética Thierry Mugler informaram que não têm planos para futuras campanhas publicitárias com o atleta. E o fabricante de óculos de sol Oakley anunciou a suspensão do contrato “com efeito imediato”.